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Comunicação científica

Rapidez para apresentar resultados

Pesquisas sobre a Covid-19 são divulgadas de forma instantânea e em acesso aberto e testam os limites dos repositórios de preprints

Marci Angeles / Unsplash

O processo de comunicação científica ganhou mais agilidade e transparência para poder disseminar dados sobre a Covid-19. Informações sobre o genoma do vírus Sars-CoV-2 foram compartilhadas quase em tempo real, poucos dias após a coleta de amostras dos primeiros indivíduos infectados, e serviram para mostrar, inclusive no Brasil, as origens do contágio e como ele estava ocorrendo de forma sustentada. Estudos a respeito dos danos causados pelo vírus e sobre mais de uma centena de tratamentos potenciais e vacinas em desenvolvimento estão sendo publicados por revistas científicas em um regime de fast track, já adotado em outras emergências epidemiológicas, abreviando o tempo de avaliação e divulgação. Uma novidade na pandemia do coronavírus é o estímulo para que estudos que já passaram pela avaliação preliminar de um periódico sejam liberados para divulgação em repositórios de preprints, enquanto a revisão por pares segue seu curso. 

Esses repositórios são plataformas de acesso aberto que recebem manuscritos ainda não revisados, às vezes com resultados iniciais, que são submetidos de forma instantânea à crítica da comunidade científica, agilizando a produção do conhecimento. Os dois mais utilizados na pandemia são o bioRxiv, que reúne artigos de ciências biológicas, e o medRxiv, de ciências da vida, criados por pesquisadores do Laboratório Cold Spring Harbor, nos Estados Unidos. No dia 22 de abril, contavam-se mais de 1,5 mil manuscritos sobre a Covid-19 no medRxiv e quase 450 no bioRxiv. “Nossas equipes estão trabalhando longas horas, sete dias por semana, para processar centenas de papers por dia, quase todos sobre a Covid-19”, disse o bioquímico Richard Sever, cofundador dos dois repositórios, em seu perfil no Twitter. A audiência também foi multiplicada. O número de downloads do medRxiv, por exemplo, cresceu 100 vezes desde dezembro, segundo os responsáveis pelo repositório.

A experiência tem, até agora, um balanço positivo e não apenas por sua capacidade de compartilhar dados relevantes. O sistema de comunicação científica atuando em modo acelerado também demonstrou rapidez para corrigir erros. No dia 10 de março, um manuscrito depositado no medRxiv por pesquisadores norte-americanos comparou a estabilidade do Sars-CoV-2 com o Sars-CoV-1, que causou um surto na China entre 2002 e 2003, e levantou dúvidas de outros pesquisadores ao sugerir uma capacidade elevada de o novo coronavírus se manter ativo em superfícies e partículas de aerossóis. Poucos dias mais tarde, os autores publicaram uma segunda versão do manuscrito, com dados mais precisos. O mesmo paper, agora revisado por pares, foi publicado no periódico The New England Journal of Medicine no dia 16 de abril.

Reprodução Repositório de preprints medRxiv: mais de 1,5 mil trabalhos sobre a Covid-19 para análise instantânea de pesquisadoresReprodução

A capacidade de autocorreção já havia sido testada em um episódio ocorrido em fevereiro. Um grupo de pesquisadores da Escola de Ciências Biológicas Kusuma, em Nova Déli, Índia, depositou no dia 31 de janeiro um manuscrito no repositório bioRxiv em que sugeria haver uma “estranha semelhança” entre proteínas do Sars-CoV-2 e do HIV, o causador da Aids. É comum que achados de preprints sejam disseminados em redes sociais sem que se faça o alerta de que os dados são preliminares. No caso do manuscrito indiano, a publicação teve uma intensa repercussão no Twitter, no dia 1º de fevereiro, alimentando teorias conspiratórias segundo as quais o coronavírus seria obra de engenharia genética do governo da China. O estudo foi escrutinado por pesquisadores que prontamente o refutaram – e os autores decidiram retirar o trabalho do repositório no dia 2 de fevereiro.

Para depositar um preprint, os autores precisam garantir que o estudo teve a aprovação de um comitê de ética e, se realizou experimento com humanos, o consentimento dos participantes. Os responsáveis pelos repositórios em geral fazem uma triagem expressa, em que analisam se o manuscrito contém trechos plagiados e se de fato se trata de um trabalho científico, mas não entram no mérito dos achados, embora alguns não aceitem publicar trabalhos com amostras pequenas.

Com o crescimento da procura motivada pela Covid-19, os responsáveis pelos dois principais repositórios de preprints decidiram tornar mais claras as limitações dos trabalhos publicados. O bioRxiv adicionou uma faixa amarela em todos os manuscritos, alertando que os documentos são “relatórios preliminares que não foram revisados por pares. Eles não devem ser considerados como conclusivos nem orientar práticas clínicas e comportamentos relacionados à saúde, tampouco ser reportados na mídia como informação estabelecida”. As equipes do bioRxiv e do medRxiv foram reforçadas com especialistas em epidemias e optou-se por bloquear a publicação de papers que propõem potenciais terapias com base apenas em modelagem computacional. “No passado, estaríamos mais dispostos a aceitar esse tipo de estudo”, disse ao jornal The New York Times o imunologista John Inglis, cofundador dos dois repositórios. “Mas agora as pessoas estão muito desesperadas para encontrar alguma coisa que dê certo e acho melhor elevar o patamar de qualidade para mostrar mais evidências.”

Reprodução Artigos sobre o coronavírus publicados em revistas da editora Elsevier foram disponibilizados em acesso abertoReprodução

No Brasil, a pandemia do novo coronavírus marcou o início das atividades do SciELO Preprints, repositório de preprints da coleção de revistas científicas de acesso aberto SciELO (Scientific Electronic Library Online). Mais de 30 papers e documentos foram depositados desde o início de abril. Há duas formas de utilizar o repositório, explica Abel Packer, coordenador da biblioteca SciELO. “A primeira consiste em apresentar o preprint antes mesmo de submeter o trabalho a uma revista científica. A segunda é submeter o artigo a uma revista científica da biblioteca SciELO, que se compromete a fazer uma revisão rápida – nesse caso, o texto divulgado no repositório já terá passado por uma avaliação prévia de especialistas”, afirma. A avaliação preliminar não impede que o manuscrito continue a ser aperfeiçoado, incorporando críticas e comentários feitos sobre seu conteúdo.

Foi o que aconteceu com um relatório técnico assinado por autoridades e técnicos do Ministério da Saúde, incluindo o então ministro Luiz Henrique Mandetta, que analisava cenários para a propagação do vírus no Brasil e estratégias para contê-la, como medidas de isolamento social. O manuscrito foi submetido para publicação na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, periódico de acesso aberto sobre doenças tropicais, em especial as chamadas doenças negligenciadas, que atingem países pobres e dispõem de pouco financiamento para pesquisa. Em menos de uma semana, o manuscrito foi avaliado pelo corpo editorial e por revisores e divulgado no dia 6 de abril no SciELO Preprints, antes de ser finalizado para a publicação no periódico. “O relatório foi analisado por nossos editores associados e, em seguida, enviado para quatro revisores, que se dispuseram a analisar e a responder em 72 horas. Enviamos as sugestões de mudança para os autores e oferecemos a possibilidade de publicar essa primeira versão no repositório de preprints. Eles prontamente aceitaram”, explica o infectologista Dalmo Correia Filho, editor-chefe da revista e professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba.

O relatório teve repercussão entre especialistas, que sugeriram mudanças e aperfeiçoamentos. A versão definitiva que a revista da SBMT publicou no dia 17 de abril incorporou mudanças resultantes da discussão do preprint. “Desde setembro do 2019, estávamos nos preparando, juntamente com outras revistas da SciELO, para incorporar práticas da chamada ciência aberta em nossos processos, entre os quais trabalhar com esse repositório de preprints”, afirma Correia.

Reprodução Scielo Preprints: repositório brasileiro foi inaugurado com a publicação de trabalhos relacionados à pandemiaReprodução

O epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), defende a publicação de preprints sobre a Covid-19 desde que os manuscritos já tenham passado por algum crivo do corpo técnico de um periódico. “Em um momento de pandemia, a comunicação científica precisa ser bastante ágil e o conhecimento bem fundamentado é essencial para embasar a tomada de decisões de médicos e autoridades”, define Hallal. Ele é o autor principal de um trabalho, avaliado rapidamente pela revista Ciência & Saúde Coletiva e depositado no repositório Scielo Preprints, que apresentou o desenho de um projeto de pesquisa para avaliar a extensão da contaminação da população gaúcha pelo novo coronavírus. “É preciso cuidado porque alguns trabalhos estão sendo publicados em repositórios com pouco embasamento. A meu ver, não se deve utilizar resultados que não foram alvo de ensaios clínicos randomizados para lastrear políticas públicas.” Segundo ele, a avalanche de informação publicada em formato de preprint não causaria nenhum problema se a população estivesse treinada para compreender a limitação dos dados apresentados, mas isso não acontece. “Me preocupa a disseminação de informações preliminares em meio à pandemia, que são entendidas de maneira equivocada. Comunicação científica não é rede social”, afirma.

A popularidade dos repositórios de preprints e o empenho das revistas científicas em acelerar a disseminação de pesquisas em meio à pandemia fortalecem o movimento de acesso aberto a publicações científicas, que há duas décadas defende modelos de publicação nos quais o conteúdo científico fique disponível livremente na web, sem cobrança de taxas ou de assinaturas para os leitores. Grandes editoras de periódicos, como a Elsevier, a Taylor & Francis, a Springer Nature e a Wiley, uniram-se no esforço e disponibilizaram gratuitamente na internet seus artigos relacionados ao coronavírus. “Não se sabe se essa abertura continuará depois da pandemia – provavelmente não. Mas o movimento pode ter influência no surgimento de novas estratégias e ferramentas de editoras para oferecer artigos em acesso aberto”, afirma Abel Packer.

Um levantamento de artigos sobre coronavírus disponibilizados livremente mostrou, no entanto, que os resultados dessa estratégia foram limitados. Em um texto publicado em março em um blog da London School of Economics, os pesquisadores da área de ciência da informação Vincent Larivière, da Universidade de Montreal, no Canadá, Fei Shu, da Academia Chinesa de Ciências, e Cassidy R. Sugimoto, da Universidade de Indiana, em Bloomington, nos Estados Unidos, constataram que ainda permanecia com acesso restrito pouco mais da metade (51,5%) dos 13.818 artigos publicados sobre os vários tipos de coronavírus desde os anos 1960, indexados na base de dados Web of Science (WoS). Segundo o levantamento, esses 13.818 papers citam outros 200 mil artigos sobre temas de virologia, saúde pública e até câncer que podem ser relevantes para a pesquisa da Covid-19 – e boa parte deles não está incluída na estratégia de abertura de dados. “Mesmo que todos os artigos sobre coronavírus fossem disponibilizados, isso ainda seria ineficiente, dada a natureza inerentemente interdisciplinar da pesquisa biomédica”, escreveram os autores. 

No final de março, um decreto do Ministério de Ensino Superior, Pesquisa e Inovação da França determinou que todas as pesquisas e dados relevantes para estudos sobre a Covid-19 fossem disponibilizados publicamente, abrangendo todas as disciplinas que possam contribuir para pesquisas sobre a doença. “Pode-se abrir as publicações que têm a palavra coronavírus no resumo, mas a questão é: a quais outros tópicos você estende essa política?”, disse ao site do Times Higher Education a física francesa Martina Knoop, do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França. Segundo ela, além da virologia e da epidemiologia, várias outras áreas dispõem de conhecimentos relevantes para enfrentar a pandemia, tais como a matemática e a engenharia, que também precisam estar acessíveis.

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