Referências bibliográficas falsas foram encontradas em um artigo do Journal of Academic Ethics, revista interdisciplinar da editora Springer Nature que tem como foco justamente questões éticas relacionadas à pesquisa. O paper, publicado em abril de 2025, foi retratado, ou seja, considerado inválido, em janeiro passado. Escrito por pesquisadores da Etiópia, o trabalho explorava as experiências de pessoas com deficiência que fizeram denúncias de irregularidades em instituições públicas de ensino da Etiópia, mostrando as barreiras que elas enfrentam nesse processo, como intimidação e medo de represálias.
As referências falsas vieram à tona depois de um alerta emitido por Erja Moore, pesquisadora finlandesa especializada em integridade científica. Ela investigava uma denúncia de má conduta na Etiópia quando se interessou pelas citações do artigo. Para sua surpresa, de um total de 29 referências, pelo menos 19 continham problemas. Algumas remetiam para artigos inexistentes, outras pareciam aludir a papers reais com títulos semelhantes, mas publicados por periódicos e autores diferentes. Os dados de alguns trabalhos, como volumes, números e páginas dos periódicos em que teriam sido publicados, levavam a artigos diversos dos citados. Onze das referências fabricadas citavam estudos do Journal of Business Ethics, outro título da Springer Nature. “Por um lado, é hilariante que um periódico de ética publique isso, mas, por outro, parece que esse é um problema muito maior nas publicações científicas”, disse Moore, ao site Retraction Watch.
O autor correspondente do artigo, Yelkal Mulualem Walle, chefe do Centro de Pesquisa em Transformação Digital e Segurança Digital da Universidade de Gondar, na Etiópia, reconheceu que ele e seus coautores usaram o ChatGPT para gerar as referências. “No entanto, a pesquisa é real e utilizou dados reais”, ressalvou. O artigo foi retratado por uso não declarado de inteligência artificial generativa – a justificativa do editor da revista é que ele perdeu a confiança na fidedignidade de seu conteúdo. Chris Graf, diretor de integridade em pesquisa da Springer Nature, destacou a complexidade em rastrear a credibilidade das referências: “Elas podem ser detalhadas pelos autores de diferentes maneiras e muitas vezes não incluem DOI”, disse, referindo-se ao Identificador de Objeto Digital, padrão alfanumérico único que identifica documentos digitais, como artigos científicos, livros e teses. Erja Moore tem experiência em explorar o que chama de “a área cinzenta do ensino superior e da ciência”. Desde 2008, ela mantém um blog, o Plagiointitutkija, que traz histórias sobre plágio, fraude e golpes em publicações científicas.
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