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Política Científica

Os canais que ligam a ciência e a sociedade

DPCT se tornou um polo de reflexão e de formação de especialistas na área

Novo prédio do Instituto de Geociências da Unicamp: estudos interdisciplinares

léo ramosNovo prédio do Instituto de Geociências da Unicamp: estudos interdisciplinaresléo ramos

A partir dos anos 1980, a Unicamp ocupou um espaço na produção do conhecimento sobre desenvolvimento científico e tecnológico e na formação de recursos humanos dedicados a esta área no Brasil. O Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT), criado no Instituto de Geociências (IG), tornou-se um polo de estudos interdisciplinares sobre as relações entre ciência e sociedade e de reflexões sobre os obstáculos que limitam a capacidade de inovação do país e as estratégias possíveis para enfrentá-los.

O cardápio de suas linhas de pesquisa é extenso. Nos primeiros tempos, o foco estava sobre temas como o impacto das mudanças tecnológicas no trabalho e no meio ambiente e a identificação de áreas do conhecimento promissoras nas quais o país deveria investir. Depois, outras vocações se desenvolveram, como a avaliação de instituições do sistema de ciência, além de estudos sobre ciência e gênero, interações entre pesquisadores e o setor privado, ou ainda as chamadas tecnologias sociais, que compreendem técnicas e soluções para problemas e demandas da sociedade. Docentes do DPCT também estão vinculados ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), iniciativa da Unicamp para produzir pesquisas e formar especialistas em jornalismo científico (ver reportagem).

O lançamento dos programas de mestrado do DPCT, em 1988, e de doutorado, em 1995, multiplicou a capacidade de reflexão – até hoje, a pós-graduação gerou 223 dissertações e 123 teses. Segundo o economista André Tosi Furtado, professor do DPCT, o departamento contribuiu, ainda nos anos 1980, para estudos sobre a competitividade industrial encomendados pelo governo federal e foi pioneiro na produção de indicadores. Ele destaca, por exemplo, os estudos feitos em parceria com o Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (Neit), vinculado ao Instituto de Economia (IE), e o Centro de Estudos de Petróleo (Cepetro), para organizar a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) nos anos 1990, que regula as atividades do setor. “Para reduzir os impactos da desregulamentação do setor, sugerimos a criação de um fundo setorial para investimento em pesquisa e desenvolvimento no setor de petróleo. Esse fundo, que infelizmente foi extinto recentemente, inspirou o governo federal a criar outros fundos setoriais que se tornaram essenciais para o financiamento da atividade científica do país”, conta Furtado.

Em meados dos anos 1990, o DPCT foi convocado a produzir um estudo sobre a competitividade da Petrobras e mostrou que a capacidade de inovação da empresa estava atrelada a seu tamanho e coesão. “Havia um debate sobre o desmembramento da estatal, seguindo um modelo executado na Argentina e no Peru, mas mostramos que a força tecnológica da empresa era sua coesão. Essa ideia foi vitoriosa”, afirma. O conteúdo de artigos, dissertações e teses do DPCT, observa Furtado, frequentemente gera repercussão. Ele menciona, por exemplo, estudos sobre o programa espacial brasileiro segundo os quais o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) se legitimou após o fim do governo militar, ao se dedicar a atividades com impacto na sociedade e na economia. “O Inpe criou uma política de desenvolvimento de equipamentos de satélites por meio de empresas que ajudou a desenvolver tecnologia nacional no setor aeroespacial no Brasil”, diz Furtado.

Um campo que tradicionalmente mobiliza o DPCT é o dos estudos sociais da ciência e da tecnologia, área interdisciplinar com forte contribuição das ciências humanas que analisa a produção do conhecimento como uma construção social, inserida no processo histórico e afetada por fatores econômicos, políticos e culturais. “Somos herdeiros da sociologia, mas hoje nosso campo reúne pesquisadores de muitas áreas, como matemáticos, antropólogos e economistas”, diz a cientista política Maria Conceição da Costa, professora titular do DPCT, que se dedica a pesquisas em estudos sociais da ciência desde o início dos anos 1980. Em agosto de 2014, Conceição coordenou um evento, sediado no DPCT, que atraiu pesquisadores e estudantes de 17 países. Financiada pela FAPESP, a Escola São Paulo de Ciência Avançada em Biotecnologia, Biossociabilidade e Governança em Ciências da Vida discutiu desafios e implicações de tecnologias que estão na fronteira do conhecimento, tais como a transgenia e a biologia sintética.

Outra contribuição se deu no campo da avaliação com a criação em 1995 do Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Geopi), que desenvolveu estudos de prospecção tecnológica em setores como o elétrico e o de produção de etanol, além de indicadores e metodologias para avaliação de políticas, programas e instituições científicas. “A avaliação é um tema que permeia o trabalho de muitos colegas do DPCT”, diz o professor Sérgio Salles-Filho, fundador e coordenador do Geopi, que reúne 20 pesquisadores. “Nosso laboratório criou uma competência, que foi investigar e desenvolver metodologias de avaliação em várias dimensões do impacto de políticas e programas científicos e de inovação”.

Em meados dos anos 1990, o grupo apresentou um projeto no primeiro edital do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas da FAPESP, que resultou num software capaz de medir o impacto do investimento em projetos científicos, adotado por empresas como a Petrobras e a Sabesp. “Já havia experiência no país de medir o retorno do investimento em pesquisa em agricultura. Criamos o grupo para entender como esse tipo de avaliação era construído e testar novos métodos”. A FAPESP é um dos objetos de estudo do Geopi. O laboratório fez a avaliação do impacto de vários programas da Fundação.

O geólogo argentino Amilcar Herrera, no início dos anos 1980

arquivo central/siarqO geólogo argentino Amilcar Herrera, no início dos anos 1980arquivo central/siarq

Pensador do desenvolvimento
Uma figura central na trajetória do DPCT foi o geólogo argentino Amílcar Herrera (1920-1995), pensador do desenvolvimento latino-americano que trabalhava na Unidade de Pesquisa em Política Científica (Spru, na sigla em inglês) da Universidade de Sussex, no Reino Unido. Ele foi recrutado pelo reitor Zeferino Vaz em 1979 para montar um instituto para as geociências, de caráter multidisciplinar e dedicado a áreas pouco desenvolvidas no país, como economia mineral, geoquímica, educação em geociências e política científica e tecnológica. Herrera era conhecido como um dos criadores do Modelo de Bariloche, segundo o qual os problemas mais prementes do planeta não eram físicos, como a ameaça de esgotamento de recursos naturais, mas sociopolíticos, baseados na distribuição desigual de riqueza e poder em nível internacional e regional, cujos resultados incluiriam a degradação ambiental.

A princípio, o grupo dedicado à política científica e tecnológica aglutinou-se em um núcleo de pesquisa em 1981, que se converteu em departamento em 1985. “Ainda hoje tem gente que pergunta o que pesquisadores de política científica estão fazendo num Instituto de Geociências. Damos a mesma resposta que o professor Herrera dava: que um campo interdisciplinar como esse poderia surgir em vários departamentos e o Instituto de Geociências chegou primeiro”, diz a socióloga Leda Gitahy, pesquisadora do DPCT desde o início dos anos 1980.

O caráter inovador do departamento e do curso transformou o DPCT num polo de formação de pesquisadores na área. “Nossos ex-alunos têm uma formação diferenciada e podemos dizer que deram origem a ‘spin-offs’ em outras universidades”, diz Furtado, referindo-se a grupos de pesquisa nas universidades federais do Paraná (UFPR) e de São Carlos (UFSCar), cujas lideranças fizeram parte de sua formação em Campinas. “Temos ex-alunos trabalhando em universidades, na gestão da inovação em empresas públicas e privadas e em órgãos de governo ligados à ciência e à tecnologia”, diz Leda. A rede tem inserção internacional. “Desde o início, graças a bolsas concedidas pela Universidade das Nações Unidas, tivemos estudantes de outros países, na maioria da América Latina”, afirma.

Ao longo da trajetória do Departamento, discutiu-se a possibilidade de criar um curso de graduação em política científica e tecnológica. A ideia ainda não vingou, mas os pesquisadores do DPCT ministram várias disciplinas para as turmas de graduação em geologia e geografia do IG – e para outros cursos da Unicamp. A mais popular é a disciplina Ciência, Tecnologia e Sociedade, que atualmente tem oito turmas, atendendo alunos de pós-graduação do DPCT, de graduação da Unicamp e do Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS), um curso para alunos formados em escolas públicas de ensino médio de Campinas (ver reportagem). “É só abrir a turma que ela logo está cheia”, diz Leda Gitahy.

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