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pesquisa na quarentena

“Sonhei com um ônibus escolar desgovernado que quebrava o meio-fio e caía no rio”

A neurocientista Natália Mota, pesquisadora da UFRN, detectou medo e raiva em relatos do sono durante a pandemia de Covid-19

Habituada ao trabalho remoto, Natalia Mota mudou o cenário de Natal para o Rio de Janeiro

Arquivo pessoal

Desde que surgiu o novo coronavírus, fiquei muito antenada no que acontecia na China. Quando a doença entrou na Europa, me apavorei e comecei a recolher dados, a plotar minhas próprias curvas e a mandar artigos e explicações aos meus colegas médicos. Me preocupava com a saúde deles, na linha de frente. Mas o negacionismo era patente e, nesse contexto, briguei com todo mundo. Estava muito angustiada e tive um sonho no qual eu olhava a paisagem pela janela do meu quarto, no décimo andar, e via um ônibus escolar desgovernado se aproximar. Ele derrapava, quebrava o meio-fio e caía no rio. As pessoas se afogavam e eu via o sangue, ouvia os gritos. Chorava desesperada, não podia fazer nada. 

Temos muita proximidade cultural com a Europa, então era de se prever que em um futuro próximo estaríamos vivendo a mesma coisa que eu lia sobre os países de lá. É fácil pensar que essa situação de risco pode ter um impacto na saúde mental das pessoas. Senti praticamente um chamado: como posso contribuir? O trabalho que eu vinha fazendo antes perdeu o sentido, precisava repensar as metodologias para ajudar neste momento.

Eu estava concluindo um artigo de uma parte do meu doutorado. Por mais de cinco anos fiz um trabalho de coleta de sonhos em laboratório em que mostrávamos a cada sujeito uma imagem de conteúdo emocional que podia ser positiva, negativa ou neutra. Ele descrevia a imagem e depois devia tentar dormir. Na primeira ou na segunda fase do sono, o despertávamos e pedíamos que contasse o que tinha visualizado nesse momento de olhos fechados: percebemos uma similaridade semântica persistente com aquilo que a pessoa tinha visto antes. Quando se aprofundavam no sono, os sujeitos iam neutralizando as notas de valência afetiva. 

Debruçada sobre esses dados de ciência básica, estava aberta à literatura sobre a função dos sonhos. Nessa situação de pandemia, eles são o mecanismo para a metabolização de traumas das pessoas em casa. Eu queria entender do ponto de vista de ciência básica qual é a função dos sonhos e como isso trabalha nossa saúde mental, mas também usar essa informação durante a pandemia para dar uma devolutiva à sociedade, mesmo que apenas uma inspiração para as pessoas que já vivenciavam um aumento da atividade onírica. 

Há teorias que falam sobre o sonho como um ambiente de realidade virtual personalizado em que a pessoa treina habilidades para um futuro próximo, e hoje a neurociência corrobora essa visão. Seria como um oráculo probabilístico que elenca possíveis cenários e treina o sonhador para esses próximos desafios. Neste momento estamos todos com a mesma pressão de futuro próximo, que é o medo da contaminação. 

Durante meu doutorado desenvolvi algoritmos computacionais para avaliação de aspectos da saúde mental, principalmente da organização dos pensamentos, que tem muito a ver com situações mais extremas de sofrimento mental como as psicoses. Vínhamos desenvolvendo ferramentas que auxiliavam rastreios e quantificação por meio da fala. É um dado fácil de coletar, totalmente não invasivo e que pode ser remoto. A metodologia já estava pronta para ser aplicada a fim de dar um panorama geral e entender o que a mudança no padrão de sonhos tem a ver com a saúde mental das pessoas e orientar como essa ferramenta fisiológica gratuita, interessante e inspiradora poderia ajudar.

O aplicativo permite que o voluntário grave e estoque em nosso servidor um dado de alta qualidade com no mínimo 30 segundos. Ele interage com o sujeito para que mantenha um fluxo de palavras e gere um dado analisável. Na primeira fase, levantei mais de 200 relatos de voluntários saudáveis, adultos, registrando em áudio os sonhos da pandemia. Pudemos contrastar esses relatos com aqueles colhidos entre setembro e novembro de 2019, quando estávamos validando o nosso aplicativo. 

Com isso nós examinamos a estrutura do discurso, que tem a ver com a forma do pensamento. Isso muda quando há um impacto na cognição global, não porque a pessoa ficou mais ou menos feliz. Fizemos essa análise estrutural e de fato não notamos diferença com a entrada da pandemia.

Natália Mota Grafo da organização da linguagem no relato do sonho do ônibus escolar desgovernadoNatália Mota

Também analisamos a proporção de palavras com conteúdo emocional: quantas delas pertenciam a uma lista predeterminada. Utilizando métodos quantitativos, percebemos um aumento na quantidade de palavras relacionadas a raiva e tristeza.

O terceiro componente é um índice de similaridade semântica. Para isso, pegamos todos os textos da wikipedia em português e medimos a frequência de coocorrência das palavras. As palavras cão e gato, por exemplo, coocorrem com muito mais frequência do que cão e fato. Montamos assim um grande mapa semântico e vimos que as palavras dos relatos eram próximas dos termos relacionados a contaminação e limpeza. O artigo está arquivado no medRxiv e submetido a uma revista científica. 

O medo aparece no grupo como um todo, assim como as estratégias de limpeza. O que mudou na vida dessas pessoas no primeiro mês de pandemia foi um ajuste à realidade e às novas estratégias de limpeza para se proteger da contaminação.

Essas peculiaridades que detectamos estão associadas ao nível de sofrimento mental. Pessoas que sofriam mais com as relações sociais, que estavam mais isoladas e com dificuldades de interagir no ambiente virtual eram as que tinham mais sonhos com conteúdo de limpeza. 

Ao final da entrevista os sujeitos faziam uma autoavaliação sobre se o momento de refletir sobre os sonhos os tinha deixado mais felizes ou tristes, calmos ou ansiosos, criativos ou confusos etc. Pareamos aspectos positivos e negativos e vimos que a pontuação foi mais positiva do que negativa. No entanto, aqueles que sonhavam mais com limpeza ficavam mais ansiosos nesse processo. Mesmo assim, o aspecto positivo era mais intenso. 

Eu morava em Natal, mas me divorciei durante a pandemia e vim morar no Rio de Janeiro, perto da minha família. Na mesma semana consegui encontrar apartamento no prédio da minha irmã. Mantenho meu trabalho de pesquisa pela UFRN [Universidade Federal do Rio Grande do Norte] e pela UFPE [Universidade Federal de Pernambuco], no Departamento de Física. Com essas duas afiliações eu já trabalhava muito de forma remota e nesse sentido a quarentena mudou pouco minha atividade. Segui até mais produtiva.

Tenho ajuda incrível de uma grande amiga que veio morar comigo e da minha irmã, e o segredo foi me estruturar dentro de uma rotina. Busco ser disciplinada, manter a divisão de tarefas e estar presente em cada momento. Não adianta eu pensar em trabalho quando tenho que faxinar a casa, nem na hora em que brinco com meus filhos. Um deles acaba de completar 10 anos e o outro tem quase 3. Tive que dar um celular ao mais velho, é o que ele usa para estudar. Tenho tentado deixar a adaptação deles se dar naturalmente ao novo normal.

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