guia do novo coronavirus
Imprimir PDF Republish

Celso Mauro Paciornik

…ssssssss

NASA J.P. Harrington (U.Maryland) and K.J. Borkowski (NCSU)Ente se expande em inquieta exultação.

Escoa o tempo ondulante aos solavancos por extensões dobras refluxos. A emanação se arroja para fora para longe a bolha esferoidal infla inexoravelmente insuflada pelo avanço irreprimível agora bem mais rápido que a expansão geral das coisas para o princípio e o fim, o centro e o extremo.

Ente reordena persistentemente as massas esvoaçantes de sua emanação sobrepondo subpondo envolvendo contrapondo entretecendo dados equações sensações memórias teorias significados em novas combinações estimulantes prazerosas aflitivas inquietantes.

Emanar preenche expande excita apavora engolindo tempos e espaços e outras tantas coisas inapreensíveis rumo ao extremo e ao âmago da expansão cósmica.

Emanar é a maneira inelutável, a potência em plenitude carregada de probabilidades possíveis e impossíveis incidentes acasos encontros, insuflada pelo sopro primitivo da rocha.

A memória da emanação revasculha incansável os turbilhões do acúmulo onipresente; incontrolável sensação de ancestral riso infantil percorre as reverberações do avanço.

Ente sente.

Ente infere compara deduz separa recombina noções certezas lembranças harmonias em novas percepções e possibilidades, as memórias de pó e vento e pedra e fonte se interpenetram agora com sobressaltos primais dos primeiros viventes espasmos multiplicadores da bactéria, lágrimas uivos espantos de primitivos êxtases, dúvidas angustiantes de primeiras inferências, vento assobiando em frestas, marulho de águas, farfalhar de folhas, estrondos de vulcões, tormentas silvos rugidos grasnidos trinados combinam-se e transformam-se com novas vibrações em harmonias mais e mais extasiantes.

Ente condensa na fina crosta inconsútil da bolha a memória absoluta das eras em todos seus infinitos rodeios enlaces desenlaces. Expansão se compraz comove e infla com a cósmica carga da acumulação abissal. Nada que foi está ausente, tudo que é se distende retesa no esforço condensado da busca.

Quantidades ínfimas e cósmicas, abstrações voláteis e densas, certezas sólidas e fugazes, dúvidas atrozes, credos inconstantes e impotentes se recombinam e reconfiguram no avanço incessante, mistérios engendrando mistérios, a memória organizada do caos.

Ente estremece sob os impulsos de um prazer muito antigo, feito o espanto no achado de uma solução de problema excruciante e o defrontar-se nos solavancos da expansão com as demais emanações no cosmos.

Uma recordação insistente de matéria mortal entremeia o deleite das equações se propondo e se resolvendo nas urdiduras do tempo. Razão virou crença e vice-versa; matéria continha limitava e expandia e transmutava energia e espírito em novas singularidades vitais. Angustiante mistério de uma suspeita de explosão primordial se enovela agora com novas provisórias certezas sobre antes e depois do princípio singular, antes do princípio, depois do fim, o que é o meio, é meio?

Agora.

A emanação se aferra ao presente da jornada inelutável.

Outras emanações no percurso traziam bagagens parecidas apenas apreensíveis, o espaço temporal de cada uma favorecia enleios e trocas provisórias e depois se rompiam e desfaziam-se os enlaces mas a emanação persistia ainda que levemente alterada. Ente sente.

Emanar é um perpétuo reordenar de lembranças e sensações noções certezas dúvidas lembranças longínquas de um balé de rochas celestes rodopiando em torno de um astro radiante, de moléculas inertes transmutando-se em moléculas instáveis irrequietas, em criaturas vitais e angustiadas numa busca incessante de perpetuidade, engendrando formas meios sistemas controles domínio e expansão, destruindo e reerguendo grupos e moradas, crescendo minguando adaptando-se depurando conflitos em acomodações e acertos, escapando à extinção prognosticada do rochedo natal para outras rochas cada vez mais distantes até o triunfo provisório mas estável de ente – condensação expansiva da matéria pensante da rocha primitiva natal emanando agora mais rápido que a expansão celestial.

Ente sente. Em alguma porção da emanação emerge uma noção de orgasmo. A busca já não parece infinita eterna interminável. A busca é apenas compulsão essência mesma da emanação expansiva, as fronteiras do encontro supremo parecendo se acercar perigosamente.

A superfície tensa da emanação estremece.

Ente ausculta a iminência de um desfecho de busca, de um confronto com o limiar da expansão.

Agora ente abarca na perpétua emanação a tão ansiada busca do extremo, o confronto com o limite, a angústia natural da plenitude potente se faz pavor do encerramento da busca, se confunde com o persistente deleite da expansão.

Razão e fé matéria e energia abstração e concretude alegria e dor espaço e tempo ordem e caos ser e não ser materialidade e transcendência, dicotomias espalhadas nos desdobramentos pregressos do ente se entrelaçam e se dissipam na iminência do desfecho.

A bolha se distende à beira do paroxismo do estouro.

A emanação se pergunta o que será a busca como surdamente já vinha se perguntando desde a consciência primordial na caverna dos tempos até o surgimento do ente.

Uma algaravia irreprimível de noções se entretece nas vastidões rarefeitas das entranhas da emanação expansiva em vibrações desarmônicas. Uma algaravia arrebatadora ecoa desde o vazio central da expansão até a superfície tensa inconsútil do avanço.

sens, sense, senso, sentido, sinn, smysl, fornuft, zin…

De repentino horror ente estremece na suspeita da proximidade do limiar da expansão. Intuição lhe instiga uma suspeita de vazio, um vazio onde sentido não se cria em nenhuma acepção, o enfim da busca seria o fim da emanação da expansão o estouro ou esvaziamento inevitável da bolha, memória absoluta do sopro interior.

Das revoltas vastidões vibrantes das entranhas da emanação, na irremissível solidão da sobrevivência, antigo eco de antiquíssima estrofe de um consultor de números e estrelas ecoando vibrações musicais inda mais ancestrais reverbera como um augúrio.

With Earth’s first Clay They did the Last Man’s knead,
And there of the Last Harvest sow’d the Seed;
And the first Morning of Creation wrote
What the Last Dawn of Reckoning shall read. *

* [O último dos mortais fê-lo a Argila primeira./ Da última safra então lançou-se a sementeira./ E escreveu o primeiro Albor da Criação/ O que lerá um dia a Aurora derradeira]. Tradução de Jamil Almansur Haddad do rubai (quarteto) atribuído a Omar Khayyam (c.1040 – c.1125) e traduzido para o inglês pelo poeta Edward Fitzgerald (1809-1883).]

Celso Mauro Paciornik é formado em Letras pela USP e tradutor de obras de William Faulkner, Joseph Conrad, Daniel Defoe, entre outras.

Republish