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Literatura

Tradição sem impasse

Brasil perde um intelectual de verdade, à moda antiga: João Alexandre Barbosa

FRANCISCO EMOLO / JORNAL DA USPJoão Alexandre no escritório: um mestre das releiturasFRANCISCO EMOLO / JORNAL DA USP

Transformou-se em lugar-comum chamar um professor universitário, seja ele ou ela quem for, de intelectual. A palavra perdeu o seu impacto e, em muitos casos, reduziu-se a sua literalidade léxica: alguém com intelecto, alguém que pensa sobre um assunto. Talvez, pela ausência de verdadeiros intelectuais, preferiu-se rebatizar os acadêmicos com o título, antes um privilégio de poucos e, hoje, de pouquíssimos. Pois acabamos de perder um desses “bichos em extinção”: o professor João Alexandre Barbosa, morto no mês passado, aos 68 anos, em São Paulo, vítima de uma série de complicações renais que se seguiram a um AVC sofrido no início deste ano. “João Alexandre era intelectual de espécie bastante rara hoje. Estudioso da literatura, nunca se deixou deslumbrar pelas últimas teorias da moda. Em suas aulas e palestras assistia-se à transformação do conhecimento e da erudição em possibilidade de aprendizado e de apreciação de escritores”, escreveu a professora de teoria literária Regina Zilberman, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Essa mágica é coisa de poucos magos. Como Antonio Candido, por exemplo, seu orientador e responsável pela sua vinda para São Paulo, deixando Recife (onde nasceu em 1937), para ser assistente na Universidade de São Paulo (USP), logo após o golpe de 1964. Eis os intelectuais, de verdade, capazes de reler e redescobrir, sem alardes e modismos, o que se esconde por detrás das grandes obras literárias. Capazes de pensar o país e entender suas sutilezas. Capazes de pensar grande, mesmo que escrevendo de maneira humilde, acessível, gentil. João Alexandre começou como advogado, formado na Faculdade de Direito do Recife, mas não exerceu a profissão. Preferiu aventurar-se pelo jornalismo literário, escrevendo no Jornal do Commercio de Pernambuco. A paixão pelo texto levou-o a integrar a equipe docente fundadora do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco. Lá, convidado por Luiz Beltrão, desenvolveu mais uma das virtudes de um intelectual de verdade: a capacidade de ensinar com prazer e amar o que fazia.

Anos mais tarde, como contou num texto para a Folha de S. Paulo, já aposentado, foi procurado por um ex-aluno que lhe oferecia um posto numa universidade particular e um salário que era o dobro da aposentadoria que recebia da USP. Rejeitou. “Eu não queria ser viciado num salário que não fosse resultante do trabalho que, durante mais de 30 anos, consumira minha vida física, intelectual, afetiva e emocional, pois não me aposentara para ganhar mais, e sim para poder aproveitar aquilo que, porventura, ainda me restava de vida intelectual útil, realizando algumas coisas que a agitação da vida de um professor tornava difícil ou mesmo impossível de cumprir.” Ah, sim. Grandeza é outro atributo dos reais intelectuais.

Não parou de lecionar por três décadas. Iniciou a carreira em 1963, em Recife, em 1965 estava na turma que formava a Universidade de Brasília. A coisa durou pouco. No mesmo ano, ao lado de 200 colegas, foi expulso da faculdade pelo regime militar. Daí a boa vontade com que aceitou o convite de Candido para a USP, onde chegou em 1966. “Mas eu não era um orientando comum, não. Já era bem madurinho e sabia me virar”, brincava ao lembrar de seu doutorado, concluído em 1970 (com bolsa da FAPESP, que também lhe concederia a oportunidade de um pós-doutoramento na Universidade Yale, nos Estados Unidos). Suas releituras sobre José Veríssimo, retomadas em 1975 em A tradição do impasse, foram fundamentais para que se repensasse a visão da história da literatura brasileira. Um ano antes, assumiu a cadeira de teoria literária. Gostava de contar que a bolsa da FAPESP o ajudara a sustentar não apenas o intelecto, mas uma família de quatro pessoas. Em 1980 era professor titular de teoria literária e literatura comparada da USP, onde excerceu diversos cargos.

O mais notável deles foi a presidência da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), de 1988 até sua aposentadoria, em 1993, aos 56 anos. Fez da Edusp um marco editorial. “Quando eu assumi, a Edusp era uma co-editora e se limitava a emprestar o selo e o prestígio da USP para editoras privadas ganharem dinheiro”, contou numa entrevista. Democrata empedernido, só aceitou ser diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da universidade paulista após ser eleito pelos três corpos acadêmicos. Daí a sua negativa em se candidatar a reitor se não fosse por eleição direta, ainda que as pesquisas o indicassem como favorito. “Não tenho paciência para essas coisas”, dizia. Preferia ações concretas à política dos gabinetes e saiu da FFLCH para assumir a pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária, onde criou projetos referenciais como o Nascente, o Universidade Aberta à Terceira Idade e o Cinusp, bem como a reorganização da Comissão de Patrimônio Cultural da USP. O Nascente, o mais notável dentre eles, nasceu de sua vontade pessoal.

Nascente
Procurado por Juca Kfouri, da Editora Abril, que buscava um projeto para patrocinar, Barbosa reuniu a oferta com a demanda. Poucos dias antes de se encontrar com Kfouri, um aluno se queixara da dificuldade de encontrar espaços para apresentar seus talentos artísticos. A costura feita resultou no Nascente. Quando se aposentou, a Abril quis encerrar a parceria, mas a insistência de Barbosa manteve o projeto funcionando e revelando gente como Fernando Bonassi ou José Roberto Torero. A primeira edição do prêmio arrancou uma declaração forte de Chico Buarque: “Se houvesse projetos assim quando eu estava na FAU, jamais teria saído da faculdade”.

Depois de deixar a USP, escreveu ainda mais quatro livros: Biblioteca imaginária, Entrelivros, Alguma crítica e João Cabral de Melo Neto, da série Folha Explica. O poeta, aliás, foi a grande descoberta e paixão de João Alexandre, desde a mocidade, quando todos preferiam a riqueza exuberante do texto de Gilberto Freyre à secura de João Cabral, que teve em Barbosa um dos seus maiores intérpretes. Deixou um livro inédito sobre outra de suas paixões, o francês Paul Valéry, que deve ser publicado pela Editora Iluminuras. “Ele fará falta para a literatura e a cultura brasileiras”, diz Davi Arrigucci Jr., professor de teoria literária da USP. ?Foi um pesquisador exemplar da teoria e da história da crítica literária do Brasil, assim como da poesia moderna e contemporânea: dedicou estudos de qualidade aos poetas modernistas, a João Cabral, aos concretistas, a Sebastião Uchoa Leite e a muitos outros mais. Foi ótimo professor de literatura, cujo estudo motivava com voz calorosa e entusiasmo; seus ensaios críticos dão a medida de suas leituras. Cuidou do livro como objeto cultural e estético; sua gestão na Edusp o comprova. Acima de tudo, porém, lamento a ausência do amigo, de quem sinto pessoalmente a falta.” Com seu jeito manso, bem-humorado, sempre de cachimbo na boca, ensinando de modo fácil a literatura mais difícil, João Alexandre era um intelectual. Restam poucos.

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