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Os desafios da popularização

Os desafios da popularização

Co-curadoras da exposição debatem melhor forma de divulgar a ciência

Eliana Dessen: fazer a transposição de um saber para outro não é simples

Marcia minilloEliana Dessen: fazer a transposição de um saber para outro não é simplesMarcia minillo

O conjunto de técnicas que permitiram seqüenciar o DNA teve grande importância para a biologia, abriu um vasto campo de pesquisa, mas seu impacto se deu com maior intensidade na vida cultural. “A mídia apresentou uma versão dos fatos que encantou as pessoas, embora em uma versão muito simplificada e muito simplificadora”, afirmou a co-curadora da exposição Revolução genômica, a jornalista Mônica Teixeira. Ela participou do debate com a outra co-curadora, Eliana Dessen, geneticista do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, e com Juliana Estefano, gerente de Relacionamento do Instituto Sangari, no sábado (8 de março), cujo tema era “A contribuição da exposição Revolução genômica para a divulgação da ciência”.

Mônica lembrou que a mídia abraçou o assunto com entusiasmo e transformou o DNA em uma imagem comum. “Isso acabou por se tornar algo que suporta uma fantasia, um grande sonho contemporâneo”, disse. Mas, ao mesmo tempo, nos desobriga de muita coisa. “Dizemos ‘tal característica está no DNA’. E, se alguma coisa está no DNA, há uma impossibilidade de ser modificado.” A idéia equivocada de que a vida parece predeterminada a ocorrer de uma única manei­ra acabou se tornando corriqueira. Para ela, esse é um aspecto complexo que deveria ter sido contemplado na exposição. A Revolução genômica foi montada originalmente em 2001, quando tudo relacionado à genética tinha uma dimensão maior do que hoje. “A exposição tem um teor elogioso”, diz Mônica. “Nada contra, mas ela poderia instilar algumas dúvidas nas pessoas.”

Não se trata de afirmar que a exposição não faz pensar. “Ela provoca algumas reflexões, especialmente no campo do Centro de Estudos do Genoma Humano, nessa área em que as pessoas fazem testes para saber se desenvolverão alguma doença específica ou se o feto carrega também algum problema que os pais têm”, diz Mônica. “Mas acho que esse é um passo que é mais do indivíduo e menos do conjunto da sociedade.”

Eliana Dessen falou da dificuldade de transpor o saber do cientista para a divulgação científica, uma missão freqüentemente associada aos museus de ciência. No Brasil, talvez essa dificuldade seja um pouco maior. “Grande parte dos museus de ciência foi instalada no Brasil na década de 1990 e hoje o papel desses centros de ensino e divulgação científica ainda é razoavelmente incipiente”, disse. A exposição atual veio do Museu de História Natural de Nova York e tem uma pedagogia tradicional, embora não dispense a pedagogia construtivista e moderna nas partes interativas, de acordo com Eliana.

Durante o debate com o público que assistiu à mesa-redonda surgiu a questão sobre como se dão as experiências de divulgação científica em museus. Eliana lembrou que os  museus tradicionais, como o de Nova York, têm a pesquisa atrelada a eles, além do empenho na popularização da ciência. “O cientista não é um especialista em divulgação”, ressalvou Eliana. “Ele tenta, embora isso funcione mesmo quando entra em contato com profissionais da área e com outros pesquisadores.” No Brasil, ela citou o Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast), no Rio de Janeiro, vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, como um bom exemplo brasileiro de instituição que tem pesquisa e cuidado com a educação do público.

Da platéia, o professor da Unesp de Araçatuba Roelf Rizzolo lembrou que o Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), também no Rio, é uma boa referência. E Mônica falou do museu da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, como sede de boas experiências na área. “Não vamos esquecer que os grandes museus do exterior investem em exposições também para captar dinheiro e reinvestir o lucro em pesquisa e na criação de mais e mais exposições”, afirmou Rizzolo. “Acredito ser possível fazer pequenas exposições sobre temas específicos, com pouco dinheiro, mas inteligentes”, propôs Mônica. “Não é preciso ser uma megaexposição para ser boa.”

O DNA na mídia
Juliana disse que as exposições científicas atraem bom público – a sobre Darwin, no ano passado, levou em 10 semanas 175 mil pessoas ao Museu de Arte de São Paulo. “Por mais que a Revolução genômica pareça complexa, na verdade é um tema simples de entender”, falou Juliana. As co-curadoras discordaram. “Não basta ler uma das informações presentes na exposição, como, por exemplo, ‘todo ser vivo tem DNA’”, disse Eliana. Isso todos sabem, leram e ouviram em alguma época. Mas será que foi incorporado na rede cognitiva do indivíduo? “Podemos fazer como teste uma pergunta manjada, ‘Você come DNA?’”. A maioria dos alunos de biologia dizem “não”, embora saibam que o ser vivo tem DNA. Isso ocorre porque aquilo não está incorporado como um significado, embora ele coma alface, tomate, carne. É importante o indivíduo entender esse significado – é só a partir dele que se pode dizer que a informação foi compreendida.

Equívocos como esse exemplo dado por Eliana ocorrem com a biologia – e com a genética em particular – em razão de essa ser uma área que trata de coisas abstratas, que estão na escala do não-visível. Há pesquisas indicando que dentro da biologia a área da genética é a mais difícil para o professor ensinar e a mais complicada de o aluno entender. Para Mônica, a exposição combina informações básicas de genética, exemplos e explicações sobre genômica com a vida contemporânea. “Mas não há uma tentativa de tornar essas questões simples. Isso ocorre, basicamente, porque elas não são simples”, afirmou.

Da platéia surgiu a pergunta de como se ter na exposição um quadro cultural sobre a noção de DNA. Para Mônica, um modo de se fazer isso seria criar uma seção que mostrasse a trajetória do DNA na mídia. “A simples abordagem desse assunto já indicaria uma diferença entre o que é o DNA de fato e o DNA que aparece nos jornais, revistas e TVs”, afirmou. Ao explicitar isso, seria criado um distanciamento crítico. “Uma exposição é algo motivador, que lança uma isca para fazer o visitante pensar”, explicou. “É genial quando alguém morde essa isca.”

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