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Tony Monti

O vermelho das carpas frias

Ernesto Kohler - Do Livro O Final das Espécies, 20101. o mapa
Os joelhos estavam enormes. Eu prefiro os assados na grelha, com a pele escura e crocante, mas os molhos que acompanham os joelhos refogados também me agradam. A digestão é lenta. Por causa disso, adiamos uma hora o início do almoço. Trabalhamos um pouco mais de manhã para que o sono decorrente da refeição atrapalhe por menos tempo a produtividade de tarde. Há um acordo velado de que também atrasamos meia hora o retorno à empresa. Com uma hora e meia de almoço podemos comer, fazer um pequeno intervalo, e comer de novo. A maior parte de nós come tanto Eisbein assado quanto Eisbein refogado, uma receita em cada turno de almoço. Entre os turnos, somos cúmplices uns dos outros ao tomarmos uma caneca grande de cerveja de trigo. Brindamos sem alarde, para não ofender os ortodoxos. Uma parte mínima dos funcionários toma a liberdade de repetir a Weissbier. Bebem em silêncio.

Quando deixamos pesados o restaurante, caminhamos até a empresa pela principal avenida de Schroeder. Quase não conversamos durante o trajeto. São dez minutos de reflexão silenciosa entre alemães e italianos. Não sei bem o que os demais pensam. Eu me concentro em respirar, manter a postura ereta e não perder o ritmo dos passos. Na rua há pouca gente. Há grupos semelhantes aos nossos. Quase ninguém sozinho, quase ninguém falando. Costumamos passar em frente à empresa, na calçada oposta, e caminhar mais duzentos metros para atravessar na faixa de pedestre, como sugere a lei, apesar de ser mínimo o fluxo de carros. Voltamos então no sentido oposto e entramos para o trabalho. Poderíamos ter atravessado a avenida na faixa em frente ao restaurante, mas esta discreta estratégia nos dá cinco minutos de caminhada a mais e cinco minutos de trabalho a menos.

De noite, quando saímos da empresa, a maioria dos que voltam ao restaurante são solteiros. Às vezes alguns casados vão sem a família. É raro, mas acontece também, levarem mulher, marido, filhos, amigos. Os demais vão embora comer Eisbein em casa. Duas horas depois, nos dispersamos, cada um para seu lado. Às dez e cinquenta e sete, quando passa o trem, as ruas estão vazias. A linha do trem cruza a avenida em diagonal selando o fim do dia. Há um bar e um restaurante no centro, onde alguém deve estar bebendo e comendo. Quando o trem passa, eles fazem um brinde a mais um dia de vida.

2. as margens do mapa
Duas estradas chegam a Schroeder, no centro de Santa Catarina. Nesta época do ano, em ambas a paisagem é a mesma: quadras enormes, imersas em água, encravadas em um descampado às vezes interrompido por pequenas plantações. Lagos quadrados em um terreno vasto. Poderiam ser uma titânica criação de carpas que esconderia, sob a superfície, movimentos e tons de vermelho na paisagem parada, azul, marrom, verde e um pouco cinza. Mas não, o que as lâminas d’água quase imóveis encobrem são pequenos caules de arroz que vão crescer no terreno alagado. Bem perto da cidade, no descampado começam a aparecer pontos escuros sobre a terra e o mato, animais inertes, não grandes como bois nem pequenos como galinhas. Não é preciso chegar muito perto para ver que são porcos, parados ou arrastando-se lentos. Além da lentidão e do precoce envelhecimento dos bichos, nota-se que todos eles têm uma ou duas pernas decepadas acima da altura do joelho.

3. o reflorestamento
Há quem reclame da situação dos animais mutilados. Agora desenvolveram um joelho mecânico que substitui nos porcos os joelhos originais. O equipamento é caro, poucas fazendas vendem Eisbein com reposição de joelhos. Antes dos joelhos mecânicos, tentou-se produzir em laboratório joelhos de porco comestíveis sem a necessidade de produzir corpos inteiros, mas a suculência, a textura e o sabor desejados nunca foram conseguidos. O mesmo laboratório hoje desenvolve os molhos para acompanhar o Eisbein biológico.

A cidade tem estado estranha. Nunca foi fácil dizer se somos italianos com hábitos alemães ou o contrário. Na cidade, os alemães nunca têm mais que dois filhos. Os italianos às vezes têm cinco, seis. Há cada vez mais italianos na cidade e cada vez mais porcos nos arredores. É como os porcos, diz uma anedota que circula entre os italianos, pouco joelho para muita carne inútil. Não entendo o rumo dos acontecimentos, se queremos salvar os porcos, dar-lhes uma sobrevida ou descartá-los imediatamente.

Ernesto Kohler - Do Livro O Final das Espécies, 20104. o vermelho das carpas frias
Eu gosto dos porcos. Nunca vi um joelho mecânico. Imagino que seja um mecanismo simples, muito preciso, de metais nobres e frios com pequenos elementos plásticos. Quando o arroz cresce nas quadras alagadas, meu pensamento sobre as carpas fica interrompido pela robustez do que eu vejo. Não é fácil inventar peixes vermelhos nas frinchas do arroz. Quando penso que porcos com joelhos de platina caminham tranquilos, me vem uma ampla sensação de limpeza que me tira a parte voraz da fome.

Minha dúvida, no final das contas, é entender se o laboratório da cidade deveria trabalhar para saciar a fome ou para produzi-la, aumentando assim o meu prazer de comer joelhos, o que torna a questão sobre o destino dos porcos decepados uma derivação casta do meu desejo primário de comer e engolir em grandes quantidades.

5. joelhos prata e azul
Há muitos pontos de vista. Não duvido que um dia eu escute alguém propor a suspensão do consumo dos joelhos. Imagino que todos já pensaram no assunto, mas nunca encontrei quem o verbalizasse. Talvez haja intimidades ainda mais escondidas. Quando tenho muita fome, minutos antes de chegar ao restaurante no almoço, tenho certeza de que o maior respeito aos porcos, animais tão semelhantes a nós mesmos, seria deixá-los sem joelho, jogados aos urubus e aos vermes, sem interferir na natureza das coisas. Essa ideia antecipa para mim o encontro da fome e do alimento. Sinto neste momento um intenso prazer estético. Minha fome é como um ódio.

Quando a fome passa, quando caminhamos em silêncio pela avenida de volta ao trabalho, minha cabeça parece outra. Começo a achar bonitos os joelhos mecânicos que nunca vi. Imagino algo entre prateado e azul, muito limpos, frios como as carpas, mas sem as manchas vermelhas. E me sinto bem quando atravesso a porta de vidro e percebo a brisa do ar condicionado na temperatura exata. O gosto do almoço é um excesso discreto, um vestígio na boca. Espero uns instantes na minha mesa, pesado, apenas respirando, antes de escovar os dentes.

Tony Monti é doutor em literatura brasileira e autor de eXato acidente
(contos, 2008) e O menino da rosa (contos, 2007). Em 2011 participou da coletânea Geração zero zero: fricções em rede. Escreve regularmente em seu blog pessoal www.tonymonti.wordpress.com

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