guia do novo coronavirus
Imprimir Republicar

Pesquisa na quarentena

“Quando a Covid-19 chegou, logo pensei no potencial da epidemia para dizimar populações indígenas”

A geneticista Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências da USP, fala de projeto para estudar a vulnerabilidade genética dos povos Tupi-guarani do Espírito Santo ao vírus Sars-CoV-2

Tábita Hünemeier em trabalho de campo em Oaxaca, México, em 2016

Arquivo pessoal

Coordeno um grupo de pesquisa que trabalha com o estudo da variabilidade genética das populações nativas da América. Desde a chegada dos colonizadores europeus, essa variabilidade diminuiu entre 50% e 90%. As viroses que vieram da Europa e com o tráfico negreiro produziram epidemias que dizimaram vários grupos indígenas. Todas as populações humanas coevoluíram com patógenos e criaram resistência contra eles. Mas, enquanto os povos da Europa, da Ásia e da África tiveram contato uns com os outros, as populações nativas da América estavam completamente isoladas e só conheciam os patógenos deste lado do oceano. A vulnerabilidade não é coisa apenas da época do primeiro contato com europeus. Nas décadas de 1960 e 1970, essas populações foram bastante afetadas, por exemplo, por epidemias de sarampo. A principal causa de morte dos indígenas ainda hoje são problemas respiratórios, como tuberculose e pneumonia.

Quando a Covid-19 se instalou no Brasil, imaginei como seria enorme o potencial de dizimar essas populações, tanto os grupos isolados que estão especialmente suscetíveis a um vírus novo quanto os que vivem próximos das cidades em situação de pobreza e vulnerabilidade. Pensei que seria possível investigar como o perfil genético desses indivíduos influenciaria suas respostas imunológicas à infecção pelo Sars-CoV-2. Isso nunca foi estudado antes no curso de uma epidemia, e pode ajudar a prever estratégias para futuros eventos desse tipo.

Trabalhar com populações isoladas da Amazônia, porém, estava fora de cogitação, já que o contato com grupos externos poderia levar a doença até elas. Resolvi apresentar um projeto à FAPESP, vinculado a um auxílio na modalidade Jovem Pesquisador por meio do qual investigo a diversidade genômica dos nativos americanos, para estudar a vulnerabilidade genética de duas populações nativas do Espírito Santo, das etnias Tupiniquim e Guarani-mbyá, que acompanhamos periodicamente há vários anos. O projeto foi aprovado em abril.

Tínhamos uma coleta de amostras nessas populações programada para abril para avaliar parâmetros clínicos como pressão arterial e glicemia. Decidimos adiar a coleta para julho e avaliar o estado de saúde de 600 indivíduos das duas etnias, que têm diferentes índices de exposição. Os Guarani são menos expostos, enquanto os Tupiniquim têm mais acesso às cidades. A ideia é incluir na avaliação dois exames de Covid-19 para saber quem teve infecção recente e desenvolveu anticorpos. Também vamos avaliar qual é a incidência de tuberculose no grupo. Além dos exames, eles responderão a um questionário para informar se exibiram sintomas da Covid-19 ou estiveram internados e se alguém da família pegou a doença ou faleceu. Depois, vamos usar as amostras dos indivíduos que testarem positivo para a Covid-19 e fazer análises genéticas. A meta é mapear o genoma completo dessas pessoas e procurar genes específicos, comparando com os perfis de outras populações. Por meio dessa comparação, queremos entender se a ancestralidade indígena está tendo impacto em relação à suscetibilidade para a doença.

Trabalho bastante com análise de dados, com pouca atividade em laboratório, então não fui muito prejudicada pelo isolamento social. Minha equipe tem sete pesquisadores, entre alunos de mestrado e doutorado e estagiários de pós-doc. Não tenho filhos, mas tenho um aluno de doutorado e uma pós-doc com crianças em casa e a rotina deles é mais complicada. Em março, quando a quarentena começou, dois de meus alunos estavam no exterior, um na Alemanha e outro na Espanha. O da Espanha eu pedi para voltar e ele deixou o estágio pela metade. A pós-doc que trabalhava no laboratório teve de parar de ir. Outro aluno ia para a Inglaterra em julho e não vai mais. Continuamos trabalhando e fazemos reuniões semanais, em grupo e individuais. É bem diferente de estar na sala ao lado e poder conversar a qualquer hora.

Eu seria palestrante em três congressos neste ano, dois deles internacionais, que não acontecerão mais na forma presencial. É um prejuízo, pois a ciência depende muito do networking que fazemos nesses congressos. Leciono uma disciplina de genética na graduação para duas turmas de calouros da área da saúde. É inviável dar aulas de três horas por videoconferência. Tenho optado por aulas de uma hora e preparado outras atividades complementares, como leituras e avaliações críticas de textos. Esses alunos têm muitos cacoetes do ensino médio e sinto que o papel dessas disciplinas é estimular a formação de senso crítico. Tento mostrar a importância da genética na vida pessoal e profissional e os incentivo a aprender a interpretar dados científicos, evitando, por exemplo, cair em fake news. Em sala de aula, essa tarefa é muito mais fácil. Até perguntas estapafúrdias são oportunidades de direcionar o debate e estimular o senso crítico. A gente consegue resolver a discussão sobre racismo mostrando como as diferenças genéticas entre as populações humanas são mínimas. Já nas aulas on-line isso fica prejudicado.

Como sou asmática e já tive duas pneumonias, impus uma rotina de isolamento restrita. Gosto de trabalhar até tarde e durmo pouco. De manhã, costumo preparar e dar as aulas e responder a e-mails. À tarde, marco compromissos e reuniões de trabalho por Skype ou Meet. Dispensamos a moça que ajudava nos serviços domésticos, mas tenho conseguido organizar bem a rotina. O que mais me incomoda é o barulho. Moro em um apartamento que tem prédios em construção ao redor. Em uma casa vizinha, estão fazendo uma reforma na piscina. Espero que a situação da pandemia melhore, pois pretendo acompanhar a coleta de dados no Espírito Santo em julho.

Republicar