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Resenhas

Política externa em números

De Dutra a Lula: a condução e os determinantes da política externa brasileira | Octavio Amorim Neto | Editora Campus, 216 páginas, R$ 55,00

Se havia uma exceção gritante na crescente quantificação dos saberes, essa era a política externa, sempre analisada de forma qualitativa e, na maior parte dos casos, em um diapasão subjetivo. O estudo de Octavio Amorim Neto, De Dutra a Lula: a condução e os determinantes da política externa brasileira, traz essa nova variável, objetiva, revertendo certezas e confirmando hipóteses. A partir da base de dados das votações na Assembleia Geral das Nações Unidas é possível analisar o grau de convergência do Brasil com os EUA nas votações em mais de seis décadas de política externa e 18 mandatos presidenciais. Os resultados são notáveis. Somos informados de que a maior interação entre as nações se deu nos 15 anos posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial, auge da Guerra Fria. Daí em diante há uma queda sistemática nessa convergência nos 63 anos, com pequenas variações entre presidentes.

Confirma-se a visão de que, à medida que cresce o potencial nacional, mais o país tende a se afastar das posições americanas e garantir a sua autonomia. Nisso entrariam três vetores: a crença do Itamaraty na grandeza brasileira; o nacionalismo dos militares na construção de seu poder; a sensibilidade das esquerdas à argumentação de poder nas relações internacionais. Seja como for, em todos os momentos é notável a centralidade crescente do papel do presidente na condução da política externa, embora o tema tenha adquirido notoriedade apenas nos últimos anos.

Efetivamente os números mostram uma perda gradativa de poder do Itamaraty e o crescimento da diplomacia presidencial, com o risco da politização da política internacional. Nisso Amorim Neto revela uma dualidade local: uma política de Estado que tende à continuidade da política externa, independentemente do governante; uma política de governo que mostra o peso das orientações políticas e escolhas presidenciais. O estudo, unindo quantitativo e qualitativo, revela como são complexas as nossas relações com o mundo.

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