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Resenha

Sexualidade nas sociedades indígenas

Moqueca de maridos: mitos eróticos indígenas | Betty Mindlin e narradores Makurap, Tupari, Wajuru, Djeromitxí, Arikapú e Aruá | Paz e Terra, 322 páginas, R$ 45

Eduardo CesarQue sentidos lampejam nessas narrativas protagonizadas pelo amante Txopokod e a menina de pinguelo gigante, a cabeça voadora Nangüeretá, a namorada do Cobra-Cega, o sapo tororõi e outras figuras tão inesperadas?

Enveredando por florestas densas de imagens de um tempo indiferenciado, em que homens, mulheres, animais e espíritos viviam em constante ebulição, esta Moqueca de maridos: mitos eróticos indígenas (publicada pela primeira vez em 1997 e traduzida para várias línguas), da antropóloga Betty Mindlin em coautoria com narradores Makurap, Tupari, Wajuru, Djeoromitxí, Arikapú e Aruá, é uma coletânea de mitos desconcertantes para os padrões de amor e erotismo do Ocidente.

Na esteira de Mitológicas (1964), de Lévi-Strauss, Betty vem se dedicando desde a década de 1970 a documentar as tradições orais dos povos indígenas. Como afirma a autora, “o registro dos mitos é um caminho para a afirmação cultural, para lembrar a riqueza da diferença entre as sociedades e o direito de manter tradições diferentes” – e boa parte do material que coligiu resultou na organização de livros em coautoria com narradores indígenas, como Terra grávida (Rosa dos Tempos/Record, 1999), Couro dos espíritos (Senac/Terceiro Nome, 2001), Mitos indígenas (Ática, 2006) e Vozes da origem (Record, 2007).

Moqueca de maridos trata da complexa batalha das sexualidades – envolvendo violência, sedução, erotismo, alimentação e metamorfoses do corpo em trânsito pelos mundos aquáticos, terrestres e celestes – no contexto de seis povos indígenas de Rondônia, com distintas línguas e tradições (dos 67 mitos reunidos, 20 são Makurap, 17 Tupari, 8 Wajuru, 10 Djeromitxí, 4 Arikapú e 8 Aruá).

O mito Makurap, “A cantiga Koman ou moqueca de maridos”, que dá o título ao volume, narra a aparição de uma velha Katxuréu numa lagoa para reprimir as meninas que apanhavam sapinhos e peixinhos, vistos por ela como “nossa música e nosso jenipapo” (elementos inerentes à cultura). Como entoava lindas cantigas, atraiu as mães para aprenderem as canções e dançarem. Em troca, a velha exigiu das mulheres a carne de um marido por dia para comer.

Desconfiado, um rapaz fingindo-se de doente, ao avistar uma delas carregando o marido morto, avisou os homens, que surpreenderam suas mulheres dançando ao som da taboca da velha e comendo um marido bem cozido. Como vingança, flecharam e mataram todas, excetuando a velha, que escapou para a lagoa, e duas meninas escondidas na casa do cacique, que continuaram a preparar a chicha doce que só as mulheres sabem fazer. Quando casaram, o povo Makurap cresceu e aprendeu a cantiga Koman.

Narrado originalmente em tupari, língua do tronco tupi, este mito contemporâneo remete ao circuito de vingança dos antigos rituais de antropofagia dos Tupinambá, sinalizando, entretanto, a inversão dos papéis. Se, no passado, a captura e a morte do inimigo circunscreviam-se ao domínio dos homens, neste mito são as mulheres as protagonistas. O massacre é o divisor temporal que restaura o papel cultural dos gêneros: os homens recuperam o ethos guerreiro, enquanto as mulheres voltam às atividades domésticas de fazer chicha, casar e povoar a aldeia. Somente a velha, insaciável em seus apetites, mantém viva a espiral de vingança arquetípica, lançando o desafio: “– É com esses dentes afiados que eu comi vocês, comi muitos homens!”. Tal voracidade lembra a da índia do relato do jesuíta Simão de Vasconcelos em Crônica da Companhia de Jesus (Vozes, vol. 1, 1977, p. 200), que, “no último da vida”, implora por “uma mãozinha de um rapaz Tapuia de pouca idade tenrinha para chupar os ossinhos”.

Assim, cada mito anima a imaginação e suscita interrogações acerca dos lugares da sexualidade e das imagens do corpo em sociedades indígenas contemporâneas.

Vale notar que a presente edição revista pela autora traz, além de novos textos e comentários, a introdução de Maurizio Gnerre, dados sobre os grupos indígenas citados, um glossário e um caderno com belíssimas fotografias do etnólogo Emil Snethlage, que visitou o Guaporé entre 1933 e 1935, e do antropólogo Franz Caspar, que viveu com os Tupari em 1948.

Glória Kok é pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e autora de O sertão itinerante. Expedições da capitania de São Paulo no século XVIII (Hucitec/FAPESP, 2004); Os vivos e os mortos na América portuguesa: da antropofagia à água do batismo (Unicamp/FAPESP, 2001), entre outras publicações.

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