Guia Covid-19
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Pesquisa na quarentena

“Reduzimos nossas expectativas porque os estudantes precisam concluir a pós-graduação e seguir em suas carreiras”

Os biólogos Patricia Pereira Coltri e Paulo Roberto Guimarães Junior, da USP, contam como mudaram a maneira de dar aulas e orientar alunos, em meio à rotina com duas filhas pequenas

Biólogos fazem trilhas em matas de São Paulo e Rio de Janeiro

Arquivo pessoal

Patricia Pereira Coltri – Sempre orientei projetos de dois ou três alunos ao mesmo tempo e, quando a pandemia chegou, eu estava com quatro orientações, incluindo pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado, além das aulas da graduação, com turmas que envolvem cerca de 80 estudantes. Também estava desenvolvendo minha pesquisa no laboratório. Investigo o processamento de RNA nas células e sua relação com a incidência de câncer em determinados tecidos. Em 2020, planejávamos, Paulo e eu, realizar um período sabático no exterior, mas, com a chegada da pandemia, adiamos os planos.

Os alunos que oriento trabalham em projetos que dependem de experimentos de bancada. Com a Covid-19, o laboratório foi fechado. Tivemos de reduzir o ritmo de trabalho e adequar alguns estudos à nova realidade. Orientei os estudantes a investirem em revisões bibliográficas, no período de distanciamento social, que durou todo o primeiro semestre de 2020. Quando fosse possível retornar ao laboratório, o objetivo era replanejar o andamento das pesquisas. Senti que os alunos ficaram desanimados com a impossibilidade de prosseguir com seus experimentos, mas continuamos com os trabalhos por meio de reuniões remotas. No primeiro semestre, dei cursos e participei de defesa de teses e dissertações de forma on-line.

Já no segundo semestre, a Universidade de São Paulo [USP] autorizou nosso retorno ao laboratório, a partir da adoção de protocolos rígidos, que incluíam o revezamento de pessoas atuando presencialmente e regras de distanciamento. Eu não regressei imediatamente porque tinha muitos compromissos on-line já agendados e fui voltando aos poucos. Pudemos seguir frequentando o laboratório até o final de março de 2021, quando a pandemia recrudesceu e ele foi fechado novamente.

Tenho incentivado meus alunos a não desanimar. Digo que eles não podem perder o ritmo dos estudos e precisam compensar o fechamento do laboratório ampliando as leituras teóricas e revisando a parte bibliográfica de suas teses e dissertações. O orientador cria uma relação de tutor com seus estudantes e fico preocupada ao ver que alguns estão frustrados pela impossibilidade de atuar na bancada, fazendo experimentos. Somos responsáveis por ajudar a organizar sua formação inicial.

Não paramos de trabalhar em nenhum momento. Normalmente, tiramos 10 dias de férias no final do ano e aproveitamos para realizar estágios de pesquisa no exterior. Nessas situações, eu costumava passar as tardes no laboratório da universidade que me recebia, enquanto o Paulo aproveitava para levar nossas filhas para conhecer museus, instituições culturais e espaços com natureza. Com toda situação da pandemia, nossa vida ficou comprimida dentro de casa e não conseguimos sair para descansar ou seguir com nossos estudos fora do Brasil.

Temos a preocupação de manter nossas filhas ativas e criamos uma rotina para que elas possam estudar e brincar. A Marina tem 5 anos e a Alice 8. Aos domingos, organizamos como será nossa semana, considerando os compromissos de todos. A partir deles, montamos uma agenda para ser seguida a cada dia. Também nos dividimos para ajudar as crianças na preparação das aulas da semana. Muitas atividades delas demandam material específico, como fotos, tintas e barbante para as aulas de artes, por exemplo. No começo de 2020, com o fechamento das escolas, minha maior preocupação era com a parte emocional, que ficou muito prejudicada para todos nós, mas as atingiu especialmente.

Na USP, ainda não pudemos dar aulas presenciais desde que a pandemia começou. Gostaria de estar na sala de aula e poder interagir melhor. Mas vamos aprendendo com essa relação a distância. No ano passado, em minhas aulas com 80 estudantes, muitos fechavam a câmera e mandavam as perguntas pelo chat. Nesses momentos, é como se estivesse falando sozinha. Por isso, sempre peço para abrirem as câmeras, para que eu possa ver seus rostos, mas nem todos se sentem à vontade.

Com o passar dos meses, aprendemos a utilizar melhor as ferramentas de ensino a distância. Tivemos de mudar as estratégias para assegurar melhor aprendizado. Percebemos que as aulas gravadas precisam ser curtas, de até 20 minutos, para manter a atenção dos estudantes. Eu passei a fazer vídeos com essa duração para ministrar o conteúdo teórico básico, utilizando as aulas síncronas para tirar dúvidas e propor discussões. Nas aulas síncronas, enfrentamos desafios técnicos. Às vezes, a internet cai e sempre tem uma criança rondando o espaço onde trabalho. Agora todos os meus alunos conhecem minhas filhas.

Tenho esperança de que a vacinação ande mais rápido daqui para frente, de forma que seja possível ter uma queda nos números de casos e mortes nos próximos meses. Mas penso que será difícil voltar à normalidade e isso me assusta, tanto em relação aos meus alunos quanto às minhas filhas. É o segundo ano de ensino remoto. Se conseguirmos vacinar em massa boa parte da população e reduzirmos a circulação do vírus, as escolas constituem um dos primeiros lugares que, com protocolos, deveriam reabrir. Pesquisas demonstram que crianças têm chances menores de transmitir o vírus. Já quanto ao retorno de shows e cinemas, não creio que isso possa acontecer, pelo menos no próximo ano.

Como mãe, vejo que o principal ensinamento que podemos passar às crianças é como lidar com a situação de pandemia da melhor forma. Acredito que a geração mais jovem tenderá, no futuro, a enfrentar melhor momentos similares.

Arquivo pessoal Pesquisadores com suas filhas: Paulo em Santa Cruz, nos Estados Unidos, durante período de estágio realizado na Universidade da Califórnia, em 2020. Patricia em regime de trabalho remoto em sua casa, em São PauloArquivo pessoal

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Paulo Roberto Guimarães Junior – Justo antes da pandemia, no início de 2020, eu tinha acabado de me tornar professor titular. Há 15 anos investigo interações ecológicas. Em minhas pesquisas atuais, analiso dados de colaboradores e elaboro modelagens matemáticas de modelos evolutivos para avaliar como interações ecológicas, entre as plantas e polinizadores, se desenvolvem quando há várias espécies se relacionando no mesmo lugar. No começo de 2019, fui convidado a escrever uma revisão bibliográfica de minha área de pesquisa para o periódico Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics. Aproveitei o período inicial da pandemia para finalizar essa revisão, publicada no final do ano passado.

Temos planos de realizar um período sabático na Universidade de Sherbrooke, em Quebec, no Canadá. Estamos esperando o momento adequado para ir.

Tenho um auxílio Jovem Pesquisador fase 2 da FAPESP e sigo com minha linha de trabalho, mas a interação com estudantes e outros pesquisadores mudou. Penso que o principal impacto da pandemia no meu cotidiano envolve justamente as diferenças na forma de intercambiar ideias. Não podemos mais viajar e interagir pessoalmente e as relações se dão apenas por plataformas digitais. Por um lado, isso é bom, na medida em que ficou mais fácil e menos custoso participar e ministrar palestras em diferentes partes do mundo, mas observo que as relações foram prejudicadas. Muitas interações científicas acontecem durante as imersões em eventos, quando passamos o dia todo debatendo pesquisas e ideias e as conversas seguem acontecendo depois em jantares e reuniões informais. Outro impacto da pandemia envolve os estudantes, com quem perdemos a convivência. Temos muitas reuniões virtuais, mas é diferente quando você está trabalhando presencialmente, quando pode olhar para quem está na mesa do lado para tirar alguma dúvida ou fazer um comentário.

Tenho uma meta pessoal de produzir uma nova pesquisa anualmente ou, quando muito, a cada dois anos. Porém no momento atual, dadas as dificuldades impostas pela pandemia, decidi que devo priorizar os estudos dos meus alunos. Também mudei minha forma de orientar. Faço um plano de trabalho detalhado com cada estudante de pós-graduação. O desenvolvimento de um doutorado envolve, geralmente, três capítulos. Antes da pandemia, meus orientandos escreviam a primeira parte a partir de experimentos desenvolvidos no laboratório da USP, com minha supervisão, enquanto o segundo capítulo incluía um estágio, preferencialmente fora do país. No terceiro capítulo, eu costumava pedir para que eles escrevessem algo sozinhos ou com outros cientistas, mas no qual eu não participaria como autor, como forma de incentivar sua autonomia. Agora, planejo com eles as três partes, procurando fazer com que minha experiência garanta um resultado pragmático para a pesquisa do estudante. Não temos mais margem para errar. Muitos projetos dependem do trabalho em laboratório e nem todas as bolsas foram prorrogadas. Reduzimos nossas expectativas porque os estudantes precisam concluir a pós-graduação e seguir para o próximo passo de suas carreiras.

Na vida pessoal, a pandemia trouxe muitos desafios. O primeiro é que não temos familiares próximos, vivendo em São Paulo, de forma que não contamos com ajuda de ninguém para organizar as tarefas da casa e a rotina com nossas filhas. Procuramos dividir o tempo da forma mais igualitária possível, para evitar que Patricia ou eu fiquemos sobrecarregados ou que nossos trabalhos sejam prejudicados.

A Marina, minha filha mais nova, vai fazer 6 anos e está em fase de alfabetização. Ela passou quase um quinto de sua vida sob as condições da pandemia. Se fizermos a equivalência com a nossa idade, seria como se tivéssemos passado quase uma década em isolamento. Nos preocupamos com a aprendizagem e a interação social delas.

De noite, deitamo-nos os quatro em nossas camas. Elas dormem, mas eu me levanto para seguir trabalhando. Tem uma frase famosa do físico norte-americano Richard Feynman [1918-1988] que diz que só é possível fazer ciência quando dispomos de blocos sólidos de tempo. Quando trabalhamos em casa, são inúmeras as interrupções envolvendo questões domésticas. Nesse período da noite, a casa fica silenciosa e é mais fácil conseguir blocos de tempo adequados para elaborar ideias e argumentos. Sabendo disso, a Patricia costuma acordar muito cedo para iniciar seus trabalhos quando a casa ainda está dormindo.

Penso que não vamos voltar ao mundo que existia no curto prazo. A sociedade mudou por causa da pandemia. O trabalho on-line veio para ficar. Somos flexíveis e conseguimos nos adaptar a esse modelo híbrido. Eu prefiro dar aulas presenciais, mas talvez nesse novo formato seja possível usar os encontros presenciais para desenvolver outras atividades e deixar a parte expositiva para o momento virtual.

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