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Educação

Professores muito sossegados

Projeto da USP usa escargôs em escola para ensinar disciplinas

EDUARDO CESARAluno e mestre em plena aula: animal funciona como mediador entre criança e suas angústiasEDUARDO CESAR

À primeira vista, já parece difícil imaginá-los como uma guloseima sofisticada. O que se dizer então de escargôs como bichos de estimação de crianças ou, ainda mais inusitado, como um notável co-educador. O projeto Utilização de Pequenas Criações (escargôs) na Terapia e no Processo Educacional, criado em 2000 pela professora Maria de Fátima Martins Pacheco dos Santos Lima, veterinária do Departamento de Nutrição e Produção Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), foi inspirado em experiências depet terapia (terapia com animais) realizadas com cães, cavalos, pássaros e até golfinhos.

“Mas não há registros, em nenhum lugar do mundo, de trabalhos com escargôs. Somos pioneiros”, diz Maria de Fátima. O fundamento do projeto “dr. Escargô”, como é conhecido, está nos benefícios do vínculo homem-animal. No ambiente escolar, esse ganho se soma à possibilidade de usar o animal para inovar as técnicas de ensino.

Cerca de 360 alunos da pré-escola à 4ª série do ensino fundamental de Pirassununga (SP) participam do projeto. A equipe da USP leva à escola 500 escargôs destinados ao contato com as crianças, criados em condições especiais de higiene e alimentação, para não oferecer riscos à saúde. Na “aula” do “dr. Escargô”, a rotina é descontraída: sentados em círculos, no centro dos quais os monitores colocam pequenos grupos de escargôs, alunos aguardam os visitantes saírem de suas conchas.

Enquanto observam e fazem contato com os escargôs, os alunos respondem a um questionário enviado à escola com antecedência. Perguntas sobre a origem do Achatina (seu nome científico), hábitat, forma física e comportamento ajudam nos estudos de geografia, ciências e matemática, entre outras disciplinas. “As professoras estendem a abordagem para as suas disciplinas”, conta Adriane Mara Del Ciello, diretora da EMEIF Catharina Sinotti.

Amigos
Mas a atividade de observação do escargô não se limita ao currículo escolar. Também estimula reflexões sobre saúde, sexualidade,cidadania. Instigadas a mostrar o que aprenderam com o escargô, as crianças respondem, de estalo: “ser amigos”, “trabalhar em grupo”, “não ter preconceito”. “O animal funciona como um mediador para a criança expressar suas angústias”, avalia Josiane Perussi, bolsista do projeto na área de psicologia. Ela conta que, em uma das escolas onde o “dr. Escargô” é aplicado, o projeto ajudou a identificar uma criança com graves problemas no núcleo familiar. Ao avaliar a relação do escargô com sua concha, considerada sua “casa”, um aluno pôde dizer que não gostava de sua própria casa porque lá sofria maus-tratos. Em outra ocasião, meninas da 4ª série levantaram um longo questionamento a respeito da “menstruação” dos escargôs fêmeas com o evidente propósito de tirar as próprias dúvidas a respeito do assunto. “Sobre a própria menstruação, elas não teriamcoragem de perguntar”, conclui Josiane.

A equipe do “dr. Escargô” também considerou animadores os efeitos da interação de crianças especiais com os escargôs. Nas escolas do projeto que realizam a inclusão, crianças com quadros de autismo e síndrome de Down manifestaram satisfação no contato com os animais. “Ainda não estamos preparados para atuar terapeuticamente com esses casos. Mas não abandonamos essa perspectiva, que consideramos possível quando houver maior amadurecimento da metodologia e maior multidisciplinaridade da equipe”, diz Maria de Fátima, que tenta agregar ao grupo um bolsista da área de pedagogia.

A professora Marilei Barbelli Metzner acredita que houve uma grande melhora na sociabilização das crianças. “Elas ficaram mais dóceis, passaram a compreender mais o próximo, as diferenças”, diz Marilei, acrescentando que as mães também relataram que os filhos passaram a comer verduras e tomar chá de poejo depois de saber que são alimentos do escargô.

Não existem, no entanto, instrumentos sistemáticos de avaliação do impacto do projeto no desempenho escolar. Segundo Maria de Fátima, é feita uma avaliação qualitativa, com base na análise direta da interação do escargô com a criança. “Pelos desenhos, pelas descrições e pela participação de cada aluno, verificamos as idéias e os conceitos presentes entre os alunos, buscando uma correlação com o ensino por meio do animal”, conclui Maria de Fátima.

Cafezinho
Uma das principais dificuldades da aplicação do projeto, reconhecido pela Fundação Getúlio Vargas como inédito na área de educação, é a sensibilização dos professores das escolas participantes. “No início, quando a equipe chegava à escola, as professoras aproveitavam para tomar um cafezinho durante a atividade com o escargô”, conta Maria de Fátima. Hoje, segundo a coordenadora, já há maior interação, o escargô é mais explorado em sala de aula. Mesmo assim, Maria de Fátima reconhece que os professores não estão mais motivados a desenvolver atividades complementares – principalmente na rede pública – porque não são remunerados para isso.

Maria de Fátima, que pretende ampliar a aplicação do “dr. Escargô” para outras escolas, assim que puder aumentar sua equipe, já planeja uma etapa posterior de trabalho: “Quero levar outros animais para as escolas. Acredito que essa experiência também é valiosa no sentido de despertar logo cedo, na criança, o espírito da pesquisa científica”.

O projeto
Utilização de Pequenas Criações (escargôs) na Terapia e no Processo Educacional (nº 00/02626-4); Modalidade Auxilio à pesquisa; Coordenadora Maria de Fátima Martins – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP; Investimento R$ 27.656,00

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