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FCW 2015

Para salvar mais vidas

Doação anual da Fundação Conrado Wessel permite aos bombeiros de São Paulo se aprimorarem no exterior

Treinamento na ESB, em Franco da Rocha...

FOTOS ESB / CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULOTreinamento na ESB, em Franco da Rocha…FOTOS ESB / CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULO

No parque de simuladores de incêndio da Escola Superior de Bombeiros (ESB), em Franco da Rocha, Região Metropolitana de São Paulo, homens vestidos com roupas e máscaras de proteção observam o fogo tomar conta de alguns contêineres para só então entrar e começar a combatê-lo. Em outra parte da escola, uma equipe trabalha rapidamente retalhando um carro blindado e, mais adiante, duas dezenas de jovens mergulham e nadam no lago local a uma temperatura externa de menos de 10 graus Celsius. Essas cenas fazem parte da rotina da ESB, onde os ingressantes no Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo recebem aulas teóricas e práticas de como agir em ocorrências que vão de acidentes de grandes proporções a tentativas de suicídio e resgate de animais domésticos.

A Fundação Conrado Wessel (FCW) tem participação importante nesses treinamentos. Desde 2000, 755 bombeiros do estado de São Paulo foram enviados a 10 diferentes países para conhecer novas tecnologias, trocar experiências, participar de cursos, congressos, feiras técnicas, competições e visitas a outras corporações. Anualmente, a FCW paga a viagem e a estadia de profissionais para o destino definido por eles. Há cerca de 8 mil funcionários no Corpo de Bombeiros, divididos por todo o estado em 20 agrupamentos em terra, um marítimo e unidades administrativas. Os comandantes dos agrupamentos se reúnem uma vez por ano para indicar de duas a três pessoas de cada unidade, que ganharão a viagem de aprimoramento no exterior, de acordo com critérios técnicos.

...e nos contêineres do parque de simuladores de incêndio

FOTOS ESB / CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULO…e nos contêineres do parque de simuladores de incêndioFOTOS ESB / CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULO

Este ano, em estadias que duraram de três a 10 dias entre abril e julho, dois bombeiros visitaram uma cidade na Alemanha (Mannheim) e 49 estiveram em cinco outras nos Estados Unidos (South Saint Paul, Indianápolis, Las Vegas, Los Angeles e College Station). Na primeira estadia, o objetivo foi estagiar no setor de atendimento operacional de produtos perigosos da empresa química alemã Basf. As demais viagens foram para municípios norte-americanos onde ocorriam cursos de atualização em equipamentos de combate a incêndio, participaram de feira técnica, assistiram a palestras sobre estudo de caso de ocorrências reais e realizaram atividades de capacitação tecnoprofissional.

Na volta ao Brasil, como ocorreu nos anos anteriores, esses bombeiros se tornaram multiplicadores de conhecimento ao repassar para os colegas o que foi aprendido no exterior. A atual qualidade do atendimento é reconhecida pela população: segundo o Índice de Confiança Social, pesquisa realizada pelo Ibope desde 2009, o Corpo de Bombeiros aparece no topo do ranking como a mais confiável instituição brasileira por sete anos (2009-2015).

Carros doados são usados para treino de salvamento de vítimas de acidentes no trânsito

FOTOS ESB / CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULOCarros doados são usados para treino de salvamento de vítimas de acidentes no trânsitoFOTOS ESB / CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULO

“O intercâmbio é essencial para conhecermos o que há de mais moderno na nossa área”, afirma o major Carlos Roberto Rodrigues, chefe da Divisão de Ensino da ESB. Em 2007, junto com outros 43 bombeiros, o major Rodrigues foi um dos escolhidos para ir a Adelaide, na Austrália. O militar teve de estudar inglês intensivamente para conseguir se comunicar. “A maioria de nós só fala português e nunca tinha viajado para o exterior”, contou. “Foi bom porque tivemos contato com outra cultura, visitamos quartéis, aprendemos muito.”

Em Adelaide, eles participaram dos Jogos Mundiais dos Bombeiros daquele ano e assistiram a palestras e seminários para profissionais de todas as partes do mundo. Os jogos são bianuais e qualquer cidade que tenha boa estrutura pode se candidatar. “Foi em Adelaide que vi um sistema de suporte logístico que talvez possamos replicar aqui”, diz o major Rodrigues. Trata-se de um contêiner que é levado ao local do acidente com tudo o que é necessário para os primeiros socorros em grande quantidade: pranchas para vítimas, equipamento para cortar veículos, material abundante de primeiros socorros.

06_Bombeiros02_290_FCWFOTOS ESB / CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE SÃO PAULOSegundo o capitão Diógenes Martins Munhoz, chefe do Laboratório de Resgate da ESB, a formação do bombeiro diz respeito, ainda, à parte cultural. “Conhecer as diversas culturas bombeirísticas pelo mundo faz diferença. É importante comparar nosso modo de trabalhar com o de outros profissionais, trazer know-how, conhecer experiências realizadas em culturas diferentes”, afirma. “O Corpo de Bombeiros só pode dar uma medalha e agradecer o bom trabalho feito por um profissional da corporação. Já a FCW nos dá uma premiação mais expressiva porque nos permite adquirir mais conhecimento.”

A ESB é a maior escola da América Latina. Está instalada em Franco da Rocha desde 1999 em um terreno de 109 hectares com área construída de 57 mil metros quadrados. Além do parque de simuladores, há ampla estrutura como torres para salvamento em altura, sistema de galerias subterrâneas para treino em espaço confinado, pista para resgate em estruturas colapsadas, piscinas, alojamento que pode abrigar 800 alunos e 32 salas de aula. “Recebemos bombeiros de todo o país e da América Latina”, conta o major Rodrigues. Os cursos ministrados são numerosos e variados, como, por exemplo, de salvamento terrestre, em altura, aquático e veicular, além de mergulho autônomo e primeiros socorros. A escola já chegou a receber de uma só vez 1.400 alunos.

006-INFO_FCWAs aulas são dadas pela equipe da ESB. Carlos Rodrigues fez cinco anos de Academia Militar e o Curso de Formação de Oficiais, além do curso de bombeiros. É formado em direito e engenharia civil. “A área de estruturas colapsadas me interessa”, diz ele. Diógenes Munhoz se graduou nas duas mesmas áreas e hoje faz mestrado profissional em psicologia no Curso de Oficiais da Polícia Militar para aperfeiçoar a abordagem quando há ameaça de suicídio. As aulas na ESB começam com a parte teórica, mas a prática predomina. Todos os alunos devem ter bom preparo físico e estar fortemente motivados.

O intercâmbio com outras corporações e escolas do exterior proporciona, além da troca de experiência, a possibilidade de trazer novas tecnologias para o país. Os bombeiros brasileiros conheceram os simuladores de incêndio durante visita à Alemanha. Trata-se de contêineres nos quais se reproduzem situações com fogo de modo mais realista possível, com chamas altas, calor extremo, fumaça espessa e visibilidade restrita. Hoje estão incorporados aos treinamentos realizados na ESB. A manta de hidrogel, utilizada nos primeiros socorros de queimados, foi trazida de uma feira técnica que ocorreu em Los Angeles. Nos dois casos, as viagens ocorreram com apoio da FCW.

As inovações brasileiras também interessam aos bombeiros de outros países. O trânsito em São Paulo é intenso, com grande número de acidentes. Em 2015 houve 464.607 ocorrências atendidas pelo Corpo de Bombeiros em todo o estado e pelo menos 25% delas foram relativas a acidentes de trânsito, de acordo com o comando da corporação. Cotidianamente, portanto, os bombeiros são mobilizados para fazer o que é chamado de desencarceramento, ou seja, tirar vítimas das ferragens de veículos. “A parte de salvamento veicular é a nossa maior expertise e já chamou a atenção de especialistas em salvamentos do exterior”, conta o major Rodrigues, ele próprio especializado nessa área. Hoje, os carros blindados se transformaram na mais recente dor de cabeça dos bombeiros. Entrar, serrar ou partir um blindado rapidamente em um salvamento exige técnicas diferentes das utilizadas em veículos comuns.

006-INFO02_FCWPara treinar com carros reais, é preciso atrair parceiros. As grandes fabricantes de automóveis cedem veículos para treinamento de todos os tipos sem exigir a divulgação das marcas. Depois de utilizados na ESB, os carros são devolvidos completamente destruídos para as montadoras, que vendem a carcaça para reciclagem. “Não ficamos com nada. É graças a essa colaboração que conseguimos fazer um bom treinamento de resgate com todos os tipos de veículo”, afirma Rodrigues.

Enchentes são também um problema, especialmente quando é preciso resgatar automóveis submersos. “Jogamos um carro em uma piscina e tentamos descobrir jeitos de abrir e resgatar as vítimas rapidamente”, conta o capitão Diógenes. Os bombeiros da ESB fizeram uma adaptação da roupa normalmente usada para entrar em locais com fogo, de modo que possam respirar com os mesmos aparelhos debaixo d’água a pequenas profundidades e por pouco tempo. “Os alemães nos viram fazer essas simulações durante um evento chamado Rescue Day, em 2011, aqui no Brasil, e gostaram das inovações”, diz Rodrigues. “Disseram que passariam a usar nossa experiência com blindados e a técnica de mergulho rápido.” Um ano antes, os brasileiros é que visitaram a Alemanha e assistiram ao Rescue Day deles. A cada evento desse na ESB são destruídos 70 carros para demonstração de resgate.

Aula na Fundação Anita Pastore, em São Paulo. Projeto de inserção digital oferece cursos de informática gratuitos

LÉO RAMOSAula na Fundação Anita Pastore, em São Paulo. Projeto de inserção digital oferece cursos
de informática gratuitosLÉO RAMOS

Outros apoios
O Corpo de Bombeiros é uma das cinco entidades que constam do testamento de Ubaldo Conrado Augusto Wessel como merecedoras de doações filantrópicas anuais a serem repassadas pela FCW – as outras quatro são a Fundação Antonio Prudente, o Serviço de Promoção Social do Exército da Salvação, as Aldeias Infantis SOS Brasil e a Escola Benjamin Constant. O apoio da fundação alcança também outras entidades. É o caso do Núcleo Fundações, coordenado pela Fundação Anita Pastore D’Angelo, que desenvolve um projeto de inserção digital apoiado pela FCW desde 2003 e oferece cursos de informática a pessoas de baixa renda em São Paulo.

A FCW divide o apoio à Fundação Anita Pastore D’Angelo com a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), a Federação Espírita do Estado de São Paulo (Feesp) e a Ezute, organização que atua na concepção, planejamento e desenvolvimento de projetos e melhoria de gestão. De natureza cooperativa, o trabalho de inserção digital na Anita Pastore foi um dos primeiros realizados em São Paulo. Seu conjunto de cursos se divide em Básico, Excel Avançado, Aplicativos e Web Designer.

006-INFO0_FCWA ex-aluna Márcia de Souza foi uma das beneficiadas pelo projeto. “Antes eu prestava serviços de auxiliar de limpeza e decidi fazer todos os cursos de informática da Fundação Anita Pastore”, conta ela, hoje formada em ciências contábeis e trabalhando como contadora. “Tenho consciência que foram os cursos que nortearam a minha escolha profissional e possibilitaram a ascensão profissional.” Desde 2003 o Núcleo Fundações recebeu 4.826 inscrições e formou 2.907 alunos, dos quais 2.568 no Curso Básico, 14 em Web Designer e 325 em Excel Avançado.

A filantropia é apenas parte do leque de premiações que tornou a FCW referência nacional. Em 2016, começou mais uma série de premiações e apoio às atividades acadêmicas, científicas e culturais. Entre as outorgas deste ano, relativas ao Prêmio FCW de 2015, há três ensaios fotográficos, o prêmio de Cultura e o de Medicina. Desde 2002, o total de premiados atingiu 46 na categoria Arte, 30 em Ciência, 13 em Medicina e 16 em Cultura. O número deve ser acrescido de mais 10 Prêmios Almirante Álvaro Alberto e outros 30 prêmios Grandes Teses Capes, todos com patrocínio da fundação instituída por Conrado Wessel. O ano de 2016 se encerrará contabilizando um total de 145 premiações.

Aos prêmios se agrega o patrocínio constante das revistas científicas produzidas por entidades parceiras da FCW: os Anais da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Brasileira de Ciências; a JATM/Journal of Aerospace Technology and Management, do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA, vinculado ao Comando da Aeronáutica); a Pesquisa Naval, da Marinha do Brasil; e este suplemento anual Prêmio FCW, que circula com a revista Pesquisa FAPESP. Esta edição traz os perfis de Rubens Belfort Júnior, ganhador na categoria Medicina, de Lygia Fagundes Telles, em Cultura, e os três ensaios fotográficos premiados em Arte. Também há a galeria com todos os ganhadores e a trajetória de Conrado Wessel.

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