As chamadas “frases torturadas” são expressões estranhas ou semanticamente sem nexo que aparecem em artigos científicos visando burlar softwares que detectam plágio. No seu blog Science Integrity Digest, a microbiologista e especialista em integridade científica Elisabeth Bik pinçou exemplos de “frases torturadas” em um artigo publicado na revista Advances in Environmental Biology em 2019.
Assinado por quatro cientistas, dois da Arábia Saudita e dois do Egito, o artigo trazia, já no resumo, um texto rebuscado e repetitivo para tentar explicar a importância de estudar microrganismos presentes nas mamas dos camelos a fim de evitar a contaminação do leite do animal. Algumas frases estavam completamente truncadas, como a que mencionava “definição e definição de micróbios no camelo do camelo”, o que despertou a atenção de Bik.
“O artigo substitui sistematicamente termos comuns de microbiologia por sinônimos e paráfrases bizarras”, escreveu a microbiologista. A palavra cell (célula) foi erroneamente apresentada como cubicle (cubículo ou cela). Ecological niches (nichos ecológicos) se converteram em biological specialties (especialidades biológicas), enquanto virulence factors (fatores de virulência) se transformaram em destructiveness parts (algo como partes destrutivas). Bik descobriu que a fonte provável do texto “torturado” era uma tese de 2017 assinada pelo português Alexandre Almeida, na Universidade de Paris VI, na França. A má conduta não se restringia ao plágio da tese. Fotos atribuídas a células das mamas de camelos foram reaproveitadas de um estudo saudita e não se referiam a mamas, e sim a células infectadas do coração e da língua de um dromedário.
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