Guia Covid-19
Imprimir PDF Republicar

Obituário

Semeador de ideias

O físico Sérgio Mascarenhas empreendeu pesquisas em várias áreas do saber e contribuiu para a criação de empresas e importantes instituições de pesquisa, como a UFSCar

O físico fotografado em 2007, quando concedeu entrevista a Pesquisa FAPESP

Miguel Boyayan

O inconformismo e a imaginação fervilhantes, somados à entrega à pesquisa experimental e à atividade intelectual, deram o tom da trajetória do físico Sérgio Mascarenhas Oliveira, morto em 31 de maio, aos 93 anos. Ele estava internado no Hospital São Paulo, em Ribeirão Preto (SP), desde o dia 28 em decorrência de uma parada cardiorrespiratória e não resistiu. Manteve-se ativo até o fim, dedicando-se a pesquisas e novas tecnologias.

Seus colegas o descrevem como um pesquisador pragmático, que costumava ter pressa para colocar suas ideias em prática. “Ele não tinha paciência para planejar. Preferia fazer logo para ver se a coisa ia para frente. Se não desse certo, abandonava o empreendimento para se dedicar a outro”, conta o farmacêutico Gustavo Frigieri, ex-aluno de Mascarenhas. “Poucos dias antes de ser internado, ele me ligou com uma ideia e disse que tínhamos de colocá-la logo em prática, pois seu tempo estava acabando. Eu respondi: ‘Professor, o senhor me diz isso há 15 anos’. Mas dessa vez foi diferente.”

Frigieri foi testemunha do que o físico era capaz quando instigado pela curiosidade ou necessidade. Em meados de 2006, Mascarenhas começou a ter dificuldade de caminhar e falhas de memória. Os médicos achavam que poderia ser doença de Parkinson, mas o problema era outro: hidrocefalia de pressão normal, doença comum em idosos, caracterizada pelo acúmulo do líquido cefalorraquidiano nas câmaras do cérebro. O físico precisou passar por uma cirurgia para implantar uma válvula e drenar o excesso de líquido. Ocorre que esses dispositivos costumam entupir e, de tempos em tempos, precisam ser trocados. Para avaliar seu funcionamento, os médicos fazem um pequeno furo no crânio do paciente para medir sua pressão intracraniana. “Mascarenhas não se conformava que ainda fosse preciso fazer um furo na cabeça de alguém para medir a pressão intracraniana”, recorda Frigieri.

Ele então decidiu buscar uma alternativa. Começou a estudar a própria doença e a se articular com colegas para criar um dispositivo capaz de monitorar de forma não invasiva a pressão intracraniana de pacientes neurocríticos, que sofreram traumatismo craniano ou acidente vascular cerebral, apresentam hidrocefalia ou tiveram outras patologias cerebrais. A estratégia resultou em um pequeno sensor que, preso na cabeça por uma faixa, transmite em tempo real dados da pressão intracraniana a um monitor à beira do leito do paciente.

Frigieri teve participação ativa nesse projeto. O sensor que criaram recebeu vários prêmios e atraiu a atenção de médicos do mundo (ver Pesquisa FAPESP nºs 221 e 280). Em 2014, Frigieri e Mascarenhas fundaram a brain4care, a fabricante legal do equipamento. “Ele tinha esse impulso para empreender, algo incomum entre os cientistas brasileiros”, comenta o farmacêutico. “Sempre falava em transformar suas ideias e a de outros colegas em produtos. As pesquisas para ele só faziam sentido se seus resultados chegassem ao público.”

O sensor é apenas um dos vários projetos de Mascarenhas. Sua biografia é considerada uma das mais profícuas e multifacetadas na comunidade científica brasileira. Entre suas principais contribuições estão a criação do conceito de bioeletretos (materiais biológicos também capazes de manter uma polarização elétrica por longo tempo) e a descoberta de novos métodos de datação arqueológica.

Ele foi um dos principais responsáveis pela institucionalização da física da matéria condensada no Brasil na década de 1950, pela criação da Embrapa Instrumentação Agropecuária, em fins dos anos 1960, em São Carlos (SP), e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no começo da década de 1970. “Mascarenhas foi um semeador de ideias, tendo contribuído para a formação de muita gente que hoje desempenha um papel importante na ciência brasileira”, diz o engenheiro químico Hamilton Varela, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC) da USP. “Ele demonstrava muito interesse nas pesquisas dos colegas. Sempre me sentia parte de algo maior quando falava com ele sobre meus trabalhos.”

Mascarenhas nasceu no Rio de Janeiro em maio de 1928. Graduou-se em química pela Universidade do Brasil – atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – em 1951 e em física, pela mesma instituição, em 1952. Foi aluno do físico Joaquim da Costa Ribeiro (1906-1960) e publicou seus primeiros trabalhos sobre o efeito termodielétrico, descoberto pelo professor. “Foi Mascarenhas quem chamou o novo fenômeno de efeito Costa Ribeiro, pelo qual passou a ser conhecido”, escreveu o físico Sérgio Rezende, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em artigo para o portal da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Entre 1959 e 1980, o físico carioca fez estágios de pós-doutorado nos Estados Unidos – no Instituto de Tecnologia Carnegie e nas universidades Harvard e de Princeton – e no Reino Unido – na Universidade de Londres. Foi professor visitante de instituições no México, Reino Unido, Japão e Itália. Ele também colaborou com importantes cientistas de sua época, entre eles o brasileiro Sérgio Porto (1926-1979), o polonês Roman Smoluchowski (1910-1996) e o norueguês Lars Onsager (1903-1976), ganhador do Nobel de Química em 1968.

Mascarenhas foi convidado para trabalhar permanentemente em algumas das instituições do exterior que frequentou, mas sempre recusou as ofertas, preferindo voltar ao Brasil para consolidar a física da matéria, campo ao qual se atribuía pouca importância à época no país, mas que, com o tempo, se tornou fundamental nas áreas de informática, tecnologia da informação e telecomunicações.

Instalou-se com a mulher, a física e química Yvonne Primerano Mascarenhas, em São Carlos, para trabalhar na Escola de Engenharia da USP (ver Pesquisa FAPESP 258). “Eu veria adiante que, no Rio, não ia conseguir estruturar as minhas ideias, os meus sonhos, porque lá era terra dos raios cósmicos, das partículas elementares…”, disse em entrevista a Pesquisa FAPESP em 2007.

Com recursos que obteve do Programa Fulbright, Mascarenhas criou um curso de pós-graduação em química e física do estado sólido na Escola de Engenharia da USP, embrião dos institutos de Física e Química daquela universidade. Os esforços de Mascarenhas ajudaram a transformar São Carlos em um polo aglutinador de pesquisadores e jovens físicos interessados nessa nova área. A cultura científica que se estabeleceu na cidade também chamou a atenção do empresário e político Ernesto Pereira Lopes (1905-1993).

Ao lado de outro político da época, Lauro Monteiro da Cruz (1904-1989), Lopes quis criar uma universidade federal, reunindo várias escolas já existentes – como a USP havia feito décadas antes. Mascarenhas propôs uma ideia diferente: estruturar uma universidade do zero, abrindo as portas para áreas do conhecimento até então pouco exploradas no Brasil, como a física do estado sólido. Ernesto não só concordou como o convidou para ser reitor da nova instituição, a UFSCar. Lá, Mascarenhas criou, em 1972, o primeiro curso de engenharia de materiais da América Latina. Apesar de se dedicar à nova universidade, o estudioso nunca se desvinculou da USP.

Foi também em São Carlos onde fundou o Centro Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento de Instrumentação Agropecuária, a Embrapa Instrumentação, em 1984, voltada à aplicação de conhecimentos da física e das engenharias na agropecuária. Em 1986, articulou-se para criar o Polo de São Carlos do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP. “Além de ter ajudado a fundar diversas instituições, Mascarenhas foi um grande apoiador de novos grupos de pesquisa em todo o Brasil. Como membro do Conselho Deliberativo do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], propôs, em 1970, a celebração de um convênio com a UFPE e participou ativamente da elaboração do plano para a implantação de um grupo de pesquisas no recém-criado Instituto de Física, atual Departamento de Física, que este ano completa 50 anos”, escreveu Rezende em seu artigo.

Sua inquietação permanente também o levou a se envolver em pesquisas na área médica na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, na Escola de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos, e com grupos de medicina na Itália. Seus empreendimentos resultaram em novas técnicas de consolidação de fraturas ósseas com correntes elétricas, no emprego de válvulas em transplantes cardíacos, entre outras inovações.

“Sérgio pesquisou e atuou intensamente em muitos campos do conhecimento e lutou durante décadas pela ciência brasileira, sempre com enorme energia e dedicação”, disse o físico Ildeu de Castro Moreira, presidente da SBPC, da qual Mascarenhas era presidente de honra. “Ele foi um grande inspirador e estimulador de jovens pesquisadores, contribuindo para o surgimento de várias gerações de cientistas brasileiros.” Segundo Varela, do IQSC-USP, “uma de suas principais características talvez tenha sido a de enxergar na universidade um instrumento de transformação social e melhoria da qualidade de vida da população”.

“Mascarenhas foi uma referência para a pesquisa básica no país e, ao mesmo tempo, associou esse conhecimento à tecnologia e ao empreendedorismo para desenvolver soluções para desafios na área da medicina e melhorar a vida das pessoas”, afirmou Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP.

Em 2019, o pesquisador foi agraciado com o prêmio Joaquim da Costa Ribeiro, outorgado pela Sociedade Brasileira de Física a “pesquisadores com reconhecida contribuição ao longo de sua carreira para a física da matéria condensada e de materiais no Brasil”. Foi o último de muitos prêmios e homenagens que recebeu ao longo da carreira. Mascarenhas deixa a mulher Telma Coimbra e quatro filhos, no total (um casal do primeiro casamento e outro do segundo).

Íntegra do texto publicado em versão reduzida na edição impressa, representada no pdf

Republicar