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Resenha

Os desconhecidos da floresta

Zo’é | Rogério Assis | Editora Terceiro Nome | 128 páginas | R$ 70,00

Zo’é Rogério Assis Editora Terceiro Nome 128 páginas, R$ 70,00

A fotografia da vista área da terra indígena Zo’é é um instigante convite para adentrar no mundo de um povo até pouco tempo sem contato com os kirahi, nome dado aos “não índios”. Imagens de estreitas trilhas na floresta Amazônica conduzem o leitor às moradias da etnia que permaneceu, até os anos de 1980, praticamente isolada. No ensaio fotográfico Zo’é, de Rogério Assis, os indígenas vão, aos poucos, se revelando. São mulheres em seus afazeres domésticos e no cuidado com os filhos; crianças em momentos de lazer e plena liberdade; homens na caça e na roça; idosos e seus xerimbabos, como são chamados os animais de estimação. Tudo captado pelo olhar sensível e artístico de Assis.

A obra do fotógrafo paraense proporciona uma viagem pelos costumes e rituais dos Zo’é, que ocupam uma área de 644 mil hectares entre os rios Cuminapanema, Urucuriana e Erepecuru, no noroeste do Pará. Somam hoje 270 indivíduos espalhados em 12 aldeias não fixas; conforme as necessidades de caça e plantio, eles mudam de lugar dentro da reserva. Em 1989, a convite da Funai, Assis se tornou o primeiro profissional a registrá-los. Vinte anos depois, retornou à região e completou seu trabalho e suas observações sobre a cultura desse povo apontado por ele como “solitário”, “hospitaleiro” e “bem-humorado”.

Um texto de apresentação do antropólogo Márcio Meira, ex-presidente da Funai, e outro mais extenso, com interessantes informações etnológicas da antropóloga Dominique Tilkin Gallois, complementam o livro. Professora do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Centro de Estudos Ameríndios, Gallois soma importantes estudos de diferentes comunidades indígenas da região e pesquisa os Zo’é desde 1989.

Dados linguísticos e históricos apontam que o grupo é de tradição tupi-guarani. A palavra Zo’é significava “nós” e, segundo a antropóloga, passou a ser usada pelos indígenas para se referir a si mesmos somente nos anos 1980, quando missionários e agentes da Funai iniciaram as primeiras aproximações com a etnia. Para a estudiosa, a transformação do pronome em etnônimo é sinal de que “os Zo’é estão aprendendo a se pensar como índios”. Relatos feitos por eles indicam que, há pelo menos 90 anos, já mantinham contatos esporádicos com os brancos. Revelaram, por exemplo, que tiveram mulheres raptadas por castanheiros. Contaram também que caçadores deixaram gaiolas e ferramentas abandonadas em suas áreas, sem chegar, no entanto, a haver encontro entre eles.

O livro ressalta que os contatos dessa etnia com os brancos começaram efetivamente em 1982, por meio de brasileiros e norte-americanos da Missão Novas Tribos do Brasil. Conquistados aos poucos pelos presentes deixados em suas trilhas, os indígenas passaram a aceitar os visitantes em suas aldeias. Porém essa tentativa de evangelização fez com que eles adquirissem doenças antes desconhecidas. Em 1989, os missionários pediram socorro à Funai, pois muitos Zo’é estavam morrendo vítimas de uma epidemia de gripe. Para protegê-los, a Funai implementou o Sistema de Proteção aos Índios Isolados. Em 2001 criou a Frente de Proteção Etnoambiental Cuminapanema, unidade de preservação e isolamento da terra indígena Zo’é.

Os primeiros registros de Assis, em 1989, são, portanto, de um povo adoentado e ameaçado de extinção. Já em 2009, quando ele retornou à região, encontrou outra realidade: “A recuperação de bases socioculturais e hábitos alimentares, e a valorização da autoestima, ajudaram o povo Zo’é a não só superar as doenças, como também a se desenvolver e aumentar a população”.

Os Zo’é são polígamos e um dos mais curiosos rituais, entre os muitos que praticam, é um furo feito no queixo das crianças, logo após elas trocarem a dentição, no qual é colocado um adorno de osso denominado embe’pot. Esse ornamento, que pode ser constatado nas fotografias de Assis, é usado pelos homens e mulheres ao longo de toda a vida. Outro enfeite apreciado pelas meninas e jovens é a tiara com penugem de urubu-rei ou de mutum. Já os idosos não escondem as rugas em todo o corpo: quanto mais “secos”, mais respeitados pelos familiares. A contemplação das fotos e a leitura dos textos propiciam, com poesia e sutileza, a reflexão sobre um modo de vida no isolamento da floresta e sem acesso ao contexto do mundo contemporâneo.

Patrícia Negrão é jornalista, coordenadora de conteúdo e coautora do livro Brasileiras guerreiras da paz (Contexto, 2006).

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