Imprimir PDF Republicar

Projeto Temático

Prevenindo endemias

O aumento considerável, no país, dos casos de dengue, doença que tem como vetor o mosquito Aedes aegypti , veio mais uma vez comprovar que a prevenção é sempre o remédio mais eficaz, especialmente quando se trata de saúde pública. E prevenir significa identificar antecipadamente a presença de vetores de possíveis doenças e conhecer-lhes a biologia e comportamento, muito antes de se tornarem ameaça. É isto o que está sendo feito em Ilha Comprida, no litoral sul paulista, onde as diversas espécies de mosquito são, atualmente, alvo de um estudo pormenorizado para avaliação de possíveis riscos de endemias e surtos de doenças que possam causar, como malária e vários tipos de encefalite.

Esse trabalho faz parte do projeto temático Culicídeos em Áreas de Transformação Antrópica e seu Significado Epidemiológico , financiado pela FAPESP. Sob a coordenação do professor Oswaldo Paulo Forattini, do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP-Universidade de São Paulo, um grupo de quinze pesquisadores está trabalhando em duas frentes, com objetivos que se complementam. A primeira é identificar e catalogar as espécies de mosquitos existentes na região e verificar a densidade populacional em várias épocas do ano e a forma como eles se reproduzem.

A outra é coletar amostras sorológicas da população residente – duas vezes por ano, de cada pessoa – até o encerramento do projeto, no ano 2000. Vivem permanentemente em Ilha Comprida 6 mil pessoas, mas a região recebe, no verão, cerca de 90 mil visitantes. O estudo das amostras sorológicas vai indicar a existência ou não de agentes infecciosos, como os arbovírus que provocam as encefalites, odengue e a febre amarela, além de protozoários responsáveis pela malária.

“Todo esse trabalho servirá como um sentinela para vigiar a presença de agentes infecciosos autóctones, isto é, existentes no local de forma natural, como o vírus da encefalite rocio, ou exógenos, que são os introduzidos pela população flutuante e nas viagens daqueles que moram lá”, afirma o professor Forattini. A malária, por exemplo, é endêmica apenas em algumas regiões da Amazônia. Mas, em todo o litoral paulista, têm sido constatados, a cada ano, cerca de 10 casos, alguns de pessoas com passagem pelas áreas endêmicas, outros, que adquiriram a infecção no próprio local. “Os casos originados no litoral são formas brandas de malária, havendo a hipótese de serem oriundas de protozoários encontrados em macacos”, diz Forattini.

A transmissão aconteceria quando o mosquito – do gêneroAnopheles – tivesse contato com o sangue de macaco contaminado por protozoários do gênero Plasmodium que, posteriormente, é inoculado, pelo inseto, em um humano. Espécies desse gênero de mosquito são comuns em Ilha Comprida e em outras regiões do país, inclusive na capital paulista. “Na Amazônia, existe um incêndio, aqui, na região sudeste, existe o combustível – o mosquito -, que pode provocar o incêndio a qualquer momento”, compara o pesquisador.

Conhecer para controlar
A preocupação dos pesquisadores é ter dados precisos sobre a biologia e a ecologia desses insetos, para que possam ser usados em possíveis situações de endemias. “Para controlar é preciso conhecer”, afirma Forattini. Nesse sentido, os dois primeiros trabalhos científicos finalizados em Ilha Comprida tratam da reprodução dos mosquitos Aedes albopictusAedes scapularis . O primeiro, conhecido como tigre asiático, é originário da Ásia e foi introduzido em Ilha Comprida e em outras regiões do país há alguns anos. Pode vir a ser um transmissor da dengue e da febre amarela, uma hipótese ainda não confirmada.

Ele é muito semelhante e tem os cidade de Cananéia. O Aedes scapularis , responsável pela transmissão da encefalite rocio, que há 20 anos fez várias mortes na região, também se mostrou com grande capacidade reprodutiva em criadouros artificiais. Foi constatada a sua presença na forma larval em latas de tinta e baldes de plástico abandonados em terrenos baldios da região. Normalmente, essa espécie põe os ovos na terra. Posteriormente, eles eclodem com a água das chuvas. Na pesquisa também serão observados, em campo e nos laboratório, aspectos como a competência desses mosquitos em transmitir os microorganismos responsáveis pelas doenças e qual o tempo de vida dos insetos alados, ou seja, vai se tentar descobrir o período que eles têm para inocular o parasita no homem.

Esse projeto temático, que envolve recursos da ordem de R$ 170 mil da FAPESP, reúne pesquisadores e alunos do Nuptem – Núcleo de Apoio à Pesquisa Taxonômica e Sistemática em Entomologia Médica, da Faculdade de Saúde Pública da USP, alunos da Faculdade de Medicina da USP, pesquisadores do Instituto Smithsonian, em Washington, EUA, biólogos da Sucen – Superintendência de Controle de Endemias, e pesquisadores do Instituto de Matemática da USP. Esses últimos vão formular modelos matemáticos que possam prever o aumento da população de mosquitos, de acordo com as condições de reprodução.

Áreas de irrigação
Em um projeto temático anterior, realizado entre 1991 e 1995, na região do Vale do Ribeira, o professor Forattini e sua equipe detectaram que áreas irrigadas artificialmente para plantio de arroz favorecem a reprodução de várias espécies de mosquitos. “Notamos, principalmente, a grande presença do Anopheles albitarsis, do Aedes scapularis e do Culex nigripalpus – transmissor de um tipo de encefalite ornitológica que ataca as aves, inclusive a galinha doméstica”, conta.

Além de analisar o comportamento dessas e de outras dezenas de espécies, o estudo proporcionou a complementação taxonômica – para uma melhor identificação de cada espécie – e redescrição de outras. “Embora não contaminados por agentes infecciosos, constatamos que a irrigação favoreceu a adaptação e a propagação de várias espécies de mosquitos em ambientes modificados pelo homem”, conta Forattini. O professor ressalta também que o aumento da população de mosquitos não se reflete apenas no aspecto epidemiológico, mas, também, nos desconfortos provocados pelas picadas. “A presença de mosquitos dentro de casa diminui a qualidade de vida”, afirma.

Com 73 anos de idade e 50 de vivência acadêmica, iniciada logo após ter-se formado em Medicina pela USP, em 1948, oprofessor Forattini, recebeu, em 1997, o Prêmio Jabuti de Ciências Naturais promovido pela Câmara Brasileira do Livro, com a obra Culicidologia Médica 1o. volume. Aposentado e tendo realizado diversos estudos em entomologia médica, entre eles, trabalhos com o barbeiro, transmissor da doença de Chagas, e com o mosquito palha, vetor da leishmaniose, o professor Forattini continua trabalhando diariamente na Faculdade de Saúde Pública da USP e escreve o segundo volume da Culicidologia Médica.

Republicar