Um projeto que pretende ampliar de 300 para 1.800 o número de primatas disponíveis para pesquisas biomédicas na França enfrenta questionamentos do Comitê de Ética do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), organização a que está vinculado o Centro Nacional de Primatologia, responsável pelo espaço para criação dos animais, em Rousset, perto de Marselha.
A bióloga evolucionista Virginie Courtier-Orgogozo, diretora de pesquisa do CNRS, opôs-se publicamente ao projeto depois que o Comitê de Ética da organização emitiu um parecer com uma “posição divergente” – segundo o documento, o espaço para primatas carece de uma justificativa científica rigorosa e é preciso fazer uma análise minuciosa das alternativas.
“O CNRS precisa servir como catalisador para garantir que a França adote um plano ambicioso que inclua detalhes sobre casos em que se pode e em que não se pode substituir os animais”, disse Christine Noiville, presidente do Comitê de Ética, em entrevista publicada no site do CNRS.
Segundo o jornal francês Le Monde, o projeto está orçado em mais de € 30 milhões e foi motivado pela dificuldade em obter animais para experimentação durante a pandemia de Covid-19. Historicamente, a China era o maior exportador mundial de primatas para laboratórios franceses. Após a pandemia, o Camboja e as Ilhas Maurício, no oceano Índico, emergiram como dois dos principais fornecedores.
A meta é que o espaço consiga fornecer, no início da década de 2030, aproximadamente um terço dos macacos cinomolgos (Macaca fascicularis) apontados como necessários para lastrear pesquisas na França – esses animais são bastante utilizados na pesquisa biomédica global devido à semelhança genética, fisiológica e anatômica com os seres humanos –, além de promover autossuficiência em macacos-rhesus e babuínos.
Entre 2021 e 2023, a França utilizou em pesquisa básica e aplicada uma média anual de 747 primatas não humanos. No mesmo período, o Reino Unido fez uso de 181 desses modelos animais por ano e a Alemanha de 118. Segundo o Comitê de Ética do CNRS, isso não resultou em um desempenho superior dos laboratórios franceses em número de publicações científicas envolvendo primatas não humanos.
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