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Boas práticas

Seleção enviesada

Revista médica retrata ensaio clínico feito em Taiwan que falhou em alocar pacientes de forma aleatória

O British Medical Journal (BMJ), uma das revistas médicas mais influentes do mundo, anunciou a retratação de um artigo publicado em 2024 que trazia resultados de um ensaio clínico sobre a eficácia de métodos de acesso vascular – procedimento para inserir cateteres que permitem a administração rápida e segura de medicações – em indivíduos que sofrem uma parada cardíaca e são levados por paramédicos para hospitais. O paper havia concluído que a escolha do acesso intravenoso ou do intraósseo, feita pelos profissionais dos serviços de ambulâncias, não fez diferença na proporção de pacientes que sobreviveram ou tiveram desfechos neurológicos favoráveis, entre outros parâmetros.

A justificativa para a retratação foi a existência de falhas na randomização do ensaio clínico, que haviam sido levantadas por um especialista via comentário on-line. A randomização é o processo de alocar participantes de pesquisa aleatoriamente em grupos, garantindo que todos tenham chances iguais de seleção – isso permite que os resultados dos grupos sejam comparáveis e não haja vieses. “Houve um grande número de exclusões, o que afetou o equilíbrio da alocação de pacientes”, informa a nota de retratação, que afirma haver discrepâncias no conjunto original de dados.

O alerta de que o artigo era problemático partiu de Lars Andersen, professor de medicina clínica da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, que também atua como revisor estatístico do Journal of the American Medical Association. Ele observou que a randomização das intervenções e a proporção de pacientes em cada grupo não ocorreram na proporção especificada pelos autores.

Equipes de resposta a emergências em Taipei, Taiwan, foram aleatoriamente designadas para usar acesso intraósseo ou intravenoso nos pacientes cardíacos durante 15 dias. O ensaio clínico afirmava que a proporção seria de 1 para 2, com o dobro de pessoas no grupo intravenoso em relação ao intraósseo. Mas os dados mostraram períodos sem randomização, nos quais todas as equipes receberam o mesmo método, e também períodos com uma proporção igual de tratamentos. De todo modo, a proporção de 1 para 2 não foi alcançada: o número de pacientes em cada grupo ficou muito próximo, de cerca de 3.900 pessoas. Os autores atribuíram os problemas ao fato de o estudo ter sido feito em 2021, durante a pandemia de Covid-19, o que impôs restrições não previstas: paramédicos treinados para atuar no ensaio foram atingidos pela doença e se afastaram do trabalho. O cronograma teria sido alterado por razões práticas.

Andersen disse ao site Retraction Watch que retratar o artigo foi a decisão correta e que os problemas com o ensaio clínico e o manuscrito poderiam levar a conclusões incorretas. Wen-Chu Chiang, pesquisador do Hospital Universitário Nacional de Taiwan e um dos 13 coautores do estudo, afirmou ao mesmo site que a equipe editorial da revista “confirmou que a retratação não implica, de forma alguma, qualquer falha ética ou má conduta”. Ele também classificou os equívocos como “não intencionais”.

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