Guia Covid-19
Imprimir Republicar

PESQUISA NA QUARENTENA

“Recém-doutora, sem trabalho, eu estava em um limbo pandêmico”

Durante a pandemia, a bióloga Daniela Boanares teve bolsa do estágio de pós-doutorado cancelada, precisou procurar trabalho fora da biologia e encontrou refúgio na escrita de artigos derivados de sua tese

Sem emprego, a mesa em casa foi o refúgio para dedicar-se à publicação de seu trabalho

Arquivo pessoal

Fui uma das últimas pessoas a defender o doutorado de forma presencial no Programa de Pós-graduação em Biologia Vegetal da UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais], no final de fevereiro de 2020. Até lá, pude fazer as coisas com tranquilidade. Foi muito importante ter pessoas assistindo e prestigiando o momento. Na minha pesquisa, analisei a absorção de água pelas plantas por meio das folhas, observando o papel da neblina nesse ciclo. Mas, quando a pandemia chegou, em março, as coisas começaram a desandar.

Terminei o doutorado com a expectativa de fazer um estágio de pós-doutorado e prestar concurso em universidades. Até passei no PNPD [Programa Nacional de Pós-doutorado] da Ufop [Universidade Federal de Ouro Preto], em abril. Estava empolgada, mas houve cortes governamentais em várias bolsas de pós-doutorado, a minha entre elas.

Minha situação ficou muito complicada. Era recém-doutora, estava sem trabalho e em meio a uma pandemia descontrolada – percebia o negacionismo por parte do governo e via as mortes aumentarem. Procurei vaga para lecionar biologia em escolas públicas e privadas, tentei oferecer aulas particulares, mas não havia demanda naquele momento. Eu estava com a situação profissional e financeira extremamente abalada. Fiz bicos lavando pratos em pizzarias para ajudar a pagar as contas.

Antes, eu tinha grandes planos. Desde o mestrado, observei um ciclo alternativo de água em campos rupestres de Ouro Preto, onde há muita neblina. No doutorado, analisei estruturas das folhas para além da anatomia, como a química da cutícula – que é a primeira barreira que a água enfrenta –, de 10 espécies, entre elas a candeia [Eremanthus erythropappus]. Observei a composição da parede celular e a fisiologia. Na estação seca com neblina, houve um aumento na hidratação das folhas de forma muito parecida ao que ocorre na estação chuvosa. Avaliei também cenários de mudanças climáticas, em que a neblina pode diminuir: quais espécies vão sofrer mais?

Entre 2018 e 2019, estudei um período na Universitat Autònoma de Barcelona, na Espanha. Lá pude avaliar duas espécies, Fagus sylvatica e Quercus ilex, e construí um experimento para avaliar o papel da neblina em ambas. Percebi que, com menos neblina, as folhas podem durar menos, cair mais rápido e alterar o ciclo e a paisagem do Parque Natural de Montseny, que fica 50 quilômetros a norte de Barcelona, onde fiz meu trabalho de campo. Com isso, F. sylvatica pode ser mais afetada e Q. ilex passar a dominar a paisagem, trazendo mudanças no ecossistema.

Mas, em 2020, profissionalmente, tudo deu errado. A pandemia crescia. Havia aquela iminência de morte nos rondando o tempo todo. Me sentia em um limbo pandêmico. A única coisa que consegui fazer, para manter a sanidade mental e sentir que algo caminhava, foi trabalhar em artigos científicos derivados de capítulos da minha tese. Acho que as publicações foram as únicas coisas pouco afetadas nesse período. Eram sete capítulos e, antes de defender, já havia publicado três. Restavam quatro para pensar e trabalhar. Em alguns dias eu era superprodutiva, mas em outros apenas chorava, paralisada, não conseguia me organizar. Era um looping de emoções. Mas consegui publicar três deles.

Arquivo pessoal Experimentos em casa de vegetação fizeram parte do período de pesquisa na EspanhaArquivo pessoal

Também dei palestras on-line para universidades sobre minha pesquisa, a convite de amigos. Escrevi até um capítulo de um livro eletrônico, que pode ser baixado gratuitamente, no qual falei com mais leveza da importância da entrada da água nas folhas, fugindo dos termos técnicos. É importante fazer divulgação científica, senão falamos para poucos.

Em janeiro de 2021, as coisas começaram a mudar. Passei em uma seleção para estágio de pós-doutorado no Instituto Tecnológico Vale [ITV] de Belém. Me mudei de Belo Horizonte no início de fevereiro. Meu marido e eu tivemos que vender tudo, trouxemos apenas uma caixa com coisas que representam nossas memórias. Como foi tudo tão rápido, tivemos que encontrar uma casa de emergência. Depois descobrimos sérios problemas de infiltração e de mofo. Passamos a visitar outras casas e nessa busca, mesmo com todos os cuidados, pegamos Covid-19. A princípio, pensamos que os sintomas fossem de alergia, por conta do mofo. Mas passei a não sentir o cheiro de perfume, depois o gosto das coisas. Fiquei em desespero, porque acompanhava as notícias de que não havia vagas nos hospitais da cidade. Não conhecíamos nada nem ninguém por aqui. Nos trancamos em casa e ficamos bem. Só tive a confirmação em março, quando as atividades voltaram no ITV, fiz o exame sorológico e foi constatado que eu havia tido contato com o vírus. Depois de três meses, conseguimos nos mudar para uma casa melhor.

No pós-doutorado, tenho trabalhado com recuperação de áreas degradadas e com o meu assunto principal, absorção foliar de água. Pretendo levar em consideração essa estratégia como um dos pré-requisitos para os tipos de planta a serem usadas na recuperação das áreas degradadas. A neblina daqui pode ter um papel importante no processo de hidratação da vegetação.

O trabalho presencial nos laboratórios segue em formato de rodízio. Precisamos agendar para controlar o número de pessoas. Também fazemos teste de 10 em 10 dias, usamos sempre um novo jaleco, que não trazemos para casa, e o uso de máscaras é obrigatório. Em agosto consegui passar 15 dias em trabalho de campo. Foi quando conheci parte das cangas [um tipo de campo rupestre] da serra de Carajás, onde fazemos as ações de recuperação e conservação. Até então eu não conhecia a floresta amazônica e pude vê-la em sua magnitude. Eu pensava nela como um grande platô. Mas ela tem morros e esses campos rupestres incríveis. Até me emocionei, é lindo demais.

Em setembro, recebi um e-mail informando que fui a ganhadora do Prêmio Capes de Tese 2021 na área de biodiversidade. Pensei em tudo o que passei no último ano e na minha trajetória durante a pesquisa. Sou uma mulher negra, periférica e estou em um local no qual várias pessoas como eu não têm condição de estar, infelizmente. Fui bolsista do ProUni [programa Universidade para Todos] na graduação. Nós precisamos trabalhar o dobro para sermos ouvidas e legitimadas. Temos que provar nosso valor o tempo todo. Passei por muitas situações de falta de credibilidade. Quando ganhei o prêmio, algumas pessoas deram os parabéns para os meus professores e não para mim. Claro que eles tiveram um papel essencial, mas a pesquisa é minha.

Eu tenho um jeito brincalhão e, às vezes, isso assusta as pessoas na academia. Mas acho que é preciso levar a vida com mais leveza. A pessoa competente não necessariamente tem que ser ranzinza, sisuda, arrogante. Precisei ganhar um prêmio para alguns pares olharem para mim e enxergarem meu trabalho. Como uma das vencedoras, tenho direito a uma bolsa de pós-doutorado de um ano. Ainda estou avaliando o que farei e se usarei parte do valor como subsídio para minha pesquisa.

Aos poucos, a vida está retornando à normalidade possível. Já tomei duas doses da vacina contra a Covid-19. Espero que volte a aumentar o número de concursos, meu sonho é ser pesquisadora e professora em uma universidade. Vou tentar todos que aparecerem!

Republicar