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AGRICULTURA

Outra vítima da Xylella

Acumulam-se as evidências de infestação da bactéria em cafeeiros

Agora é certo: a bactéria Xylella fastidiosa, causadora do amarelinho em laranjais paulistas, infecta também os cafezais – e do Brasil inteiro. A contaminação dos cafeeiros pode até ser mais antiga. “É provável que a Xylella tenha ido do café aos citros”, diz o fitopatologista Osvaldo Paradela Filho, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Para ele, só assim se pode explicar a ocorrência da doença em cafezais de Minas Gerais, Paraná e Bahia há pelo menos 30 anos, conforme os levantamentos de campo e relatos que tem colecionado. Essa hipótese ganha o reforço de dois fatos: a cigarrinha (o inseto transmissor da bactéria) tem vôo curto e praticamente não há plantações de laranja fora do Estado de São Paulo.

“Todo cafezal com mais de cinco anos está infectado por Xylella, em maior ou menor intensidade”, diz o pesquisador. Em 1995, foi ele quem comprovou a presença da bactéria também nos pés de café. No Centro Experimental do Instituto Biológico, em Campinas, o bacteriologista Luis Otávio Saggion Beriam prepara os experimentos de infestação controlada, para conhecer melhor o desenvolvimento da doença chamada de atrofia do ramo de cafeeiro. Causada por deficiência de zinco, induzida pela presença da bactéria, é mais intensa quando a planta se submete à escassez de água.

Prejudica o crescimento dos cafeeiros, encurta o internódio (o espaço entre os nós) para um terço do tamanho normal e reduz o tamanho dos frutos. Conseqüência: a produtividade cai.

Atualmente, o Brasil produz 25 milhões de sacas de 60 kg, com exportações da ordem de US$ 3,1 bilhões. A participação no mercado mundial, de 80% no início do século, hoje é de 20%. Em Araraquara, o agrônomo Li Wenbin, pesquisador do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), provou o caminho inverso: a Xylella pode também ir dos laranjais aos cafezais. Em estufa, Wenbin infectou cem mudas de café com a variedade de Xylella dos citrus e verificou que os sintomas apareceram.

Agora, vai tentar o caminho de transmissão natural, as cigarrinhas, para confirmar o desenvolvimento da Xylella do café em citrus. Há mais um ano de trabalho pela frente, mas já há sinais de que, teoricamente, um laranjal contaminado pode infectar um cafezal saudável. A boa notícia é que o recém-concluído genoma da Xylella deve servir tanto para a laranja quanto o café. Estima-se que exista uma homologia (semelhança) de 85% entre o material genético das variedades de Xylellas que infestam uma planta e outra.

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