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ECOLOGIA

Os peixes escondidos do Alto Paraná

Uma ampla pesquisa de biodiversidade descobre novas espécies de peixes em riachos e cabeceiras da bacia do Alto Paraná

Um retrato de alguns riachos e cabeceiras da bacia do Alto Paraná revela: a biodiversidade da fauna paulista de peixes de água doce é bem maior do que se supunha. Só em 3 quilômetros de estreitos cursos d’água, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto encontraram dez novas espécies. Nos 30 trechos de riachos paulistas já estudados (no total serão 66), foram colhidas 58 espécies – um número muito grande, já que o último estudo em riachos de todo o sistema do Alto Paraná, numa área muito maior que a do Estado de São Paulo, contou 71 espécies. Das 58 já encontradas, 17% são novas e estão sendo minuciosamente descritas.

Certamente há outras à espera do pesquisador Ricardo Macedo Correa e Castro, do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), que coordena o projeto Diversidade de Peixes de Riachos e Cabeceiras da Bacia do Alto Rio Paraná no Estado de São Paulo/Brasil , financiado pela FAPESP. Castro também foi um dos coordenadores do diagnóstico da biodiversidade paulista de vertebrados (incluindo peixes) do Programa Biota/FAPESP, lançado em março de 1999 e que envolve cerca de 300 especialistas em mapeamento da biodiversidade. Responsável pelo levantamento e o estudo da ictiofauna de várias regiões do país, ele reuniu cerca de 30 mil exemplares, que formarão um núcleo do futuro Museu de História Natural do Departamento de Biologia da FFCLRP-USP. Suas descobertas dão uma idéia do que ainda se pode encontrar de novo pelo Brasil afora.

Abundante e desconhecido
A espécie de peixe de riacho mais abundante da região estudada é o lambari-do-rabo-amarelo, peixinho de 80 milímetros de comprimento que há tempos era identificado como Astyanax bimaculatus. Ao estudá-lo, contudo, Valdener Garutti, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São José do Rio Preto, e Heraldo Antonio Britski, do Museu de Zoologia da USP, descobriram que, na verdade, é uma espécie nova. Restritoà bacia de drenagem do Alto Paraná e também chamado pelos pescadores de tambiú, o lambari-do-rabo-amarelo é muito usado como isca viva para peixes maiores, como tucunaré e traíra. Reconhecida agora sua diversidade, recebeu um nome inspirado em seu hábitat: Astyanax altiparanae.

Por ser a espécie numericamente dominante até agora – foi encontrado em 25 trechos e representa 16% dos exemplares e 39% do peso dos peixes coletados -, o lambari-do-rabo-amarelo foi escolhido como símbolo do projeto. É uma espécie bem-sucedida na ocupação de espaços: habita desde pequenos riachos de cabeceira até os canais principais dos maiores rios do sistema do Alto Paraná e os grandes lagos das barragens de hidrelétricas.”Como era de se esperar, é um peixe onívoro, que tende a insetívoro, mas é capaz de se utilizar de praticamente todos os alimentos disponíveis”, explica Castro. Além disso, desova várias vezes ao ano, o que contribui para a multiplicação rápida e a renovação das populações.

Isolamento evolutivo
De outro lambari desconhecido, pertencente à subfamília Tetragonopterinae da família Characidae, foram coletados 19 exemplares, vindos das sub-bacias do Aguapeí, do rio do Peixe e do Pontal do Paranapanema. Também é pequeno – cerca de 50 milímetros – e está sendo descrito por Castro. Ele já coletara a nova espécie, por enquanto chamada Astyanax sp. n. (as letras indicam que falta o nome definitivo), mas em número insuficiente para o estudo e a descrição adequados.

Como os demais lambaris da subfamília, esse parece ser onívoro, tendendo a insetívoro. Tudo indica que seja diurno, localize o alimento primariamente pela visão e só ocorra na bacia do Alto Paraná. Se realmente for endêmico (exclusivo) dessa bacia, sua existência, como a de outros peixes endêmicos da região, será mais uma evidência do possível isolamento evolutivo da fauna de peixes local em relação ao restante da bacia do Prata (que, além do Paraná, abrange as bacias dos rios Paraguai e Uruguai).

Espécies endêmicas
O abundante lambari-do-rabo-amarelo é exceção entre os peixes de riacho, cuja maioria é pouco numerosa e vive em ambientes restritos. É o caso de Planaltina sp. n., outra espécie nova em estudo: 20 deles, coletados na sub-bacia do São José dos Dourados, estão sendo analisados por Naércio Aquino Menezes, do Museu de Zoologia da USP, e Stanley Howard Weitzman, da Divisão de Peixes do Museu Nacional de História Natural da Smithsonian Institution em Washington (EUA). Esse peixe do gênero Planaltina tem cerca de 30 milímetros e pertence à subfamília Glandulocaudinae da família Characidae, cujos machos inseminam as fêmeas de modo ainda desconhecido, com “pacotes” de espermatozóides.

Também típico é o pequeno cascudo Corydoras sp. n., do qual só foram coletados cinco exemplares nas sub-bacias do Pardo e do Mogi-Guaçu. Mede 30 milímetros e é estudado por Castro em parceria com Marcelo Ribeiro de Britto, do Instituto de Biociências da USP. Peixe do tipo limpa-fundo, come pequenas larvas de insetos enterradas na areia fina do fundo dos riachos. Castro revela que, devido à posição evolutiva dessa espécie, seu estudo deverá trazer mudanças importantes na classificação da família Callichthyidae, uma das maiores de peixes de água doce sul-americanos. Para ele, essas descobertas são um forte indício de que realmente houve um longo isolamento evolutivo da fauna local de peixes em relaçãoao restante do sistema do Prata. Isso pode indicar a existência de um grande número de espécies endêmicas fortemente ameaçadas por mudanças ambientais. Assim, ao traçar um diagnóstico da biodiversidade paulista, o programa Biota/FAPESP é um passo fundamental para o lançamento de um plano de preservação.

Por que riachos
A escolha dos riachos para o levantamento tem motivo: por unidade de área, são os ambientes mais ricos em biodiversidade de peixes. Castro calcula que metade das espécies sul-americanas de peixes de água doce viva em riachos. Não grandes peixes de importância comercial, como dourados ou surubins, mas peixinhos de até 15 centímetros, que geralmente se deslocam em pequenas distâncias e formam populações isoladas.

São as espécies de água doce menos estudadas e sua sobrevivência depende de fatores ambientais aos quais se adaptaram ao longo de milhões de anos. Sua alimentação depende quase exclusivamente da vegetação das margens – folhas, pequenos frutos, flores – além de insetos terrestres que caem na água, larvas aquáticas de insetos, outros invertebrados que também se alimentam desse material e galhos que caem na água. São em geral muito sensíveis a variações de temperatura, luminosidade e oscilações no nível da água, condições que também dependem da vegetação.

Esse ambiente rico e complexo tem sido brutalmente alterado. No Estado, só restam de 8% a 9% da vegetação original, concentrada basicamente na Serra do Mar. No interior, os riachos correm em meio a extensas plantações, pastagens e cidades, onde recebem detritos domésticos e uma ampla gama de pesticidas. “Essa agressão ambiental tem um reflexo catastrófico sobre o número de espécies”, afirma Castro. Prova disso é que o ponto mais rico até agora encontrado é um riachinho do Alto Paranapanema que corta uma fazenda onde há 73% da vegetação nativa: ali se acharam 23 espécies. Já nas sub-bacias do Aguapeí e do Peixe, muito desmatadas, a média de espécies coletadas por riacho foi de 12 a 15.

Banco de dados
O levantamento da ictiofauna coordenado por Castro envolve mais seis pesquisadores, dois técnicos biólogos e 16 estudantes. Até o final, previsto para 2002, o projeto deverá consumir R$ 368 mil mais US$ 2,2 mil, financiados pela FAPESP. A análise dos resultados produzirá um grande banco de dados, com informações ambientais dos riachos, estatísticas, descrições das novas espécies e dados sobre relações evolutivas entre espécies com base em análises morfológicas e genéticas, incluindo estudos sobre movimentos migratórios. Boa parte desses dados, inclusive fotos, estará disponível na Internet, para ser usada por professores, estudantes, ambientalistas e o público em geral.

Saldo positivo
Os 35 quilogramas de peixes já coletados estão no novo prédio do Laboratório de Ictiologia da USP de Ribeirão Preto (Lirp), ampliado e melhorado com a verba do programa. São 8.710 exemplares de peixes, classificados em 6 ordens, 17 famílias, 44 gêneros e 58 espécies. Quando a análise do material estiver completa se poderá conhecer toda a população de cada trecho estudado e ter informações sobre a população de cada espécie, tamanho, estrutura de idade, biomassa, hábitos alimentares (pelo estudo do conteúdo estomacal) e até a existência ou não de hábitos migratórios (pela análise comparativa de material genético). O estudo também poderá dar boas pistas de como algumas espécies evoluíram.

Castro espera reunir informações que ajudem a criar uma sistemática para medir a integridade biótica desses riachos, com índices que indiquem pontos críticos para a execução de programas de preservação. Também confia em que esse trabalho ajude a mudar as mentalidades para evitar que muitas espécies sejam extintas. “São espécies pouco valorizadas porque não têm importância comercial. Mas as pessoas se esquecem de que, assim como o homem e os outros vertebrados, elas são o produto final de uma história evolutiva única, de bilhões de anos de duração, que jamais vai se repetir”, afirma.

– Ricardo Macedo Correa e Castro, 45 anos, professor e co-responsável pelo Laboratório de Ictiologia do Setor de Zoologia de Vertebrados da FFCLRP-USP e pesquisador associado da Divisão de Peixes do Departamento de Zoologia de Vertebrados do Smithsonian Institution (Washington, EUA). Formado em Biologia Marinha (1977) e Zoologia (1978) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, concluiu mestrado (1984) no Instituto de Biociências da USP. Fez um PreDoctoral Fellow (1986 e 1987) na Smithsonian Institution e doutorou-se pela USP (1990).

Uma aventura no mato

Um bom diagnóstico da fauna de peixes não depende só do conhecimento científico. Exige disposição para o trabalho pesado. A parte mais árdua é a coleta dos peixes, que começa numa viagem de um dia inteiro dentro de uma caminhonete com tração integral, comprada especialmente para esse fim. Depois de comer muita poeira por estradas vicinais sem asfalto, chega-se a um vilarejo apenas a tempo de encontrar um lugar para dormir. Conforto é dispensável.

No dia seguinte, logo que o sol aparece, os cinco pesquisadores saem à procura de um ponto com as características necessárias para a coleta – um mínimo de preservação vegetal em torno do riacho. Não é fácil. É preciso pedir licença ao proprietário. O proprietário não está… São apenas as primeiras dificuldades. Quando finalmente está tudo acertado em relação ao local, o trabalho braçal pode começar. Descarregar o equipamento do carro que ficou lá longe, armar mesas e redes, medir o riacho, posicionar o gerador, ligar eletrodos, analisar a água, pegar amostras do fundo e da vegetação, tirar fotos do lugar.

Depois, é hora de fechar o cerco aos peixes. São armadas duas redes, a uma distância de 100 metros uma da outra, para isolar completamente a área. Só então começa a coleta. A intenção é remover todos os peixes daquele trecho. Para garantir o máximo de eficiência, são feitas três passagens rio acima com aparelhagem de pesca elétrica, que produz uma descarga de 220 volts na água. Isso deixa os peixes completamente tontos, facilitando a retirada, mas é perigoso para os coletores. São feitas ainda duas passagens com arrastão manual e uma última com duas peneiras grandes, para retirar os peixes escondidos debaixo da vegetação.

Depois de comer um macarrão instantâneo, os pesquisadorescomeçam a organizar o material coletado. Primeiro, os peixes são separados e as amostras de material para análises genéticas são recolhidas. Em seguida, os exemplares são mergulhados em solução de formol, que conserva todas as suas características, inclusive os conteúdos estomacais. Ali mesmo os peixes são fotografados e acondicionados para a viagem de volta.

Quando começa a escurecer, é hora de desmontar o equipamento e voltar para a pousada. “A gente chega com a roupa molhada, cheia de lama, cheirando a peixe, literalmente podre”, descreve Castro. Trabalhando nesse ritmo, os pesquisadores conseguem fazer três dias seguidos de coleta em pontos diferentes. Quando possível, tiram um dia para descanso e limpeza e reorganização do equipamento. Fazem mais três dias seguidos de coleta e por fim, geralmente dez dias e 2.500 quilômetros depois, estão de volta a Ribeirão Preto, com vários quilos de peixe no bagageiro, muitas picadas de insetos pelo corpo, mortos de cansaço e felizes pelos achados.

O Projeto
Diversidade de Peixes de Riachos e Cabeceiras da Bacia do Alto Rio Paraná no Estado de São Paulo/Brasil (nº 98/05072-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – BIOTA; Coordenador Ricardo Macedo Corrêa e Castro; Investimento R$ 368.142,27 mais US$ 2.212,65

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