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Ficção

Sobre os rumos da instituição

Olhou para o seu cãozinho e disse: Neném, precisamos mudar esse estado de coisas. Sou um pesquisador, tenho uma opinião própria sobre o projeto, e não posso aceitar resignadamente que os rumos do saber acadêmico continuem assim, prestando contas, cumprindo prazos, participando de congressos, produzindo artigos… E clamou aos céus: por Netuno, a vida é muito mais do que isso!

Neném ficou estático, contemplando fixamente seu dono; ou melhor, permaneceu tal como estava, antes de lhe dirigirem sentenças tão resolutas. Uma coceira intensa atrás da orelha desviou sua atenção. Passada a coceira, começou a farejar em volta de onde estava sentado e, abanando seu rabinho cotó, deu um latidinho, como quem assentisse na conclamação em discurso proferida pelo orador.

Mas, quê?! Trabalhar como um coveiro, depositando sobre o leito marmóreo dos grandes pensadores as lápides em notas de rodapé, em cujo epitáfio se lê idem, ibidem? Empunhava sua caneca azul com chá de menta, dirigindo a Neném um semblante inflamado: uma república, com efeito, também necessita de coveiros; mas e quanto aos vivos? Resta-lhes algo a ser dito? Uma mísera verdadezinha sequer? Se não, então tudo não passa de uma tarefa classificatória, planejada por um sistema fechado e perverso, em que a tarefa principal consiste numa embromação infinita sem nenhum outro resultado além de taxonomia bibliográfica. E é por isso que insisto: não só a vida é muito mais do que isso, como me disponho a mostrá-la. E esbravejou: ao computador, Neném! Se falta coragem para expressar-me diretamente em assembléia, falar-lhes umas boas verdades, esbocemos ao menos algumas considerações sobre os propósitos iniciais da pedra fundamental da instituição – propósitos esses os mais louváveis – e comparemo-los com os seus atuais resultados – corretos, reconheço, mas muito aquém daquilo que poderíamos alcançar. E, a partir disso, investiguemos as causas: enumeremos os motivos mundanos, os virtuosismos vaidosos e frívolos que resultaram nesse torpor absoluto. Neném pegou seu osso de borracha e, sem nenhuma hesitação, acompanhou seu dono até o quarto, para redigirem o relatório.

Senhor diretor,
Com o perdão do desplante, deixo de lado o tradicional “venho por meio desta”. Se é a vossa senhoria que me dirijo, logo a apresentação está subentendida. Como funcionário dessa instituição há mais de dez anos, dou por certo que o motivo de minha carta não o surpreenderá. Afinal, como diretor, sois um dos mais diretamente envolvidos e, portanto, responsáveis pela lamentável situação em que se encontra nossa auspiciosa morada do conhecimento. Mas não o culpo. Sabeis bem que a história, nossa infalível albergadora dos fatos, há muito atesta que não é de hoje que as coisas chegaram aonde chegaram, donde a constatação de que a vossa mencionada responsabilidade está diluída no oceano das contingências.

O que gostaria de tratar aqui não ignora o resultado eficiente e devido das tarefas almejadas e cumpridas, mas prefiro ater-me ao entorno de diversos elementos que, a meu ver, foram empregados levianamente no correr do processo.

Estive conversando com Neném, meu leal conselheiro, especialista em questões prementes, sobre alguns incômodos que me aturdiram no espaço hierárquico da instituição; e embora Neném não faça parte do projeto, tenho cada vez mais a forte convicção de que é de “gente” como ele que necessitamos para a obtenção de melhores resultados.

Entenda: creio que, em primeiro lugar, tergiversa-se em demasia nas nossas reuniões mensais. Todos queremos colaborar, trazendo novas análises e informações referentes aos tópicos delimitados no cronograma, mas acabamos apenas nos submetendo a um festival de frases de efeito, gracejos e comentários retorcidos. Como já disse, não tenho dúvidas de que, no final das contas, conseguimos atingir o programado. Mas, pergunto-lhe – da mesma forma que consultei Neném -, será que isso não ocorreria de modo mais profícuo, caso conseguíssemos, como se costuma dizer, sair um pouco da teoria, partindo finalmente para a prática? Não estaríamos nos amofinando nos muros que encerram o universo do saber, ignorando a existência de vida inteligente no mundo real, efetivo, onde as coisas acontecem? Em suma, o que se tem feito durante essas nove décadas de reconhecimento e respaldo público não é pura divagação em nome da tradição?

Mencionei a pessoa de Neném, e insisto nesse ponto, porque se não é ele quem escreve diretamente esta carta, ainda assim é o espírito ilustrado de meu cãozinho que perfaz a minha letra – sim, é hora de trazer a verdade à baila: é num quadrúpede doméstico que me baseio, num assíduo freqüentador de pet shop, com menos de cinco quilos, fruto dos percalços de uma sociedade consumista imprestável. O senhor não pode ouvir agora os latidos frenéticos e agudos de Neném, tomado de fúria em virtude dessa calamidade apática de que o pus a par. Garanto-lhe, porém, que não é sem razão que Neném late, apoiando-me nessa luta que deflagro contra a mesmice institucional. Se até hoje outros funcionários não lhe comunicaram nada a esse respeito, é porque se encontram entorpecidos pelos fungos da burocracia que, ao cultivarem sua colônia, transformam a espontaneidade em má-fé. O balcão da copa, por exemplo, onde tomamos nosso ordinário e aguado cafezinho: ao nos defrontar com nossos conhecidos, todos dizemos um saudável e sorridente bom dia!, como vai!, quanto tempo!, mas, pelas costas, granjeamos os pensamentos mais insidiosos e nefastos.

(desculpe por persistir tanto no conectivo e; mas, o senhor sabe: nunca é coisa só)

Tenho consciência do risco que corro ao pôr nossa instituição em xeque à luz dos conselhos que Neném tão solicitamente me ofertou. Não que tenhamos abandonado a solidariedade nas reuniões e na convivência quase diária. Contudo, que medidas poderíamos tomar para dissipar esse ambiente pasmado do profissional, que se comporta como quem tudo sabe, mas nada diz, já que – reza a paranóia – os outros se apropriariam indevidamente das ideias alheias.

E torno a reclamar: a objetividade que nos falta, Neném tem de sobra, e isso sem tergiversar; mesmo sendo muito novinho, ele vai direto ao ponto…

Uma súbita descarga elétrica apagou a tela do computador. Um ganido seco e breve. Ao chão, enquanto seu dono escrevia, após muitos latidos, Neném abandonara seu osso de borracha e começou a roer o cabo ligado à tomada – a única maneira honesta de dar cabo àquilo tudo.

Bruno Simões é tradutor, mestre em Filosofia pela USP e atualmente desenvolve uma tese de doutorado sobre o pensamento conservador.

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