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literatura

Reflexões sobre o cinquentenário de publicação do livro “Primavera silenciosa” de Rachel Carson

Somente 47 anos, após o lançamento do livro Primavera Silenciosa por Rachel Carson em 1962, o Brasil baniu definitivamente o uso do Dicloro-Difenil-Tricloroetano, o famigerado DDT (Lei nº. 11.936 de 14 de maio de 2009). Considerando sua lenta degradação, e o fato de apresentar alta lipossolubilidade e lenta metabolização, o DDT se acumula ao longo da cadeia alimentar, especialmente em tecidos adiposos¹, pelo menos 3 gerações de brasileiros foram afetadas por este potente pesticida.

É raro um livro alterar o curso da história e, quando o faz sofre, invariavelmente, uma campanha de descrédito e ataques. Al Gore², em sua introdução a edição de 1994, comparou a campanha contra Rachel Carson aos ataques sofridos por Charles Darwin pela publicação do “On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life” em 1859 (pouco mais de um século antes de Silent Spring).

O livro é um marco para movimento ambientalista internacional, por ser o embrião de campanhas contra o uso de defensivos químicos, que depois se ampliou progressivamente para, por exemplo, combater os CFCs que destroem a camada de ozônio, até atingir, finalmente, a questão das emissões de CO2 e o aquecimento global.

Mas, além disso, o livro é um marco também na questão da divulgação científica, pois trata uma questão complexa – a química das interações entre um pesticida e organismos vivos, incluindo questões evolutivas como a seleção de insetos resistentes ao produto, bem como a contaminação do solo e da água – em uma linguagem acessível ao público cientificamente leigo. Foi o uso desta linguagem compreensível por todos, associada a exemplos reais da contaminação por DDT em diversas regiões dos Estados Unidos, que transformou o livro de Carson em um best seller, traduzido para dezenas de línguas e que até hoje continua a ser reeditado.

Carlos Alfredo Joly (57), biólogo, Professor Titular em Ecologia do Instituto de Biologia da UNICAMP, Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências e Coordenador do Programa BIOTA/FAPESP (www.biota.org.br).


¹ D’AMATO, C.; TORRES, J. P. M. and MALM, O. 2002. DDT (dicloro difenil tricloroetano): toxicidade e contaminação ambiental – uma revisão. Química  Nova 25(6): 995-1002.
² GORE, A. JR. 1994. Introduction to Silent Spring. Houghton Mifflin Company, 368p, ISBN-10: 0395683297 ISBN-13: 978-0395683293.

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