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ARTES PLÁSTICAS

Que história é essa?

Pesquisa pretende elaborar uma história crítica da arte brasileira

A tese de doutorado da crítica de arte Sonia Salzstein Goldberg, A Questão Moderna: Impasses e Perspectivas da Arte Brasileira, 1910/ 1950, procura constituir uma perspectiva teórica com o objetivo de elaborar uma história crítica da arte brasileira. Orientanda da filósofa Marilena Chauí, Sonia iniciou o trabalho em 1994 (recebeu bolsa da FAPESP durante 36 meses), terminou em maio e deve apresentá-lo em novembro ao Departamento de Filosofia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Desde que se formou em Artes Plásticas pela Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), em 1977, as inquietações de Sonia, que também estudou Filosofia na mesma universidade, recaem na problemática da arte contemporânea, tanto pelo aspecto histórico, quanto no da sua divulgação e organização. Em Arte, Instituição e Modernização Cultural no Brasil/ Uma Experiência Institucional, dissertação de mestrado também orientada por Marilena Chauí (e que ela apresentou no Departamento de Filosofia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em 1994), Sonia discutiu a possibilidade de a arte brasileira irradiar-se por um espaço público com uma presença mais incisiva na vida cultural brasileira.

Além disso, a pesquisadora partiu para a prática, organizando um bem-sucedido espaço de arte contemporânea no Centro Cultural São Paulo (CCSP), no qual incentivou a mostra de obras dos chamados artistas emergentes. Foi a partir dessa experiência – e de curadorias de exposições e na Bienal Internacional de Arte de São Paulo em 1987 – que a pesquisadora pôde constatar uma carência de material crítico e teórico para a compreensão da arte brasileira.

“Nós ainda não temos uma história da arte moderna brasileira, apesar de sua internacionalização nas últimas três décadas”, afirma Sonia. Segundo ela, foi apenas a partir do início dos anos 70 que começaram a surgir com mais regularidade trabalhos sobre o modernismo brasileiro. E cita como exemplos obras como Artes Plásticas na Semana de 22, de Aracy Amaral (Perspectiva, 1972), e De Anita ao Museu, de Paulo Mendes de Almeida (Perspectiva, 1976), entre outras. “Do ponto de vista do enraizamento da arte na vida social, no entanto, o material existente ainda é escasso e o lugar que as artes plásticas passaram a ocupar não redundou no reforço das instituições”, avalia Sonia. As iniciativas nesse sentido, de acordo com ela, são pontuais e não revertem em ações sistemáticas a longo prazo, capazes de fazer deslanchar a história da arte brasileira.

Contradições
O problema gerado por essa carência funciona como fio condutor de A Questão Moderna: Impasses e Perspectivas da Arte Brasileira, 1910/1950. A tese procura, assim, contribuir para o preenchimento dessa lacuna e para “despertar a discussão em torno das contradições na produção artística contemporânea no país”, como explica a pesquisadora.

Em um primeiro momento, Sonia pensou em orientar sua tese ligando a produção artística da primeira metade do século 21 ao barroco mineiro, do século 18, e mais precisamente à obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. “Isso me interessava muito, porque assinalaria geneticamente a possibilidade de pensar em uma história da arte brasileira”, diz. Em sua opinião, a obra de Aleijadinho é um caso exemplar de realização poética e formal da autonomia colonial. Filho de mãe negra, pai português e de classe não abastada, o artista mulato, para Sonia, é a representação da visualidade autóctone. “Isso me permitiria partir do objeto, o Aleijadinho, para o moderno”, conta ela. “Por fim, isso me pareceu uma idéia pretensiosa que redundaria em uma espécie de mosaico superficial da história da arte brasileira.”

Sonia optou, então, por se debruçar exclusivamente sobre o período entre 1910 e 1950. Para ela, esse foi o momento que assinalou um profundo processo de renovação formal. “Mais genericamente, da renovação dos temas e motivações do debate cultural no país”, observa. “Afinal, foi nessas quatro décadas que a produção artística brasileira começou a ganhar autonomia frente às matrizes culturais que se fixaram como paradigmas importantes no curso de toda a sua formação.”

Sonia explica que, mais do que discutir as realizações das gerações inaugurais de nossa arte moderna, o trabalho trata das soluções formais híbridas e contraditórias que uma aspiração ao moderno emancipado produziu nas obras dessas gerações, conferindo-lhes, em suas palavras, “uma pátina inescapavelmente ideológica.” Para ela, tal aspiração foi a tônica da produção artística em toda esta primeira metade do nosso século. Nesse contexto, Sonia procurou analisar as contradições que isso suscitou no ambiente cultural brasileiro, durante aquele período, e as formações ideológicas que se detectam na análise do interior das obras produzidas por artistas como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari, Guignard e, mais tarde, Mira Schendel.

“Ao ligar-se ao processo de busca da emancipação cultural, a idéia do moderno na arte brasileira marcou, naquele período, a pulsação dessa busca”, ressalta. “Isso se manifesta por lados luminosos e renovadores, mas também com momentos regressivos”, observa Sonia. Ela ainda constatou que a irregularidade nas obras de arte produzidas no país ocorreu, sobretudo, entre a década de 10 e o fim dos anos 40. “As obras conciliam facetas transformadoras com algum retorno a cânones acadêmicos”, explica. A sua crítica aponta, assim, a vinculação orgânica dessas contradições e formações ideológicas a um ambiente cultural formado numa dinâmica de dependência e submetido a embates com ondas cíclicas da modernização.

A ideologia na obra
Esse processo de modernização cultural, segundo Sonia, não se desassocia do processo de modernização do país. Ela assegura, porém, que, apesar da perspectiva histórica, toda a sua análise centrou-se na busca dessas nuances nas obras, estritamente do ponto de vista formal. Por tudo isso, nas cerca de 200 páginas da tese – divididas em 12 capítulos e extensa bibliografia -, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti ganharam, cada um, capítulos à parte. Assim como a tríade Tarsila/Di/Portinari ganhou texto em que Sonia analisa e critica a imagem consagratória e celebratória que se formou em torno desses artistas. Ela ressalta que o primeiro estudo crítico dessa ideologia da arte moderna brasileira foi feito por Carlos Zílio em A Querela do Brasil, A Questão da Identidade da Arte Brasileira – a Obra de Tarsila, Di Cavalcanti e Portinari/1922-1945 (Funarte, 1982, 1ª edição).

“A tese busca revisitar a idéia do moderno e olhar o que há de construção ideológica dentro da própria obra, porque essa ideologia, de certa forma, colocou uma camisa-de-força na produção artística”, conta a autora. Seu trabalho revela, ainda, que se em um primeiro momento o processo de modernização aparecia de forma incipiente nas obras de Tarsila do Amaral ou de Guignard, próximo à década de 50 ele desabrochou na produção desses artistas. Finalmente, a tese desemboca na contribuição que esse amadurecimento da idéia moderna original deu à produção neoconcreta do final da década de 50 e em obras como as da artista Mira Schendel.

Nesse sentido, a crítica de arte observa que a produção artística dos anos 50 percorre uma trajetória solitária, por um lado – pelas mãos de artistas como Volpi ou Mira e, mais tarde, Sérgio Camargo -, e em grupos como os cariocas do neoconcretismo. “A década de 50 presenciou a plenitude da experiência moderna e ao mesmo tempo seu estilhaçamento ou desfibramento”, conta Sonia. Assim, para ela, a produção artística naquele período abriu o horizonte dos problemas artísticos contemporâneos.

Nos últimos capítulos de seu trabalho, Sonia trata do ambiente artístico brasileiro contemporâneo. “A tese mostra que, graças a tal experiência heterodoxa da forma, a arte brasileira pôde, em geral, demonstrar consistência e originalidade em face do fenômeno recente da globalização”, explica. “O fenômeno que marca a integração da arte brasileira ao meio artístico internacional é analisado como espécie de culminação e esgotamento da potência renovadora que o movimento modernista teve desde os anos 20, e fulcro dos novos desafios que se apresentam à produção e reflexão de arte no país”, conclui.

PERFIL:
Sonia Salzstein Goldberg é crítica de arte formada na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, com mestrado em Filosofia na USP, onde faz o doutorado. Iniciou sua vida profissional em 1976, no Idart – Informação e Documentação Artística, da Secretaria Municipal da Cultura. Foi diretora da divisão científica do Museu de Arte Contemporânea (MAC) de São Paulo. Organizou o espaço de arte contemporânea no Centro Cultural São Paulo, da Secretaria Municipal da Cultura.

Projeto : A Questão Moderna: Impasses e Perspectivas da Arte Brasileira, 1910/1950

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