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Biodiversidade

Poluição que vem de longe

Mesmo isoladas, espécies do arquipélago brasileiro de São Pedro e São Paulo sofrem com os efeitos de compostos químicos emitidos a milhares de quilômetros

Arquipélago de São Pedro e São Paulo: fundamental para o ciclo de vida de diversas espécies, a maioria exclusiva daquela região

Fernanda Imperatrice Colabuono Arquipélago de São Pedro e São Paulo: fundamental para o ciclo de vida de diversas espécies, a maioria exclusiva daquela regiãoFernanda Imperatrice Colabuono

Regiões isoladas, com características primitivas e sem fontes locais de produção de resíduos tóxicos, também podem estar sujeitas aos efeitos da poluição gerada a milhares de quilômetros (km). A conclusão é de um grupo de pesquisadores do Laboratório de Química Orgânica Marinha do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e do Littoral Environnement et Sociétés da Université de La Rochelle, na França. Em um estudo publicado na edição de julho da revista Marine Pollution Bulletin, eles avaliaram a ocorrência e a distribuição de compostos químicos conhecidos como poluentes orgânicos persistentes (POPs) no organismo de espécies do arquipélago de São Pedro e São Paulo, localizado a cerca de 1.100 km da costa do estado de Pernambuco. Os POPs são substâncias que demoram a se degradar, podendo persistir num ambiente por décadas.

Os pesquisadores verificaram que, mesmo isoladas, algumas espécies de crustáceos, peixes e aves apresentavam em seu organismo concentrações relativamente significativas de compostos químicos altamente tóxicos, como pesticidas organoclorados (ex. DDTs) e bifenilas policloradas (PCBs), substâncias bastante usadas na fabricação de borrachas, plásticos e tintas. As características físico-químicas dessas substâncias, voláteis, muito pouco solúveis em água e quimicamente estáveis, sugerem ainda que elas tenham sido transportadas até a região por meio de rotas atmosféricas de longa distância. “Há muito se sabe que esses componentes são facilmente transportados pelo ar. Isso contribui para sua dispersão em escala global. Por isso, é um desafio determinar uma fonte pontual de emissão”, explica o químico Patrick Simões Dias, autor principal do estudo.

Para ele, o fato de o clima na região ser influenciado pela zona de convergência intertropical, uma área de baixa pressão onde os ventos dos hemisférios Norte e Sul se encontram, também contribui para a dispersão e exposição desses poluentes até o arquipélago. “Como esses ventos convergem, o ar úmido é forçado para cima e o vapor-d’água se condensa conforme o ar sobe e se resfria. Isso desencadeia chuvas com médias anuais de até 300 milímetros, as quais removem esses poluentes da atmosfera para a água e o solo, deixando-os disponíveis para as espécies locais”, afirma o químico.

Para determinar a concentração de poluentes no organismo dessas espécies o grupo de pesquisadores analisou amostras do tecido interno de caranguejos (Grapsus grapsus) e do fígado de peixes-voadores (Exocoetus volitans) e atobás-marrons (Sula leucogaster), encontrados mortos próximo a seus ninhos. “Esses animais são frequentemente utilizados em estudos ambientais por serem importantes indicadores de bioacumulação de poluentes”, comenta Dias.

Ele explica que a dieta desses animais geralmente se caracteriza como uma das principais formas de exposição às substâncias estudadas e que, apesar de não terem observado diferenças significativas em relação ao acúmulo de poluentes entre as três espécies, é natural que as aves estejam mais expostas a esses resíduos. Isso porque elas estão sujeitas à contaminação, como as outras espécies do arquipélago, de forma mais agravada, uma vez que acabam se alimentando dos peixes já contaminados.

Formado essencialmente por cinco pequenas ilhas rochosas, o arquipélago de São Pedro e São Paulo se estende por 1,7 km², sendo fundamental para o ciclo de vida de diversas espécies, a maioria exclusiva daquela região. Assim, a dispersão e a homogeneidade das fontes de poluição, e também os efeitos de seu acúmulo na biota do arquipélago, ressaltam a importância desses organismos como termômetros de impacto ambiental. “O fato de essas espécies agirem como bioindicadores de poluição dá uma noção do quanto elas têm sido afetadas por esses resíduos e de como regiões isoladas podem não estar isentas à presença e aos efeitos da exposição aos POPs”, destaca Dias.

Artigo científico
DIAS, P. S., et al. Persistent organic pollutants in marine biota of São Pedro and São Paulo Archipelago, Brazil. Marine Pollution Bulletin. (2013).

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