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Memória

Primórdios da divulgação científica

Um dos primeiros periódicos do país, de 1813, já trazia notícias e comentários sobre estudos e invenções

Reportagens e comentários sobre ciência são tão antigos, no Brasil, quanto a própria imprensa. O modo de se divulgar e discutir o saber científico era, obviamente, diferente de hoje. Um belo exemplo dessa forma primeva de divulgação científica ganhará as livrarias este ano. A Biblioteca Nacional digitalizou, a pedido da Casa de Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, todas as 18 edições da revista O Patriota, publicação que circulou na então capital federal por dois anos, em 1813 e 1814.

Uma de suas principais características era o grande espaço dedicado às ciências com artigos estrangeiros, principalmente franceses, embora houvesse a preocupação de incentivar a publicação de textos de autores nacionais. Os artigos tinham um caráter enciclopédico, divididos por tema: matemática, navegação e hidrografia, hidráulica, botânica e agricultura, química, medicina e mineralogia (que incluía as observações meteorológicas). Mensal no primeiro ano e bimensal no segundo, a publicação trazia também assuntos como viagens, política, poesia e a descrição dos diferentes povos do Império português. “Essa miscelânea temática é significativa da cultura da época e demonstra o peso que adquiriam os temas

científicos no ambiente do Iluminismo tardio luso-brasileiro”, observa Lorelai Kury, pesquisadora de história da ciênciada Casa de Oswaldo Cruz e organizadora do livro de ensaios e do CD-ROM, com toda a edição fac-similar, que serão lançados este ano numa parceria da Editora Fiocruz com a Biblioteca Nacional. O Patriota foi o primeiro periódico a conter textos de difusão científica publicado no Rio. Seu editor era o baiano Manoel Ferreira de Araújo Guimarães, também responsável pela Gazeta do Rio de Janeiro.

Conforme afirma Nelson Werneck Sodré em sua consagrada obra História da imprensa no Brasil (editora Martins Fontes), a Gazeta foi o primeiro jornal brasileiro, embora outros pesquisadores considerem o Correio Braziliense como o pioneiro. Criado em setembro de 1808, sob os auspícios da Corte já instalada no Rio, a Gazeta tinha quatro páginas e era semanal no início e trissemanal depois. As únicas preocupações presentes no periódico eram noticiar o que se passava na Europa e agradar a família real – nada havia, portanto, sobre ciência.

O Correio foi fundado poucos meses antes, em junho de 1808, em Londres, por Hipólito da Costa. “Mas é discutível a sua inserção na imprensa brasileira, menos pelo fato de ser feito no exterior, o que aconteceu muitas vezes, do que pelo fato de não ter surgido e se mantido por força de condições internas, mas de condições externas”, argumenta em seu livro Sodré. O Correio era mensal e tinha uma seção chamada Literatura e Ciências, dedicada em boa parte das vezes às discussões sobre a universidade francesa. Já os textos de O Patriota, alguns deles ilustrados, tinham a preocupação de trazer o que era chamado de “conhecimento útil” para os leitores nos moldes do enciclopedismo europeu.

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