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Humanidades

Os novos caminhos da educação indígena

Já se passaram quase cinco séculos. Mas o Brasil ainda começa a aprender a lidar com a sua variedade étnica e cultural. Especialmente no caso dos povos que já estavam aqui antes de 1500. Despojados das suas terras e massacrados no tempo da Colônia e também da República, os índios somente foram reconhecidos como cidadãos brasileiros plenamente capazes pela Constituição de 1988. A fronteira entre a promulgação das leis e a transformação da realidade, no entanto, continua enorme. Entre os desafios a ser enfrentados, está a educação indígena. “Essa proposta significa construir junto com os índios uma forma de educação que trabalhe tanto com a visão de mundo dos povos indígenas quanto com a realidade ao seu redor. Realidade agora ampliada pela globalização.” É o que aponta a antropóloga Aracy Lopes da Silva, coordenadora do Mari – Grupo de Educação Indígena do Departamento de Antropologia da USP.

“Isso significa um projeto de educação no qual o índio seja sujeito ativo, elaborando e transmitindo o conhecimento junto à sua comunidade”, afirma a antropóloga. O Mari (“conhecer”, na língua Kayapó) é uma das mais atuantes entidades nacionais preocupadas com a educação dos índios. Criado em 1988, o grupo foi formado por antropólogos e estudantes que abraçaram a causa indígena no final dos anos 70. Formado atualmente por 25 pesquisadores, além de colaboradores ligados a diferentes instituições, o Mari desenvolve projetos de estudos e assessorias. Com anos de experiência acumulada em trabalhos de campo, o grupo é também responsável por um ambicioso programa de pesquisa na área da educação indígena.

Trata-se do projeto temático Antropologia, História e Educação: a Questão Indígena e a Escola . Iniciado em 1995, com o apoio da FAPESP, seu objetivo é discutir as possibilidades de uma educação para a diversidade, dentro do universo da história e da antropologia. “O projeto surgiu do desafio de transformar a experiência da educação indígena em objeto de reflexão acadêmica”, diz Aracy Lopes da Silva, que é professora da pós-graduação em Antropologia da USP e do Departamento de Antropologia da Unicamp.

Linhas de pesquisa
As linhas de pesquisa do projeto compreendem assuntos como a produção e a transmissão do conhecimento nas aldeias. “Essa é uma pesquisa que investiga formas próprias de aprendizado da criança indígena, como as brincadeiras e os jogos de socialização”, diz Aracy. Outro campo de estudo trata da relação simbólica que os índios têm com a Natureza, assim como o uso que seus diferentes povos fazem do meio ambiente. “Esse caminho de pesquisa permite uma discussão mais ampla sobre o conhecimento humano, além da Criança Kayapó: a busca de uma política educacional voltada para a diversidade étnica e cultural dos povos indígenas sua contribuição para a questão ambiental, como em projetos de manejo sustentável”, aponta a antropóloga. Também são temas de investigação a organização política dos índios e o ensino da história indígena.

“Esse é um pedaço da história do Brasil muito pouco conhecido”, diz a coordenadora do Mari. Por falar na falta de informação sobre a cultura indígena, uma das pesquisas que integram o projeto aponta justamente para a permanência de uma imagem estereotipada dos índios, mesmo com o aumento do noticiário da mídia sobre o assunto, depois da ECO-92. “Muitos dos livros didáticos para o ensino fundamental ainda reincidem nos mesmos problemas de sempre, como a ocultação da presença contemporânea do indígena na sociedade ou o estranhamento da possibilidade de que ele possa sair da “idade da pedra'”,  afirma Aracy Lopes da Silva.

“Há casos em que o estereótipo tem um valor positivo, como o índio guardião da floresta. Mas isso também tem um lado ruim, cujas conseqüências costumamos ver nos jornais. Se um índio corta uma árvore, ele é condenado por isso, não importa quais eram as circunstâncias em que o fato ocorreu”, diz a antropóloga Mariana Kawall Leal Ferreira, coordenadora do Mari e autora de uma pesquisa sobre o ensino de matemática entre tribos indígenas.

Trabalho de campo
Muitas das pesquisas do Mari são diretamente ligadas ao trabalho de campo. O que também gera novos desdobramentos no projeto. “O pesquisador não visita uma aldeia apenas para recolher informações, indo depois embora”, diz a antropóloga Mariana Kawall Leal Ferreira, que faz pós-doutoramento no Departamento de Antropologia da USP. “É comum as comunidades indígenas oferecerem uma troca. Se você está realizando uma pesquisa na aldeia, então também deve dar aulas para aquela comunidade”, conta Mariana Kawall. “Como nem todos os pesquisadores têm experiência pedagógica, resolvemos realizar oficinas internas no Mari voltadas para situações como essa”, diz a antropóloga.

Outra atividade importante desenvolvida pelo Mari é a prestação de assessoria para órgãos governamentais e comunidades indígenas. Muitas vezes, o grupo é procurado por representantes de aldeias interessados na elaboração de projetos específicos, como financiamento para programas de uso sustentável do meio ambiente ou sobre problemas de saúde. O trabalho de assessoria também tem interesse acadêmico. “São experiências importantes para a reflexão da antropologia política”, afirma Aracy Lopes da Silva.

Mudança da realidade
O interesse cada vez maior pela educação indígena vem ao encontro de uma nova realidade experimentada pelos povos indígenas brasileiros. Realidade que é conseqüência da crescente mobilização dessas populações desde os anos 70. Depois do reconhecimento constitucional do índio como um cidadão pleno, em 1991, a sua escolarização tornou-se uma atribuição do Ministério da Educação. Mais do que uma operação burocrática, a medida abriu espaço para o desenvolvimento, pela primeira vez no Brasil, de uma política educacional voltada para a diversidade étnica e cultural dos povos indígenas. Afinal, desde a colonização, a educação indígena quase sempre foi um domínio exclusivo de missões religiosas.

“A grande vantagem dessa medida é a inclusão da educação indígena no sistema nacional de educação, forçando o governo a criar novos parâmetros curriculares para as escolas indígenas”, afirma Aracy Lopes da Silva. “Uma educação a favor do índio, e não contra ele”, diz a antropóloga. “Essa lei garante a liberdade de construção de escolas diferenciadas, que atendam às necessidades de cada uma das comunidades, com a participação dos próprios índios”, destaca Aracy. “O problema é que muitos quadros das secretarias de educação não estão preparados para lidar com a especificidade dessa nova demanda”, aponta a pesquisadora.

Assim, essa é uma equação que somente poderá ser resolvida com a participação direta dos povos indígenas na tomada de decisões. “O exercício desses direitos depende da presença dos índios no comando do processo”, afirma a antropóloga. Os números indicam um aumento nessa participação. Depois da Constituição de 1988, as organizações indígenas se multiplicaram pelo País. “Uma das pesquisas do grupo identificou quase 300 organizações e associações indígenas que nasceram nos últimos dez anos, muitas das quais formadas por professores índios”, aponta a pesquisadora. Um dos frutos das assessorias prestadas pelo Mari junto a comunidades indígenas, assim como do trabalho de grupos de outras universidades e ONGs, é a publicação pelo Ministério da Educação de livros elaborados por professores índios.

O Grupo de Educação Indígena da USP também organiza exposições sobre o universo dos índios em escolas da rede pública, além de distribuir textos de divulgação científica. Entre os livros gerados pelas pesquisas do Mari, está um dos trabalhos de maior fôlego já realizados nessa área no Brasil. Trata-se da obraA Temática Indígena na Escola – novos subsídios para professores de 1º e 2º graus , organizada por Aracy Lopes da Silva e Luís Donisete Benzi Grupioni e editada em conjunto com a Unesco e o Ministério da Educação.

Novos horizontes
As populações indígenas pesquisadas pelo Mari abrangem regiões do norte ao sul do País. São povos como os Kaingang (do Rio Grande do Sul), Guarani (litoral de São Paulo), Terena (interior de São Paulo), Maxakali (Minas Gerais), Xavante (Mato Grosso), Xerente (Tocantins), índios do Uaça (norte do Amapá), Timbira (Maranhão) e Tukano (Amazonas). “Esse é um conjunto diversificado, tendo cada povo as suas especificidades”, aponta Aracy Lopes da Silva. Algumas comunidades enfrentam situações difíceis, como os índios Guarani, no litoral de São Paulo. “Nessa região, existe uma situação de miséria e fome crônica”, afirma Mariana Kawall Leal Ferreira. “Pretendemos criar núcleos de pesquisa voltados para questões específicas dentro da temática comum da educação indígena, como a área de saúde e educação”, diz Mariana.

O projeto temático desenvolvido pelo Mari também deverá ter outros desdobramentos. “Um campo importante que ainda tem muito para ser feito é o da sistematização de informações sobre a situação das escolas indígenas”, afirma Aracy Lopes da Silva. “Temos ainda a intenção de estudar as relações entre arte, estética, cultura material e a educação indígena”, diz a antropóloga. Por fim, o grupo também tem como proposta realizar uma análise da extensa bibliografia voltada para a educação, lingüística e antropologia que vem sendo produzida no Brasil.

Perfil
Aracy Lopes da Silva é doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, onde leciona desde 1974, com pós-doutorado na Universidade de Harvard. Estados Unidos. Foi presidente da Comissão Pró-Índio de São Paulo e atualmente é coordenadora do Mari – Grupo de Educação Indígena da USP. É autora do livro Nomes e Amigos: da Prática Xavante a uma Reflexão sobre os Jê, e organizadora dos livros A Questão da Educação Indígena Brasileira e A Questão Indígena na Sala de Aula: Subsídios para Professores de 1° e 2° Graus.

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