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Carta do editor | 30

Projetos induzidos ganham espaço

Dizer que o investimento em pesquisa é altamente rentável e que ele deve estar voltado para o interesse social já se tornou quase um lugar comum. Nós mesmos, nesta página, temos insistido nessa tecla e, na página ao lado, figuras públicas, muitas vezes de fora do Sistema de Ciência e Tecnologia, não têm feito diferente. Parece-nos, contudo, que o mais importante na reiteração da frase é a gama de perguntas inquietantes que ela de imediato suscita. Por exemplo: se reconhecemos a rentabilidade potencial e, simultaneamente, o objetivo social que deve nortear sa pesquisa, então que perfil devem Ter os homens responsáveis por essa atividade, no mundo contemporâneo? Mais: que modelo de desenvolvimento social, pesquisadores, resguardadas as suas opções políticas e diferenças ideológicas, podem se empenhar em buscar, lado a lado com os outros grupos sociais? Ou ainda: como se dá uma conexão efetiva entre pesquisa e desenvolvimento social?

Sabemos que não são perguntas com respostas fáceis mas, de nossa parte, acreditamos que estamos num bom caminho para respondê-las, se antes tivermos como consenso que há, no mundo moderno, uma imperiosa necessidade de se estimular a idéia de inovação. Isso nos parece verdade para cada país e, principalmente, para aqueles que permanecem à distância dos padrões atuais de desenvolvimento verdadeiro. Porque é a inovação que está na base da competitividade, é ela o grande instrumento para se enfrentar a competição econômica internacional e, por isso, é o instrumento capaz de garantir ou suportar nossas necessidades de desenvolvimento social.

A consciência sobre a necessidade da inovação vem se estabelecendo. Melhor diríamos, um certo espírito de inovação tecnológica vem se disseminando entre nós. E um bom exemplo disso é a alta qualidade dos projetos apresentados à FAPESP no âmbito do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas , quase todos revelando nossa capacidade de competição em setores avançados da agropecuária, saúde e informática, entre outros. E esse espírito inovador se mostra junto com uma criatividade especial, que já tão longamente parece caracterizar o povo brasileiro.

Sem dúvida, há que se estimular esse espírito, mas concentrando esforços, e não pulverizando-os, dada a nossa baixa capacidade de investimentos, comparativamente à de outros países. Isso significa que projetos induzidos devem ganhar espaço, como de fato vêm ganhando, sobre os chamados projetos de balcão, ou demanda espontânea. A definição clara de objetivos, com a reunião de pesquisadores em torno deles, parece-nos a maneira mais conseqüente e econômica de canalizar o esforço de tantos cérebros, em nosso Estado, para os interesses da sociedade.

É nesse sentido que vem caminhando a atuação da FAPESP. Começamos a andar nessa direção com os projetos temáticos, pioneiros da interdisciplinariedade e do trabalho entre equipes. A experiência acumulada nos levou a vôos mais ousados e chegamos ao Genoma-FAPESP, que tem o objetivo de seqüenciar o genoma da Xylella fastidiosa , responsável pela praga do “amarelinho”, que vem atacando nossos laranjais. Pela importância econômica da citricultura (renda gerada de US$ 1,5 bilhão por ano, 400 mil empregos), tudo que para esse setor se fizer será da maior relevância.

Mas, além da citricultra, é para todo o nosso Sistema de Ciência e Tecnologia que estão reservados os maiores impactos do projeto. São eles: 1. a criação de laboratórios de genética e a geração de capacitação humana num setor em que éramos praticamente jejumos; 2. o aprendizado do trabalho conjunto: cada equipe tem a tarefa de uma parte do todo e, se ela falhar, prejudica todo o programa e, por conseguinte, as outras equipes. Surge, assim, uma interdependência que é bastante estimulante, no sentido do aprendizado de trabalhar em grandes projetos e que, no caso, se encontram difusos por todo o Estado. Essa capacitação e difusão permitirão, no futuro, o arranque para outras pesquisas.

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