
Museu Arqueológico de Sambaqui de JoinvillePontas de arpão: os maiores da América do SulMuseu Arqueológico de Sambaqui de Joinville
Por volta de 5 mil anos atrás, comunidades indígenas caçavam baleias no litoral sul brasileiro, de acordo com artigo publicado em janeiro na revista científica Nature Communications por arqueólogos da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha, e do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville (MASJ).
Os pesquisadores analisaram centenas de ossos de cetáceos e de ferramentas feitas de ossos encontradas em sambaquis da baía Babitonga, em Santa Catarina, já conhecidos desde os anos 1960, mas que ainda não tinham sido estudados de forma sistemática. “De modo geral, a área da análise tipológica e tecnológica de objetos ósseos permanece pouco consolidada no Brasil quando comparada aos trabalhos que vêm sendo realizados em países vizinhos, como o Uruguai e a Argentina, bem como na América do Norte e na Europa”, afirma o arqueólogo ítalo-brasileiro André Carlo Colonese, da UAB. No caso, as análises permitem inferir a função dos artefatos e sua forma de produção. O grupo coordenado por ele também usou técnicas de zooarqueologia e biologia molecular, como o estudo de proteínas do colágeno, que lhes permitiram identificar que objetos muito antigos, até mesmo muito trabalhados, foram feitos com ossos de várias espécies de baleias e golfinhos. “A identificação de restos de grandes cetáceos é extremamente difícil quando os ossos se encontram fragmentados ou trabalhados; até então, não era possível avançar nessa diferenciação.”
As análises também revelaram marcas que indicam que a carne foi ativamente retirada pelos caçadores, que usavam arpões feitos de osso – os maiores já encontrados na América do Sul – para caçar. Esses povos dos sambaquis eram, assim, muito mais do que coletores e pescadores: eram também caçadores de baleias – na época, muito mais abundantes naquela região do que hoje. Até agora, os registros mais antigos de caça desses animais datavam de um milênio depois, cerca de 6 mil anos, em sociedades árticas e do Pacífico Norte.

ERC-TRADITIONA arqueóloga biomolecular Krista McGrath, da UAB, prepara arpão do sítio Morro do Ouro para análiseERC-TRADITION
“Esse artigo saiu em um momento excelente para meu trabalho e traz um viés revolucionário”, avalia a arqueóloga uruguaia Ximena Villagrán, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP). Ela faz pesquisa em sambaquis catarinenses e já tinha visto fragmentos de instrumentos feitos de ossos, mas não havia interpretado que serviriam para caça. “Normalmente encontramos o material muito quebrado, não os grandes arpões que estão em Joinville”, justifica. Não surpreende encontrar pedaços de ossos processados pelos grupos humanos, já que os povos dos sambaquis não costumam usar rocha para fabricar ferramentas, mas com as técnicas tradicionais não era possível identificar a que animal os ossos teriam pertencido. “Vemos fragmentos de artefatos em osso de pássaros, de peixes ou outros animais”, conta ela. Ao ver os arpões, ela entendeu que eles também poderiam ser parte de instrumentos de caça.
Essa conclusão, de acordo com o arqueólogo da UAB, leva a repensar pressupostos tidos como verdade na arqueologia. “A caça de subsistência dos grandes cetáceos sempre foi vista como uma atividade arriscada, que exigiria um nível tecnológico náutico que não foi descrito pelos europeus entre os grupos Tupi e Guarani no século XVI, que certamente eram grandes canoeiros”, relata. Para Colonese, a percepção de que esses povos caçavam baleias, atividade que provavelmente rareou antes mesmo de populações indígenas serem dizimadas pela colonização, abre novos caminhos para a pesquisa. Também pode mudar o olhar sobre essas populações, uma vez que a caça pode ter influenciado sua organização social, política e ideológica. “Abre-se, assim, um amplo leque de possibilidades que os dados arqueológicos nos permitirão construir, testar, corroborar ou eventualmente refutar”, reflete.
O arqueólogo enfatiza “o trabalho exemplar que o MASJ vem executando na preservação do patrimônio arqueológico do Brasil”. Muitos dos sambaquis da região já foram destruídos e os artefatos só existem lá. Villagrán planeja voltar a examinar artefatos do acervo do MAE-USP, a partir da nova possibilidade de entendimento.
Artigo científico
MCGRATH, K. et al. Molecular and zooarchaeological identification of 5000 year old whale-bone harpoons in coastal Brazil. Nature Communications. v. 17, 48. 9 jan. 2026.