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Divulgação científica

Para enriquecer o debate

Três iniciativas buscam subsidiar a cobertura jornalística com estudos científicos e participação de pesquisadores

Freepik/ Flaticon

O jornal eletrônico Nexo associou-se a alguns dos principais centros de pesquisa do Brasil e do exterior para municiar discussões sobre temas estruturais da agenda nacional. Lançada no início de julho, a plataforma Nexo Políticas Públicas divulga conteúdos em vários formatos e em linguagem jornalística sobre saúde, educação, desigualdade, entre outros temas, a partir de estudos produzidos pelos pesquisadores de cada instituição parceira. “A produção acadêmica brasileira é profícua e de alto nível e deve ser explorada no debate desses e de outros assuntos, bem como subsidiar a formulação de políticas públicas e o processo de tomada de decisão”, destaca a antropóloga Paula Miraglia, diretora-geral e cofundadora do Nexo.

A plataforma trabalha em colaboração com oito centros de pesquisa que atuam em diferentes áreas do conhecimento, entre eles o Centro de Economia Energética e Ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Cenergia-UFRJ), o Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Afro-Cebrap), o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (Biota), financiado pela FAPESP, e o Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP, sediado no Cebrap e na Universidade de São Paulo (USP).

A ideia é que todos os meses os pesquisadores de cada instituição preparem conteúdo a partir dos resultados de pesquisas ou do conhecimento acumulado nos últimos anos em suas áreas de atuação. Todos os textos estarão disponíveis em acesso aberto. Alguns já foram publicados. Um exemplo é uma lista com perguntas que a ciência já respondeu sobre políticas de assistência social e o programa Bolsa Família, produzido por pesquisadores do CEM. Há ainda uma linha do tempo da política ambiental no Brasil, elaborada por membros da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES); um glossário sobre os principais conceitos que permeiam estudos sobre questões raciais, escrito por especialistas do Afro-Cebrap; e um gráfico sobre mortalidade por doenças comunicáveis no país a partir de dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps).

Se para o Nexo a nova plataforma servirá para aprimorar a qualidade de sua cobertura jornalística, para os centros de pesquisa há uma oportunidade de disseminar melhor a produção de seus pesquisadores. “O Biota sempre se esforçou para divulgar os resultados de suas pesquisas, de modo a capacitar a população para que ela compreenda o valor da biodiversidade e a importância da sua conservação”, diz o biólogo Carlos Alfredo Joly, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) e coordenador do programa. “A parceria com o Nexo Políticas Públicas é mais uma forma de interagir com a população nesse sentido, além de ser uma oportunidade para que possamos divulgar nossas pesquisas e ampliar seu uso no desenvolvimento de políticas públicas de conservação e uso sustentável do meio ambiente.”

Para a socióloga Márcia Lima, coordenadora do Afro-Cebrap, a colaboração será importante para colocar em evidência questões relacionadas a temas como raça, gênero, sexualidade e território. “Esperamos que essa parceria também nos permita acelerar a assimilação dos resultados de nossas pesquisas pelos pares e público geral”, diz Lima, que é professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Ela explica que os artigos do campo das ciências humanas nem sempre têm repercussão imediata após sua publicação em periódicos acadêmicos. “Alguns podem demorar até dois anos para despertar o interesse da comunidade científica, de modo que nossa colaboração com o Nexo Políticas Públicas poderá servir como um canal para acelerar esse processo, chamando a atenção para os resultados de estudos recém-publicados”, diz a pesquisadora.

“Estamos animados em participar desse projeto”, afirma o economista Bruno Scola da Cunha, responsável por coordenar a participação do Cenergia-UFRJ na nova plataforma. “Nosso laboratório produz pesquisas em áreas como energia e mudanças climáticas e desenvolve modelos computacionais para analisar cenários futuros, o que pode ser de grande valia para a elaboração de políticas públicas.”

O esforço do Nexo para produzir conteúdo respaldado em evidências científicas vem ao encontro de outras iniciativas recentes no país. Uma delas é a Science Pulse, lançada em meados de julho pela agência de jornalismo de dados Volt Data Lab. A ferramenta se propõe a monitorar o perfil de mais de 1.100 cientistas no Twitter, uma das principais redes sociais usadas para divulgar e discutir estudos científicos (ver Pesquisa FAPESP nº 221). “Mas queremos ir além”, explica o jornalista Sergio Spagnuolo, criador da plataforma. “Nosso objetivo é colocar os jornalistas em contato com as ideias e as discussões travadas pelos cientistas no Twitter acerca de temas específicos, como desmatamento, mudanças climáticas e Covid-19, de modo a ajudá-los a identificar possíveis fontes para suas matérias ou mesmo ter ideias de pautas sobre assuntos do momento.”

A plataforma é gratuita e funciona como um sistema de busca, semelhante ao oferecido pelo Google. Com base em uma ou mais palavras-chave, o algoritmo rastreia os perfis que monitora, destacando quais pesquisadores estão tratando daquele assunto na rede social, seja por meio da apresentação de um gráfico, de um comentário ou mesmo da divulgação de um estudo. A Science Pulse também oferecerá gráficos diários sobre os assuntos mais discutidos pelos perfis monitorados, além dos tópicos mais abordados nos últimos meses. “Ao clicar nesses tópicos, o jornalista terá acesso ao conteúdo das publicações dos pesquisadores no Twitter”, explica Spagnuolo. A ideia é, aos poucos, ampliar o número de cientistas monitorados — a seleção de cada perfil é feita individualmente pelo jornalista. “Procuro verificar se os perfis dos pesquisadores tratam majoritariamente de temas ligados à ciência, se eles estão vinculados a instituições científicas e têm produção acadêmica.”

Lançada em fevereiro, a Agência Bori é outra iniciativa criada para tentar aproximar os jornalistas do conhecimento científico. A jornalista Sabine Righetti, uma das fundadoras da plataforma, explica que a ideia inicialmente era dar acesso a profissionais da imprensa cadastrados a estudos aceitos para publicação em revistas científicas nacionais. “Com a pandemia do novo coronavírus, contudo, tivemos de mudar nossa abordagem”, diz. “Os estudos sobre Covid-19 são agora publicados imediatamente após a revisão pelos pares, de modo que se tornou praticamente impossível conseguir antecipar esses trabalhos para os jornalistas.”

O foco então se voltou à elaboração de materiais de apoio, de modo a auxiliar os jornalistas cadastrados na cobertura da pandemia. “Temos uma equipe que reuniu todos os estudos publicados no Brasil sobre o novo coronavírus e também montamos um banco de fontes com mais de 400 cientistas de várias áreas do conhecimento, cadastrados para atender os jornalistas sobre assuntos relacionados à pandemia”, destaca Righetti, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp.

A agência atualmente conta com mais de mil jornalistas cadastrados, mas ainda é difícil saber qual o impacto da iniciativa na cobertura de assuntos ligados à Covid-19. Uma das estratégias adotadas para esse fim foi analisar o caso de pesquisadores que nunca falaram com a imprensa para estimar o grau de visibilidade que eles passaram a ter após seus nomes serem inseridos no banco de fontes da agência. “O que se verifica é que muitos dos pesquisadores, a partir do momento em que entraram no banco de fontes da Bori, passaram a ser mais procurados pelos jornalistas, dando mais entrevistas para várias publicações distintas.” A agência pretende manter o banco de fontes após a pandemia e expandi-lo para outras áreas. “Essa é uma forma de dar voz aos cientistas em discussões de interesse público”, diz Righetti.

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