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Tecnologia consegue produzir mudas de citros livres de doenças

O Centro de Citricultura Sylvio Moreira, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), desenvolveu tecnologia de produção de variedades de plantas de alto valor genético e fitossanitário, de forma a garantir a qualidade dos pomares paulistas de citros. A tecnologia pressupõe a limpeza clonal de plantas via microenxertia e permitiu ao Centro estabelecer uma metodologia para eliminar a bactéria da Clorose Variegada de Citros (CVC), doença que atualmente é o principal problema da citricultura em São Paulo.

A importância desse trabalho pode ser medida pela expressão da citricultura como atividade econômica no estado: são 164 milhões de plantas, ocupando uma área aproximada de 630 mil hectares e produzindo anualmente 374milhões de caixas (40,8 kg) de frutos. Cerca de 71,5% dessa produção vai para a indústria de suco concentrado, do qual o Brasil é o maior produtor mundial, com 1,1 milhão de toneladas.

A FAPESP apoiou o projeto temático sobre Diagnóstico de Doenças e Limpeza de Patógenos de Clones Superiores de Citros através de Microenxertia, concedendo, entre 1992 e 1994, R$ 53 mil para o Laboratório de Biotecnologia do Centro. Em 1996 foram concedidos mais R$ 45 mil para a construção de duas estufas, chamadas pelos especialistas de borbulheiras, destinadas ao desenvolvimento de material de propagação. Uma delas já está funcionando e a segunda está em fase de implantação.

Propagação por meristema
De acordo com o pesquisador Marcos Machado, coordenador do Laboratório de Biotecnologia do Centro de Citricultura Sylvio Moreira, a limpeza clonal consiste em eliminar todos os patógenos da planta, garantindo o desenvolvimento de mudas sadias. Esse processo é obtido através da microenxertia. Inicialmente retira-se da planta matriz uma das pequenas protuberâncias que se salientam do caule, denomidas borbulhas ou meristemas: pequenos pedaços de tecidos que não têm conexão vascular com o resto da planta de onde foram retirados. A borbulha é enxertada in vitro num “cavalinho”, em laboratório, e a nova planta que começará a se formar no porta-enxerto estará livre de doenças, principalmente as de origem viral e bacteriana.

O Centro de Citricultura recolhe todas as borbulhas para a formação de suasmudas exclusivamente de plantas cultivadas num matrizeiro, mantido como um pequeno pomar protegido por tela e livre de contaminação. “Se a matriz estiver contaminada com a bactéria da CVC, todas as demais plantas também estarão. Temos que trabalhar com material livre de bactérias”, explica Machado. Do laboratório, a pequena planta é transferida para o porta-enxerto de limão-cravo e vai se desenvolver nas duas borbulheiras do Centro de Citricultura. As borbulheiras são estufas protegidas por telas e cuidadosamente desinfetadas, com capacidade para abrigar cerca de 5 mil plantas. Ali as mudas crescem livres de vírus, bactérias da CVC e cigarrinhas.

A primeira borbulheira do Centro de Citricultura Sylvio Moreira já está em operação há dois anos, produzindo para o mercado cerca de 500 mil mudas por ano. A segunda está em fase de instalação e deverá produzir em torno de 1 milhão. Todas as plantas de citros atualmente desenvolvidas no Centro e oferecidas aos citricultores são propagadas por esse processo. Mas o Centro não tem a pretensão de atender toda a demanda do mercado de citricultores. “A nossa meta é atingir a produção de 3 milhões de borbulhas por ano”, prevê Machado. Para isso, espera poder contar, em breve, com mais recursos para a construção de outra borbulheira.

De acordo com o pesquisador, o mercado paulista consome em média 15 milhões de novas mudas por ano. E a grande parte dos citricultores compra mudas dos mais de 1.500 viveiristas existentes no estado, a maioria dos quais produz em condições precárias. “A fragilidade das plantas está diretamente relacionada à tentativa dos produtores de baratear o custo de implantação dos pomares, sem os devidos cuidados fitossanitários ou controle de qualidade genético das mudas”, assinala Marcos Machado.

As doenças dos citros
A Clorose Variegada dos Citros CVC) tornou-se, nos últimos dez anos, o principal problema da citricultura paulista. A doença, causada pela bactéricasistêmica Xylella fastidiosa, é de fácil transmissão e ataca a copa da planta, já tendo aniquilado diversas áreas produtoras no norte do estado. Seu controle exige a poda das árvores infectadas e a substituição por mudas seguramente sadias, ou todo o pomar estará em risco.

Mas a Clorose não é a única doença que afeta essa cultura. Na verdade, há mais de 60 anos, os produtores paulistas convivem com graves problemas fitossanitários que, por várias vezes, dizimaram pomares. Eles ainda não ficaram livres da tristeza dos citros, que se tornou endêmica e de difícil controle, nem do declínio, da leprose ou da gomose.

Na década de 30, a gomose, doença causada por fungos que atacam o sistema radicular da planta, devastou a produção. A solução foi substituir o porta-enxerto, base de sustentação da copa, trocando o de laranja-doce , então usado, pelo de laranja-azeda.

Nos anos 40, foi a vez da tristeza dos citros, provocada por vírus. O desastre foi total: 12 milhões de plantas morreram ou tiveram que ser erradicadas. O virus, transmitido pelo pulgão preto, atacou o novo porta-enxerto. Os produtores recomeçaram do zero, usando porta-enxerto de limão-cravo. Hoje o controle é feito com variedades tolerantes e borbulhas e mudas sadias.

Dez anos depois, o exocorte, doença viróide do porta-enxerto limão-cravo, colocou novamente em risco a produção. A solução foi obter clones novos através de sementes de clones velhos, renovando os pomares. Na década de 60, quando começava a se consolidar o mercado internacional para o suco brasileiro, apareceu o cancro cítrico, causado por uma bactéria. Centenas de pomares foram erradicados, diversos municípios tiveram sua produção banida do mercado. Até hoje a erradicação das plantas é a única alternativa para o controle da doença, que pode ser prevenida com o plantio de variedades resistentes.

A ação das associações de produtores que se formaram nos anos 60 e o aumento da fiscalização da produção não foram capazes de impedir o aparecimento de nova praga: o declínio dos citros, na década de 70. O declínio é doença de etiologia desconhecida que ataca, principalmente, as plantas velhas. O jeito foi renovar os pomares e a atividade, até então considerada perene, passou a ser sazonal: plantas com mais de dez anos têm que ser substituídas. Também se desenvolveram variedades resistentes.

Nessa luta contra fungos, pragas e vírus, os produtores sempre contaram com o auxílio dos pesquisadores do IAC, por meio da sua Divisão de Citricultura e da Estação Experimental de Limeira, de cuja fusão resultou o Centro de Citricultura Sylvio Moreira. Foram esses pesquisadores que orientaram na substituição do porta-enxertos no combate à gomose, desenvolveram vacina contra a tristeza dos citros; criaram sistema de controles para conter o avanço do declínio, além de manterem serviço de diagnóstico e produção de planta de origem genética controlada.

Como se faz o diagnóstico
Para combater essas pragas, o Centro de Citricultura Sylvio Moreira mantém um Serviço de Diagnóstico Biológico de mais de 100 viroses, principalmente as que produzem a tristeza dos citros, a sorose, o exocorte e xiloporese. O sistema foi montado com apoio da FAPESP, que está concedendo adicionalmente R$ 138 mil para o desenvolvimento de um novo projeto temático: Pré-imunização de Matrizes contra Estirpes do Vírus da Tristeza.

Na identificação das doenças, o Centro realiza diagnósticos imunológicos e moleculares, utilizando o PCR (reação em cadeia por polimerase). “No caso da tristeza dos citros, o vírus é identificado por sorologia”, explica Marcos Machado. Mas a CVC, doença de mais difícil determinação, exige diagnóstico molecular, realizado a partir do DNA do patógeno. O PCR, reação química produzida por enzimas, permite a amplificação de fragmentos do DNA do organismo e torna possível verificar se ele tem a doença. O DNA é ampliado em termocicladores.

O Centro de Citricultura realiza também análise de frutos e sucos, promove palestras técnicas e seminários científicos, e ainda coloca à disposição dos produtores borbulhas sadias e de variedade geneticamente superiores e sementes de porta-enxertos.

O Centro conta com 11 técnicos, funcionários do Instituto Agronômico de Campinas, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento; 2 pesquisadores bolsistas do CNPq, além de estagiários de cursos de mestrado e doutorado. Mantém ainda projeto com as indústrias de suco que lhe permitiu assegurar o quadro de técnicos de laboratório. Mais recentemente, o Centro foi qualificado como Núcleo de Excelência pelo Pronex (Programa de Apoio aos Núcleos de Excelência) do Ministério de Ciência e Tecnologia.

“O grande diferencial do Centro é que trabalhamos diretamente com toda a cadeia produtiva de citros”, diz Joaquim Teófilo Sobrinho, diretor do Centro de Citricultura. “Os problemas do setor são discutidos em conjunto e desses debates é que são definidas as nossas prioridades de atuação”.

Gerando riqueza e empregos

Os mais de 20 mil produtores paulistas de citros fornecem matéria-prima para 22 indústrias processadoras de suco de laranja, cujas exportações respondem por um faturamento anual de cerca de U$ 1,2 bilhão, excluindo-se a receita de venda das frutas in natura no mercado nacional.

A citricultura movimenta a economia de 204 cidades na região central e norte do Estado de São Paulo. Tem peso fundamental no volume do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviço devido a esses municípios. Além de riqueza, os pomares e as indústrias geram cerca de 400 mil empregos diretos, desde a produção, assistência técnica, adubação, até o transporte e embarque do produto. Empregam outros milhares de trabalhadores rurais, entre junho e outubro, período da colheita da fruta.

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