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Engenharia de alimentos

Saudável e natural

Estudos na Unicamp abrem caminho para a produção de isoflavonas extraídas da soja e de novos usos da própolis

Uma das atividades da isoflavona ext ra ída da soja é a reposição do estrógeno, o hormônio feminino, dura nte a menopausa

RENATA MELLO/ PULSARUma das atividades da isoflavona extraída da soja é a reposição do estrógeno, o hormônio feminino, durante a menopausaRENATA MELLO/ PULSAR

O Brasil já possui tecnologia para a produção da isoflavona aglicona, uma substância encontrada na soja (Glycine max) que apresenta importantes atividades biológicas. Ela atua como anticancerígeno (mama e próstata) e antioxidante ao neutralizar a ação dos radicais livres, moléculas derivadas do oxigênio que são responsáveis pelo envelhecimento das células do corpo humano. A isoflavona também ajuda na redução dos níveis de colesterol prejudiciais à saúde cardiovascular e atua no combate aos fungos que provocam doenças como as micoses e a candidíase. Além disso, ela já é utilizada como auxiliar na reposição hormonal no lugar do estrógeno, o hormônio feminino que diminui muito durante o período da menopausa.

A nova técnica de obtenção da isoflavona foi desenvolvida pelo professor Yong Kun Park, do Laboratório de Bioquímica de Alimentos da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Extraída de grãos e de produtos derivados da soja, as isoflavonas agliconas podem ser oferecidas ao mercado consumidor como um suplemento alimentar em forma de cápsulas ou como um ingrediente para ser adicionado a bolos, chocolates e biscoitos, tornando-os mais saudáveis.

Transformação digestiva
O trabalho do professor Park e sua equipe resultou em um pedido de patente do processo de extração e conversão das isoflavonas glicosiladas de soja às suas formas agliconas. Esse processo de transformação das isoflavonas ocorre normalmente no aparelho digestivo, quando enzimas digestivas produzidas pela microflora intestinal transformam as isoflavonas glicosiladas em agliconas, que são então absorvidas pelo organismo. “A idéia é produzir comercialmente a isoflavona aglicona para ser oferecida diretamente em forma de cápsulas ou para a produção de alimentos, permitindo assim uma melhor absorção e aproveitamento do composto pelo organismo”, explica Park.

Segundo o pesquisador, o Brasil tem condições ideais para produzir alimentos derivados de soja. O país é o segundo maior exportador dessa leguminosa, responsável por 16,9% da produção mundial. A área plantada para a safra 2000/2001 chegou aos 13,7 milhões de hectares, com uma produção estimada de 37 milhões de toneladas, gerando uma receita com grãos, óleo e farelo de soja em torno de US$ 4,8 bilhões. “Se alguém tinha que desenvolver essa tecnologia, éramos nós.”

Park: depois do Neosugar, o estudo das propriedades biológicas da própolis

EDUARDO CESARPark: depois do Neosugar, o estudo das propriedades biológicas da própolisEDUARDO CESAR

Dose diária
Park pesquisa isoflavonas de soja desde 1998. “Há pouco mais de três anos, 20 grandes empresas americanas produzem derivados de soja para a alimentação, baseadas em recomendações da Food and Drugs Administration (FDA) que sugere o consumo de 25 gramas (g) por dia de proteína de soja, em razão da sua comprovada atividade de redução e controle de colesterol e da pressão sanguínea.” Em cada 100 g de amostra seca de soja existem 40 g de proteínas, 30 g de glicídios, 20 g de lipídios, 226 mg de cálcio, 546 mg de fósforo e 8,8 mg de ferro. Entre os componentes químicos da soja estão os compostos polifenólicos, como as isoflavonas.

Vários trabalhos publicados em revistas internacionais relatam os benefícios para a saúde humana propiciados pelo uso dessas substâncias. Entre eles estão o de Lori Coward, da Universidade do Alabama, Estados Unidos, sobre atividades antitumorais da isoflavona de soja em dietas asiáticas e americanas e o de Patrícia Murphy, da Universidade do Estado de Iowa, também nos Estados Unidos, sobre teores de substâncias semelhantes ao estrógeno em produtos de soja processada. Além dessas propriedades, as ações antioxidante e antifúngica também foram comprovadas pelo professor Park. Os principais resultados do trabalho de Park com a soja foram apresentados, em junho de 2001, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, no 2001 IFT, encontro anual promovido pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos (IFT), e no 1º Simpósio Brasileiro sobre os Benefícios da Soja na Saúde Humana, promovido pela Embrapa-Soja em Londrina, no Paraná, em maio deste ano.

As isoflavonas agliconas são encontradas em produtos de soja tradicionalmente fermentados, muito consumidos no Japão e em outros países asiáticos. Segundo Park, estudos realizados naquele país confirmaram que os orientais possuem grande quantidade de isoflavona aglicona no plasma do sangue, fator que pode ser o responsável pelo baixo índice de câncer de próstata, mama, colo do útero e de problemas relacionados à menopausa na população oriental. Em outros povos, onde o consumo de produtos fermentados de soja é menor, os índices de doenças são maiores. “Fornecer isoflavona aglicona para a produção de alimentos poderia beneficiar um número maior de pessoas”, afirma Park.

Processo industrial
Para a produção industrial de isoflavonas tornam-se necessárias algumas etapas preliminares, tais como moagem dos grãos e desengorduramento. A farinha desengordurada é submetida a um processo de extração de isoflavonas com solventes num processo de destilação. Desse conteúdo de isoflavonas, as glicosiladas são convertidas em agliconas pela ação de uma enzima, a beta-glicosidase, durante um processo fermentativo. Para a produção da beta-glicosidase, Park utiliza o fungo Aspergillus oryzae, muito utilizado no Japão em processos biotecnológicos. A soja utilizada nos experimentos é fornecida pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC). São cinco cultivares: IAC 15-1, IAC 15-2, IAC 20, IAC 22 e IAC Foscarin 31-1.

Embora ainda não tenha nenhum contrato para transferir sua tecnologia, Park já tem informações sobre o interesse de indústrias alimentícias estrangeiras, que atuam no Brasil, em usar isoflavonas agliconas na produção de alimentos ou suplementos.Outros estudos do professor Park referem-se à análise de substâncias presentes na própolis, uma substância resinosa coletada por abelhas da espécie Apis mellifera de diversas partes das plantas, como brotos, botões florais e líquidos que transpiram das folhas e do caule.

Amostras de própolis das abelhas Apis Mellifera resultaram em duas patentes

MIGUEL BOYAYANAmostras de própolis das abelhas Apis Mellifera resultaram em duas patentesMIGUEL BOYAYAN

Doce começo
O interesse de Park pelo estudo da própolis começou em 1991. O forte contato com os apicultores para o isolamento de açúcares não-convencionais de mel de abelhas, capazes de transformar a sacarose da cana-de-açúcar em um adoçante com baixa caloria – cujos estudos renderam a patente do Neosugar junto com a Usina da Barra, em Barra Bonita (SP) – despertou o interesse pelo estudo também da composição química e propriedades biológicas relacionadas à própolis. Como mostram vários estudos do professor Park e ampla literatura sobre o assunto, muitos compostos químicos das própolis já foram identificados e a maioria deles pertence a três grupos principais: flavonóides, ácidos fenólicos e ésteres fenólicos.

Suas concentrações variam dependendo da flora da região de coleta e da variabilidade genética da abelha. “A própolis brasileira é largamente exportada para o Japão e Europa e rende aos apicultores nacionais algo em torno de US$ 2 milhões a US$ 3 milhões anuais. Sua qualidade é considerada a melhor do mundo exatamente devido à biodiversidade brasileira”, diz Park. Do início de 1993 até 1998, ele e sua equipe pesquisaram 500 amostras de própolis nacionais, obtidas nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país, agrupando-as em 12 grupos básicos, cada um com uma finalidade específica.

Segundo explicações de Park, dos 12 grupos definidos, quatro mostraram atividades anticancerígenas, três mostraram atividades anticáries e, em dois, atividades anti-HIV. Esse trabalho já rendeu, além das inúmeras publicações internacionais, duas patentes. Uma delas, no início deste ano, sobre uso de flavonóides de própolis para prevenção e tratamento de cáries dentárias. Ela foi registrada pela FEA, em conjunto com a Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), também da Unicamp, e a Universidade de Rochester, Estados Unidos, onde trabalha um dos ex-orientados de Park.

Própolis da Amazônia
Outra, de uso da própolis com função anti-HIV (eliminação do vírus), foi feita em conjunto com a Universidade da Carolina do Norte, também dos Estados Unidos, e deverá ser confirmada até novembro de 2001. “A idéia agora”, diz ele, “é, a partir do ano que vem, ampliar essas pesquisas para a região amazônica”. Park e sua equipe vão procurar compostos químicos em novos tipos de própolis, caracterizando suas atividades biológicas. “Acreditamos, com isso, aumentar o valor comercial desse produto e conhecer novos princípios ativos que possam ter uso na indústria farmacêutica e alimentícia.”

Os projetos
1. Produção de Isoflavonas agliconas com Alta Atividade Biológica a partir da Soja (nº 00/10611-7); Modalidade Linha regular de auxílio à pesquisa; Coordenador Yong Kun Park – Unicamp; Investimentos
R$ 27.125,00 (soja) e R$ 44.444,05e US$ 48.980,36 (própolis)
2. Isolamento e Identificação de Compostos com Alta Atividade Biológica de Própolis de Apis mellifera (nº 04/08635-6); Modalidade Linha regular de auxílio à pesquisa; Coordenador Yong Kun Park – Unicamp; Investimentos R$ 27.125,00 (soja) e R$ 44.444,05e US$ 48.980,36 (própolis)

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