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Resenhas

Sempre aos domingos

Domingo é dia de ciência | Bernardo Esteves, Azougue Editorial, 200 páginas, R$ 34,90

Uma vibrante – e pouco conhecida – experiência em divulgação científica

Em 1949 havia o espantoso número de 25 jornais diários na cidade do Rio de Janeiro – em 2006, são apenas 13. O Rio era habitado por 2,1 milhões de moradores, a maior população do país, que tinha um total de 48 milhões de pessoas. No ano anterior, um desses diários apareceu nas bancas com uma novidade: um suplemento tablóide de 12 páginas sobre ciência. Era 28 de março de 1948, um domingo. O suplemento tinha o nome de Ciência para Todos (CpT) e vinha encartado em A Manhã no último domingo de cada mês.

Ao conhecer o suplemento, o editor da Ciência Hoje On-line, Bernardo Esteves, encontrou um belo tema de investigação para sua dissertação de mestrado sobre divulgação científica, apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Orientado por Ildeu de Castro Moreira, pesquisador da mesma universidade, e por Luisa Massarani, da Fundação Oswaldo Cruz, Esteves levou a termo em 2005 o trabalho agora publicado no livro Domingo é dia de ciência – história de um suplemento dos anos pós-guerra (Azougue Editorial).

A iniciativa esclarece definitivamente que a divulgação de ciência e tecnologia no Brasil não começou apenas nos anos 1940 – com o jornalista e biólogo José Reis – nem passou a freqüentar a imprensa com regularidade e importância apenas nas últimas duas décadas. Mesmo no século 19 havia periódicos que publicavam artigos sobre temas científicos e afins, embora de modo esparso. Esteves cita estudo do britânico Martin Bauer que comparou dados sobre como a ciência aparecia em jornais norte-americanos e ingleses ao longo de 170 anos. Ele mostrou que havia períodos em que o tema estava mais presente na imprensa seguido por fases de esquecimento. Para Bauer, isso se deve principalmente aos períodos de expansão e retração da atividade econômica e das inovações tecnológicas. No Brasil, conclui Esteves, não foi muito diferente.

A experiência do CpT é ímpar. Não se tem notícia de um jornal brasileiro que, até aquele momento, mantivesse um suplemento de ciência com tanto espaço (12 páginas) durante tanto tempo (cinco anos) e publicado de forma regular (mensal). Os tempos, naturalmente, ajudaram. Entre 1948 e 1953, período em que o CpT circulou, foram criados a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o atual Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Um mês antes José Reis havia estreado sua coluna “O mundo da ciência” na Folha da Manhã, atual Folha de S.Paulo. E César Lattes descobriu a partícula méson pi em colaboração com Giuseppe Occhialini e Cecil Powel um ano antes.

Ao perceber o momento amplamente favorável à ciência, o então diretor de A Manhã, Ernani Reis, irmão de José Reis, decidiu pela criação do CpT. Para desenvolver o projeto e dirigi-lo, convidou o sobrinho de ambos, Fernando de Sousa Reis, redator da seção diária “Nota científica” e auxiliar de ensino no Colégio Pedro II. Por sua vez, Fernando chamou para ajudá-lo professores interessados em divulgação científica: Oswaldo Frota-Pessoa, Roberto Peixoto, Newton Dias dos Santos e Fritz de Lauro, entre outros. Praticamente não havia jornalistas escrevendo para o CpT. Na época, vigorava no Brasil a idéia de que o cientista é o melhor divulgador de sua obra, embora na Europa e nos Estados Unidos já houvesse profissionais especializados em ciência que não eram pesquisadores.

A estratégia dos professores/divulgadores foi bem descrita por Frota-Pessoa: “Éramos um grupo de jovens envolvidos entusiasticamente na melhoria do ensino, e nossa preocupação influenciava a maneira de apresentar os artigos. A formação que tivemos nos levou a ter esse tipo de psicologia: fazíamos no jornal como fazíamos nas classes”.

O suplemento terminou praticamente junto com A Manhã, em 1953. A experiência foi marcante para a época, mas parece ter sido esquecida com o tempo. Fará bem aos novos divulgadores da ciência – sejam jornalistas ou pesquisadores – conhecer essa história.

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