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Sociedade

Racismo e exclusão no mercado do amor

Pesquisa revela as regras invisíveis do mercado afetivo para mulheres negras em aplicativos de relacionamento

Jae Park / Unsplash

Na literatura e na poesia, são vários os aforismos que descrevem o amor como um sentimento puro e desinteressado. Mas a ideia de que o amor é cego não se sustenta na vida real. Pesquisas da socióloga Maria Chaves Jardim, professora do Departamento de Ciências Sociais da Unesp de Araraquara e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da mesma universidade, mostram que relações afetivas também são atravessadas por desigualdades sociais e que mulheres negras ocupam a posição mais vulnerável no chamado mercado do afeto.

Desde 2017, no Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Sociologia Econômica e das Emoções (Nespom), Jardim investiga como aplicativos de relacionamento reproduzem — em vez de reduzir — desigualdades presentes na sociedade. Em um estudo de etnografia digital, financiado pela FAPESP, a pesquisadora interagiu com mais de uma centena de homens nos aplicativos Tinder e Badoo, realizou 15 entrevistas presenciais e conversou com integrantes de um grupo virtual fechado em que mulheres compartilham experiências relacionadas à vida afetiva e suas estratégias para fazer sucesso nos aplicativos.

Os resultados mostraram que as ferramentas estão longe de democratizar o acesso ao amor e reproduzem constrangimentos sociais presentes fora do ambiente digital, favorecendo determinados perfis e excluindo outros. Padrões estéticos e preconceitos influenciam diretamente quem é visto como desejável e quem permanece invisível.

A interpretação parte da sociologia econômica, que entende o mercado como um espaço moldado por valores e relações sociais, e não como um ambiente neutro. “Não há aqui uma mágica, um cupido. Há elementos sociais e, entre eles, a exclusão de mulheres fora do padrão estético – que estão acima do peso ou têm o tom de pele diferente daquele considerado legítimo, que é o branco”, afirma Jardim.

A popularização dos aplicativos de namoro trouxe a promessa de ampliar as possibilidades de encontro. Com opções para diferentes perfis e interesses – como idosos, veganos e tantos outros –, criou-se a ideia de um mercado afetivo mais acessível. “Esse discurso é uma falácia, especialmente para mulheres pretas, considerando o contexto de vulnerabilidade social, econômica e política no qual grande parte delas se encontra”, afirma Paulo Carvalho Moura, doutorando em Ciências Sociais na Unesp e integrante do Nespom.

Segundo Moura, os aplicativos não eliminam desigualdades, apenas reorganizam e reforçam preconceitos já existentes. “O ambiente digital não é livre de constrangimentos sociais. Trata-se de um mercado com hierarquias e padrões, considerando fatores como raça, gênero, escolaridade ou gosto cultural”, destaca.

Quem fica de fora
Se o primeiro estudo mostrou como os aplicativos reproduzem desigualdades, uma pesquisa posterior, publicada na revista Tomo em parceria com Renata Paoliello, também da Unesp, buscou compreender de que maneira essas dinâmicas afetam especificamente a experiência de mulheres negras.

O grupo analisou dados de 64 mulheres negras com diferentes perfis socioeconômicos para avaliar o impacto da cor da pele nas experiências afetivas. O primeiro grupo reunia 45 mulheres negras, das quais 40 tinham diploma superior. O segundo era formado por 19 mulheres pretas, sem diploma superior, moradoras de um bairro popular de Araraquara. A conclusão foi direta: mulheres negras enfrentam barreiras estruturais também no mercado do afeto. “O amor, como todas as relações sociais, tem relação com poder. Alguns terão mais acesso a ele do que outros, pois o sentimento está sustentado por valores que carregamos no inconsciente, e o racismo é um deles”, explica Jardim.

Entre as mulheres entrevistadas, surgem padrões recorrentes de sofrimento relacionados ao racismo desde a infância e a adolescência, invisibilidade afetiva e relacionamentos abusivos. Embora frustrações amorosas façam parte da experiência de muitas mulheres, Jardim observa que elas costumam ser retratadas de formas distintas. Com frequência, o debate público associa as dificuldades enfrentadas por mulheres brancas ao dilema entre casamento e carreira. Já entre as mulheres pretas ouvidas pela pesquisa, o obstáculo aparece antes mesmo desse ponto: muitas descrevem dificuldades para estabelecer relações afetivas estáveis. “O dilema da mulher branca pressupõe uma possibilidade de escolha. A da mulher preta não contempla isso”, explica a pesquisadora.

Segundo Thaís Caetano Souza, doutoranda em Ciências Sociais pela Unesp e integrante do Nespom, essa diferença ajuda a explicar por que muitas afirmam não conseguir sequer acessar o modelo de relacionamento romântico tradicional. “A desigualdade aparece de forma mais profunda para mulheres pretas. Elas não estão reorganizando a vida afetiva em prol de projetos profissionais; elas simplesmente não possuem uma vida afetiva no modelo romântico de construção de uma família”, afirma.

Quando o amor não se concretiza
O desejo por relações estáveis aparece na fala das entrevistadas, seja na expectativa do casamento, seja em experiências cotidianas simples, como andar de mãos dadas com o parceiro. Jardim coloca seus dados da pesquisa de campo em diálogo com as teorias existentes na sociologia sobre o amor, como o amor romântico, o amor confluente, o poliamor e o chamado “amor líquido”, caracterizado por relações frágeis e instáveis. Entre parte das mulheres pretas ouvidas na pesquisa, porém, esta última acaba sendo percebida como a única possibilidade concreta.

Como consequência, muitas relatam início tardio da vida afetiva e sexual e, em alguns casos, o estabelecimento de relações marcadas pela falta de compromisso ou pela posição de amante, não por escolha, mas pela escassez de alternativas percebidas.

Outro padrão recorrente é o tipo de abordagem recebida nos aplicativos: convites de cunho sexual, que reforçam a objetificação e reduzem as possibilidades de construção de vínculos duradouros. Diante dessas barreiras, algumas mulheres relatam optar pelo celibato definitivo, enquanto outras acabam construindo famílias como mães solo. Esse quadro contrasta com o estereótipo historicamente atribuído às mulheres negras como pessoas naturalmente hipersexualizadas. Entre as mulheres pretas com diploma universitário, a pesquisadora observou que muitas passaram a optar pela solidão afetiva em vez de aceitar relacionamentos “líquidos”.

As experiências narradas pelas participantes da pesquisa não aparecem isoladamente. Indicadores nacionais mostram que as desigualdades observadas nas entrevistas também se refletem na formação de casais e famílias no Brasil. Dados do Censo de 2022 do IBGE revelam maior probabilidade de casamento para mulheres brancas (51%) do que para mulheres pretas (44%). Já entre as mães solo, mulheres negras representam cerca de 90% do total entre 2022 e 2023, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas.

As consequências desse processo, no entanto, não se limitam às trajetórias afetivas. Elas também repercutem na saúde mental das mulheres entrevistadas. Segundo Jardim, os impactos emocionais da exclusão afetiva vão além do sentimento de rejeição e da baixa autoestima. A equipe agora pretende investigar de forma mais aprofundada suas consequências para a saúde mental das mulheres pretas. “Esse quadro pode contribuir para o adoecimento psíquico, incluindo depressão e processos de medicalização, e será objeto da próxima etapa da pesquisa”, afirma.

Para a pesquisadora, um dos principais efeitos do estudo é deslocar a responsabilidade do plano individual para o coletivo. Ao reconhecer que essas experiências refletem desigualdades estruturais, muitas mulheres deixam de atribuir exclusivamente a si mesmas a culpa pelo chamado “fracasso afetivo”.

“Isso não resolve os problemas pessoais, mas produz uma tomada de consciência de que se trata de uma questão social. É uma forma de compreender que o problema não está nelas, mas na maneira como a sociedade organiza seus preconceitos, colocando em uma hierarquia quais são as mulheres dignas de serem amadas e as mulheres que não merecem o amor”, conclui.

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