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Biota-FAPESP

Programa vai mapear a biodiversidade paulista

Foi dada a partida ao mais ambicioso programa sobre biodiversidade já desenvolvido no Brasil. Trata-se do Biota-FAPESP, o Instituto Virtual da Biodiversidade, programa multidisciplinar que vai mapear e analisar os inúmeros aspectos da biodiversidade do Estado de São Paulo, formando um amplo banco de dados que será disponibilizado na rede Internet. O Biota-FAPESP – biota compreende toda a flora e fauna de uma região – ainda tem como meta sistematizar informações que permitam a criação de políticas públicas de conservação e uso sustentável da biodiversidade de São Paulo. O programa foi aprovado pela FAPESP no começo de fevereiro. O seu lançamento oficial será no próximo dia 25 de março, às 10h, no auditório da Fundação, em São Paulo.

“Essa é uma iniciativa única. Sua abrangência não tem igual na América Latina ou mesmo no mundo”, afirma o biólogo Carlos Alfredo Joly, coordenador do Biota-Fapesp. O programa abrange todo o território do estado de São Paulo, quase 250 mil km² (sendo 622 km de costa), ou seja, uma área pouco maior do que a Grã-Bretanha. O universo de pesquisa do Biota-FAPESP é vasto. Ele envolve desde os microorganismos até os seres mais evoluídos, compreendendo tanto o ambiente terrestre quanto o aquático. “São Paulo apresenta uma enorme diversidade de ecossistemas, pois estamos numa zona de transição entre a região tropical e a subtropical”, diz Joly.

A biodiversidade designa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens e os complexos ecológicos dos quais fazem parte. Ela compreende a diversidade de genes dentro de uma espécie, a diversidade de espécies e a diversidade de ecossistemas. O seu estudo é considerado estratégico, procurando conciliar a preservação do meio ambiente com a exploração equilibrada dos recursos naturais e o desenvolvimento econômico.

Compromissos
O lançamento do Biota-FAPESP vem ao encontro de uma série de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil após a realização da ECO 92 (em especial a Convenção sobre a Diversidade Biológica e a Agenda 21), que preconizam o uso sustentável dos recursos naturais e um novo modelo de desenvolvimento. Uma tarefa nada modesta. “O Brasil é, reconhecidamente, o país com a maior diversidade biológica, abrigando entre 15% e 20% do número total de espécies do planeta”, diz Carlos Alfredo Joly. Os desafios da empreitada, no entanto, são maiores. “Faltam informações sobre as questões mais básicas”, afirma o biólogo Naércio Menezes, membro da coordenação do Biota-Fapesp.

Especialista no estudo de peixes, Menezes dá um exemplo taxativo: “Não temos dados que indiquem quantas espécies de peixes de água doce existem em São Paulo”. A crescente destruição de ecossistemas no Brasil, por outro lado, torna o Biota-FAPESP ainda mais urgente. “Existem organismos destruídos antes mesmo de serem conhecidos”, aponta Menezes. Entre os pontos críticos que serão investigados pelo programa estão a Mata Atlântica e o Alto Rio Paraná. “Pretendemos levantar dados que sensibilizem as autoridades para a instalação de políticas públicas visando o desenvolvimento sustentável”, diz Menezes.

Dessa maneira, o Biota-FAPESP vai atacar em duas frentes simultâneas. Ao mesmo tempo em que pesquisadores estarão investigando aspectos desconhecidos da biodiversidade paulista, também será levantada e organizada toda a informação disponível sobre o assunto. “Existe um grande volume de conhecimento que está disperso pelas instituições e pelos museus de São Paulo”, afirma Joly. A base para esse trabalho já está pronta. Trata-se da coleção de sete livros intitulada Biodiversidade do Estado de São Paulo: Síntese do Conhecimento ao Final do Século XX, cuja edição conta com o apoio da FAPESP. Dois volumes da coleção serão lançados no dia do lançamento oficial do Programa.

Instituto virtual
O conceito que está por traz do Biota-FAPESP é a criação de um instituto virtual da biodiversidade. “O programa não tem uma sede fixa, mas dispõe de toda a infra-estrutura física e humana das instituições de pesquisa e das universidades de São Paulo”, assinala José Fernando Perez, diretor científico da FAPESP. “Nesse sentido, ele reproduz a arquitetura do Projeto Genoma, que reúne mais de 30 laboratórios por meio da Rede Onsa”, acrescenta Perez.

Ele prevê que os dois programas – o Genoma e o Biota – vão se articular e dialogar no futuro próximo, pois a biodiversidade cada vez mais será analisada do ponto de vista genético. Outra iniciativa anterior da FAPESP que colaborou para o desenho final do Biota foi o Projeto Temático Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo, que teve a coordenação do professor Hermógenes de Freitas Leitão Filho. Desenvolvido com o objetivo de levantar toda a flora com flores do estado de São Paulo, ele já se encontra na fase de sistematização dos dados.

“O Biota nasceu de uma demanda espontânea da comunidade científica, que consultou a FAPESP sobre a possibilidade de elaborar um programa que cobrisse toda a biodiversidade de São Paulo”, conta Perez. A idéia inicial foi plantada em meados de 1996. No ano seguinte, o programa ganhou os seus contornos básicos, durante um seminário realizado em Serra Negra, no interior paulista, com a presença de dezenas de especialistas. “Nessa reunião, constatamos que seria impossível elaborar um único grande projeto sobre um tema tão abrangente”, diz Carlos Alfredo Joly. A solução encontrada foi o desenvolvimento de uma série de projetos temáticos, todos articulados entre si.

Na metade de 1998, a FAPESP recebeu o primeiro conjunto de pré-projetos temáticos, que foi enviado para a análise de uma assessoria internacional. Dezoito propostas, avaliadas tanto no seu mérito individual quanto na sua articulação com o programa, receberam um parecer favorável, além de críticas e sugestões. Nos meses seguintes, mais seis pré-projetos foram incorporados ao Biota-FAPESP, totalizando, assim, 24 propostas de projetos temáticos. Até o momento, cinco projetos já estão formalmente aprovados (leia a relação na matéria abaixo) e outros 13 projetos estão em fase final de julgamento. Mais de 200 cientistas e pesquisadores estão envolvidos com o Programa. Eles são ligados a todas as universidades públicas paulistas, institutos de pesquisa do estado e organizações não governamentais, sem falar nos técnicos das Secretarias do Meio Ambiente e da Agricultura.

O orçamento inicial previsto para o programa é de R$ 10 milhões e o prazo inicial para a conclusão dos projetos é de quatro anos. Dadas as suas dimensões, é possível que o programa seja ampliado com a inclusão de novos projetos, além do desdobramento daqueles que já estão em curso. Os pesquisadores de São Paulo ainda apostam na possibilidade de o Biota se tornar um modelo para novas iniciativas na área. “A semente está lançada”, diz Naércio Menezes. “Esperamos que o pioneirismo dessa proposta seja seguido por outros estados, pois essa é uma iniciativa fundamental para todo o País”, afirma o biólogo.

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