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Reconhecimento

Prêmio Carolina Bori destaca mulheres cientistas

No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a SBPC manifestou a importância da participação feminina em todas as esferas acadêmicas

Premiadas: Maria Arminda do Nascimento Arruda, Iris Torriani, Marília Goulart, Luisa Villa e Nísia Trindade (de pé), e Ana Mae Barbosa (sentada)

Jardel Rodrigues / SBPC

O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, implementado em 2015 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no Brasil conta com uma celebração especial: o prêmio Carolina Bori, criado em 2019 pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Neste 11 de fevereiro, as placas comemorativas e os prêmios de R$ 25 mil foram entregues para a bióloga Luisa Lina Villa, a física argentina Iris Concepción Linares de Torriani e a arte-educadora Ana Mae Barbosa. Elas também são convidadas a participar da reunião da SBPC, que tradicionalmente acontece em julho e neste ano será em Niterói, no Rio de Janeiro. A socióloga Nísia Trindade, a bioquímica Marília Oliveira Fonseca Goulart e a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda receberam menções honrosas.

A cerimônia aconteceu no Centro Cultural Maria Antônia, da Universidade de São Paulo (USP), que abriga a sede da SBPC. A engenheira eletricista Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, participou por plataforma de vídeo e afirmou que as laureadas não são apenas exemplos de excelência acadêmica. “Elas representam resistência, perseverança e transformação. Cada uma de vocês abriu portas para muitas outras mulheres em todas as áreas, produzindo conhecimento, promovendo inovação e fazendo as coisas acontecerem.”

Luisa Villa, vencedora na categoria Ciências Biológicas e da Saúde, é referência internacional em estudos com o papilomavírus humano (HPV) e trabalhou com o desenvolvimento da vacina profilática contra esse vírus, relacionado ao câncer de colo do útero. É professora da Faculdade de Medicina da USP e lidera o Laboratório de Inovação em Câncer do Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Villa definiu o trabalho das mulheres como de persistência e determinação. “Temos que perseguir o que desejamos com afinco, com seriedade, com honestidade e, por que não dizer, com muita responsabilidade”, propôs. “Temos responsabilidade por toda a sociedade.”

Iris Torriani, premiada na categoria Exatas, chegou ao Brasil em 1976 e se radicou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde ajudou a estruturar a frente de pesquisa em matéria condensada do país. Ela teve um papel decisivo na instrumentação de duas linhas do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que depois deu origem ao Sirius, o maior acelerador de partículas do hemisfério Sul. Até 2004 ela liderou o Laboratório de Cristalografia Aplicada e Raios X dessa universidade.

Ana Mae Barbosa foi premiada na categoria Humanidades por ter fundado o campo da arte-educação no país, atuando em vários estados. Ela contou que há 50 anos, quando pediu uma bolsa para estudo nos Estados Unidos, recebeu a resposta de que não havia pesquisa nessa área. Celebrou, com a lembrança, o caminho percorrido para chegar ao reconhecimento. “Quando a democracia está ameaçada, a arte, a educação e a ciência são atravessadas por todo tipo de cerceamento, de censura e de descredibilidade”, disse a historiadora das ciências Maria Renilda Barreto, da diretoria da SBPC, ao apresentar a laureada. “Precisamos reforçar a ciência e a democracia no país.”

Maria Arminda do Nascimento Arruda recebeu a menção honrosa por seu papel na USP, onde foi diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e vice-reitora da universidade. “Precisamos firmar o papel e homenagear as mulheres que vão para a gestão e fazem a diferença no serviço público brasileiro”, disse Barreto.

Em Ciências Biológicas e da Saúde, a menção honrosa foi para Nísia Trindade, que dirigia a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, durante a pandemia da Covid-19. Ela foi a primeira mulher a presidir a fundação e a primeira ministra da Saúde, entre 2023 e 2025.

Em Exatas foi destacada Marilia Goulart, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que lembrou ter cursado farmácia e bioquímica durante o período da ditadura militar, sempre guiada pelo amor à química.

A psicóloga experimental Carolina Bori (1924-2004), que dá nome à premiação, foi professora emérita da USP e primeira mulher presidente da SBPC, entre 1986 e 1989. “Ela foi um símbolo de coragem intelectual, fundamental para um compromisso democrático e uma defesa intransigente da universidade pública, não só na área em que atuou”, lembrou a cientista da computação Francilene Procópio Garcia, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), na Paraíba, presidente atual da SBPC. A farmacêutica Soraya Smaili, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e vice-presidente da sociedade, definiu Bori como acolhedora, serena e firme. “Ela presidiu a SBPC no momento da Constituinte, foi firme na defesa, na apresentação das propostas da comunidade científica”, contou. “Hoje, mais do que nunca, temos que continuar a reafirmação da ciência para a soberania, para a democracia, para termos um país mais equânime e justo.”

A homenagem ganhou coerência e ares de luta graças à composição atual da instituição, com maioria absoluta feminina. Dos nove diretores da SBPC, sete são mulheres. “É importante, com a realização deste dia, que nós possamos afirmar que as mulheres brasileiras também produzem ciência de alto nível, são capazes de liderar equipes, de construir e influenciar políticas públicas e, mais do que isso, ajudar a transformar o país”, disse Garcia. “O Brasil precisa de todas nós, e isso é fundamental.” Smaili, que coordenou a organização do prêmio, explicou que ele contempla, em anos alternados, meninas e mulheres cientistas. Segundo ela, 80% das meninas premiadas seguiram carreira científica e 2025 registrou um recorde de 126 indicações, 92 delas válidas: um crescimento de 64% em relação à edição anterior.

A importância da democracia deu o tom das falas, assim como as violências que as mulheres enfrentam na forma de assédio moral, psicológico e físico, assim como desigualdades de oportunidades e remuneração. “Não é aceitável que o talento seja constrangido, que as jovens lideranças femininas, que surgem em todos os recantos do país, sejam sistematicamente questionadas por sua condição de gênero; não é justo que meninas desistam de ser pesquisadoras por falta de apoio ou por ambientes inseguros”, afirmou Garcia. “Esse grito, nós precisamos colocar neste momento de celebração.” A ministra Luciana Santos reiterou a luta por equidade de gênero na ciência brasileira. “É uma questão de excelência, de desenvolvimento e de soberania nacional; um país que desperdiça o talento das mulheres também desperdiça o próprio futuro.”

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