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Investimento

Plasma recuperado

São Paulo vai licitar fábrica para a produção de hemoderivados

MIGUEL BOYAYANO governo do Estado de São Paulo deve iniciar, nos próximos 60 dias, a licitação das obras da fábrica de hemoderivados para a produção de proteínas obtidas a partir do plasma. O projeto é do Instituto Butantan. A fábrica, que entrará em operação em um ano e meio, está orçada em R$ 100 milhões e será instalada em área próxima ao Paço das Artes, na Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (USP). “O produto de maior interesse será a imunoglobulina, que representará 50% do faturamento.

Também produziremos os fatores de coagulação VIII e IX, utilizados no tratamento da hemofilia A e B, e albumina”, adianta Isaias Raw, do Centro de Biotecnologia do Butantan e presidente da Fundação Butantan. O início das operações dependerá de convênio a ser firmado entre o Estado de São Paulo e o Sistema Único de Saúde (SUS) para o fornecimento de matéria-prima – o plasma -, já que a compra de sangue e a venda dos derivados são proibidas no país por determinação constitucional.

“A maior parte do sangue é recolhida pelo SUS, em São Paulo”, justifica Raw. Ele é transportado congelado para ser processado na única fábrica brasileira de hemoderivados, em Pernambuco, que atualmente está parada. Quando em operação, produz apenas a albumina e em quantidade suficiente para atender a 7% da demanda nacional. Raw lembra, no entanto, que o mercado da albumina obtida a partir de plasma está em declínio, já que o produto está sendo substituído por polímeros sintéticos, livres de vírus, para o tratamento de choque.

Outra parcela do plasma é processada por duas empresas – uma francesa e outra austríaca – selecionadas em 2002 por concorrência internacional para produzir parte das necessidades nacionais de imunoglobulina e os fatores VIII e IX.O déficit de abastecimento de hemoderivados – que exige que o país gaste algo em torno de US$ 150 milhões para atender a toda a demanda – e o fato de boa parte do plasma coletado ser descartado justificam investimentos na produção nacional, de acordo com Raw.

Cromatografia
Os hemoderivados da fábrica do Butantan serão obtidos por cromatografia, método que utiliza uma coluna cilíndrica contendo resinas sintéticas que permitem a separação das proteínas. “Ao passar pela coluna, o processo de purificação se repete milhares de vezes e acaba separando de forma bastante purificada cada proteína”, explica Raw.

Esse procedimento utiliza resinas distintas para separar as proteínas por tamanho, carga elétrica, rejeição à água ou ainda por sua atividade biológica. A cromatografia já é utilizada pelos pesquisadores do Instituto Butantan para produção de toxinas antitetânicas, vacina recombinante contra a hepatite tipo B e para a purificação de soros hiperimunes.

Para garantir a qualidade dos hemoderivados, os produtos são tratados com um solvente orgânico e um detergente que decompõem o vírus da hepatite B e todos os demais vírus com uma cápsula lipoprotéica. “Todavia o detergente e o solvente também têm que ser removidos, o que só é possível usando a cromatografia”, observa Raw. Um segundo procedimento é utilizado para remover vírus não encapsulados.

A nova fábrica deverá incorporar também a tecnologia de produção de fatores VIII e IX a partir da biotecnologia que está sendo desenvolvida pela Rede Brasileira para Clonagem e Expressão de Fatores de Coagulação, formada por quatro laboratórios nacionais, entre eles o Hemocentro de Ribeirão Preto. Raw ressalva que a produção direta do fator IX a partir do plasma atenderia totalmente à demanda nacional, “uma vez que a hemofilia B é muito mais rara”. O Hemocentro de Ribeirão Preto será responsável pelo controle do plasma processado e dos hemoderivados produzidos pela fábrica do Butantan, já que dispõe de um laboratório com alta tecnologia para analisar um grande número de amostras.

Também está prevista a instalação de um laboratório – “uma fábrica dentro da fábrica”, explica Raw – para a produção de soros hiperimunes. A idéia é vacinar doadores dos hemocentros com vacinas contra tétano ou hepatite B produzidas no Butantan e processar separadamente esse plasma para produzir soros antitetânico e anti-hepatite B. “Um centro especializado de coleta está sendo projetado para funcionar no Instituto Pasteur”, afirma.

Mais eficiência
A cromatografia, ele avalia, é mais eficiente que a tecnologia tradicional de produção de hemoderivados por fracionamento de plasma, utilizada desde a década de 1960, e que consiste na separação da massa de proteína precipitada no descongelamento da bolsa de plasma. “Essa tecnologia já está obsoleta. As velhas fábricas de hemoderivados têm se mantido com a velha tecnologia, depois de adicionar etapas que têm como objetivo eliminar os vírus: aquecimento, tratamento com solvente-detergente, entre outros.”

“Há duas décadas tentamos implantar uma planta de hemoderivados”, lembra Raw. Como o acesso ao plasma estava por lei bloqueado, o Butantan investiu na produção de hemoderivados a partir de pequenas quantidades de plasma disponíveis na placenta, tecnologia desenvolvida pela Merrieux, na França, mas que apresentava um problema: utilizava placentas congeladas com o conseqüente rompimento de hemácias contaminando, assim, o plasma.

“O Butantan desenvolveu tecnologia para isolar simultaneamente das placentas a albumina, imunoglobulina, transferrina, catalase e superóxido dismutase”, ele conta. A “colheita” de placentas e o isolamento de proteínas, no entanto, eram procedimentos muito mais caros que o uso de sangue de doadores. Esse desafio estimulou os pesquisadores a buscar soluções mais baratas e, ao mesmo tempo, seguras.

“O Butantan desenvolveu e está patenteando uma tecnologia onde o plasma degelado passa diretamente numa coluna, separando e purificando cerca de cem vezes o fator de coagulação. Eliminando a separação por congelamento, o rendimento do fator VIII duplica. O concentrado permite separar os fatores e, depois do tratamento antiviral, chegar a um produto muito mais barato para tratar hemofílicos”, afirma Raw.

Hemobrás
A União também tem planos de construir a Empresa Brasileira para o Fracionamento de Plasma (Hemobrás), uma fábrica orçada em US$ 60 milhões, arquitetada para produzir hemoderivados a partir do fracionamento do plasma sangüíneo e que teria como objetivo atender parte da demanda do Sistema Único de Saúde.

O projeto da Hemobrás, no entanto, está parado no Congresso Nacional. “A proposta paulista não pretende monopolizar o fracionamento do plasma. Muito pelo contrário: oferece todos os detalhes e treinamento para que seu projeto seja replicado em outros pontos do território nacional. Não se pode desperdiçar um salto tecnológico, repetindo instalações e processos obsoletos”, conclui Raw.

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