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Ficção

Queimando homens que queimam livros e mulheres

Percorrendo uma livraria, detive-me na estante de literatura infantil para apreciar as capas de livros dedicados aos pequenos leitores. Impressionada pela beleza de certas obras, resolvi percorrer as estantes de adultos, onde se encontram livros mais belos por dentro do que por fora. Familiarizada com esse tipo de ambiente, não me privei de passar os olhos pelas revistas de vanguarda e nem pelos livros de arte. Subitamente, dei-me conta de que era uma mulher privilegiada.

Pais, esposos e governadores tentaram impedir o acesso das filhas e esposas à leitura, à escrita e ao porte do livro. Sem opção, elas nascem, crescem, se casam e se reproduzem sem poder obter qualquer intimidade com o mundo das letras, de onde, segundo eles, saem grandes perigos que podem transformar uma indefesa mocinha num demônio de saias.

Sem pesquisar muito, é fácil lembrar dos romances censurados para mulheres, das leitoras que liam escondido, dos colégios que triavam as obras para moças, dos “clássicos” para meninas e para a boa formação de uma jovem. Além disso, são conhecidas as histórias de loucas transformadas pela leitura, madames Bovarys do cotidiano, e de meninas que iam aos conventos ter a chance de estudar e fugir de casamentos (des)arranjados.

Livros são armas. Livros devem ser incinerados, torrados e moídos. E quanto mais censurados e queimados, mais famosos. E as moças que os liam mereciam castigos e cativeiros. Nada como um bom marido para acalmar os ânimos de uma moça indomável.

Das estantes pululavam à minha frente os romances de cortesãs escritos por José de Alencar. Também nessas obras, ao final, a prostituta bondosa sempre morre tísica, lição inesquecível para moças de bom comportamento.

As mulheres que escreviam, até poucas décadas atrás, deviam assinar pseudônimos masculinos para não correr os riscos de uma perseguição política ou social. E assinar um texto era como expor o colo nas janelas dos sobrados. As marquises adornadas, as pilastras, os pés-direitos altos e as moças de má conduta emprestavam os lábios cor de carmim aos rapazes mais saudáveis da terra. Já as mulheres que liam abraçavam-se aos travesseiros enquanto liam beijos, sonhavam em silêncio com viagens ao redor do mundo e gostariam de completar os parcos estudos antes de se casar. Escondiam os livros de capa dura embaixo do colchão, liam no banheiro e mantinham as portas fechadas enquanto sublinhavam os trechos mais indecentes.

Eu passeava pelas estantes, ia e vinha sem cerimônia, tocava os volumes e os abria em qualquer página, lia linhas, diagonalmente, tocava a tinta seca com a ponta dos dedos e gostaria de chupá-los. Sentia o timbre das letras dum escritor admirável. Um mineiro, um paulista, um curitibano, um mato-grossense, um amazonense e um poeta baiano. Um contista campista e um sertanejo de letras. E dava falta das mulheres que assinam seus nomes. Quantas serão as moças inéditas? Onde elas escondem seus originais? Quando deixarão de assinar os nomes dos maridos para terem nomes artísticos? A incendiária Clarice. A virgem Adília portuguesa. A falecida Raquel. A pornográfica Hilda. Sei de umas tantas mulheres poetas e contistas e romancistas. Fora as que adiaram suas publicações para comprar o enxoval. E eu desejo muito ler seus livros um dia. Sinto-me, então, num cabaré de dançarinas proibidas.

Impressiono-me com o passado que ainda posso sentir, lembro-me das vozes idosas me dizendo, desde criança, “menina, não leia demais, senão você fica louca e perde a capacidade de ter filhos”. E me organizei para não acreditar nessas lendas. E o que dizer dos editores “todos homens?” São as mulheres leitoras/escritoras que lêem com lápis na mão, bisturi entre os dedos e a história social sobre os ombros. Neste caso, sim, o pretérito.

Maridos, pais e amantes podem ler juntos. Passeando pelas estantes da livraria, lembro-me de que li primeiro uns livros que empresto a Jorge, o marido-escritor. Assim como publiquei antes dele. E por isso nos sentimos tão donos do mesmo jardim. E o cultivamos.

Certo historiador da leitura diz que “a leitura solitária de romances era vista como um perigo para as jovens, e mais ainda para as mulheres casadas, embora a estas fosse permitida uma maior flexibilidade”. Também diz ele que a medicina reforçava que as mulheres tinham o cérebro mais leve que o homem, o que as tornava inaptas para tendências intelectuais. Também a ciência alertava: “Altos níveis de estímulo produzido pela leitura de romances seria prejudicial, causando histeria e perda da fertilidade”.

Mulher que lê, mulher infértil. Fraca, esquálida, feia. O retrato das moças que cursavam Letras: caricatura de menina magricela, míope e mal-amada. As belíssimas modelos, donas-de-casa cobertas de ouro, branquelas estudantes de Literatura. Mas não eram assim as belezas de Clarice e de Virginia. Os narizes pontudos diziam setas. As mãos faziam dardos. E as míopes dispõem de lentes de contato, além do olhar de dentro. É a escrita que vê. É a leitura que alimenta e ilumina.

Emma Bovary tinha consciência. As moças casadas que liam Emma Bovary ganhavam consciência. E o livro era, então, um abismo executor de casamentos. E a proibição da obra de Flaubert tornou-se marketing. E as moças cultas continuaram sua história de solidão, assim como as moças casadas que queriam ler continuaram sua história de guardar livros sob o colchão.

E onde Adília, Adélia, Clarice e Raquel aprenderam a ler? Numa aldeia portuguesa, no interior de Minas, na Ucrânia, no sertão nordestino? Onde aprenderam a escrever? Onde a coragem de publicar? Na implicância da alma com o mundo, na resistência belíssima dos textos que produziam. Na próxima inquisição, mandaremos queimar os colchões colocados sobre seus papéis e exporemos todas as leituras e todas as almas das mulheres leitoras que lêem.

Ana Elisa Ribeiro é escritora, autora dos livros de poesia Poesinha e Perversa, e doutoranda pela Faculdade de Letras da UFMG.

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