Responsável pelo comissariado de startups, pesquisa e inovação da Comissão Europeia, a búlgara Ekaterina Zaharieva mencionou um dado divulgado em um estudo que foi considerado falho e inválido, ao mencionar os benefícios do uso da inteligência artificial à ciência e o investimento de 100 milhões de euros da União Europeia em projetos da área.
Em um discurso feito em Bruxelas, na Bélgica, no dia 25 de setembro, Zaharieva afirmou que “na ciência dos materiais, a IA poderia aumentar os pedidos de patentes em quase 40%”. Porcentagem bem semelhante constava no estudo “Inteligência artificial, descoberta científica e inovação de produtos”, publicado apenas na forma de preprint, sem revisão por pares, no repositório arXiv em dezembro de 2024 e removido de seus registros em maio. O trabalho foi feito por Aidan Toner-Rodgers, então estudante de doutorado em economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, e teve repercussão em veículos da imprensa como The Wall Street Journal e The Atlantic, ao sustentar que a adoção da inteligência artificial em um laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em ciência de materiais de uma empresa norte-americana levou a um aumento na produtividade da força de trabalho e na velocidade de descobertas científicas, embora tivesse também reduzido a satisfação dos pesquisadores do laboratório com o seu trabalho. O estudo foi retirado do repositório a pedido do MIT, que, após uma investigação interna, considerou não ter confiança “na procedência, confiabilidade ou validade dos dados” nem “na veracidade da pesquisa contida no artigo”. Também a pedido da instituição, a revista The Quarterly Journal of Economics interrompeu o processo de revisão do manuscrito e desistiu de publicá-lo. O MIT informou que, devido à legislação de privacidade estudantil, não pode divulgar os resultados dessa revisão, mas destacou que Aidan Toner-Rodgers não é mais aluno da instituição.
Questionado pelo site Science/Business sobre a fonte de informação do discurso de Zaharieva, um porta-voz da Comissão Europeia disse que “outros estudos, incluindo uma contribuição recente na Nature, apontam para uma escala semelhante de impacto potencial”. O artigo da Nature não foi especificado e o discurso de Zaharieva continua disponível na íntegra no site da Comissão. “Posso afirmar com segurança que não temos conhecimento de nenhuma pesquisa que tenha quantificado o impacto da IA no número de patentes na área de materiais”, disse ao Science/Business o cientista de materiais britânico Anthony Cheetham, pesquisador da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos Estados Unidos.
Republicar