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Obituário

Tradutor de sutilezas

Primeiro no Brasil a verter a obra de Franz Kafka para o português, Modesto Carone morre aos 82 anos

Arquivo pessoal

Ensaísta e escritor, Modesto Carone Netto foi professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Pioneiro, no país, a traduzir as obras do escritor tcheco de língua alemã Franz Kafka (1883-1924) diretamente para o português, ele morreu no dia 16 de dezembro, aos 82 anos, em São Paulo, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória.

“As traduções de Carone apresentam características e sutilezas dos textos de Kafka que apenas quem pode ler no original consegue captar”, analisa Marcus Mazzari, do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP). Tal nível de excelência, avalia Mazzari, foi possível não apenas pelo domínio do idioma, mas também devido aos anos de convívio com o estilo do escritor, que Carone começou a ler na graduação, em traduções do alemão feitas para o inglês. “O alemão de Kafka é diferente daquele utilizado por outros autores que escrevem nesse idioma. Era o alemão de Praga, com várias particularidades, de maneira que seus livros apresentam um estilo protocolar, sóbrio e exato, que Carone conseguiu trazer para as obras vertidas ao português”, afirma. De acordo com Mazzari, antes do trabalho de Carone, a obra de Kafka circulava no Brasil em traduções de Torrieri Guimarães (1933-2009), que não foram feitas do alemão e não captavam o estilo do escritor tcheco. “As versões desenvolvidas por Carone foram decisivas para o processo de recepção de Kafka no país”, analisa o professor da USP.

Márcio Seligmann-Silva, professor de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, explica que as traduções de Carone evidenciam a “dicção de cartório” do alemão utilizado pelo autor tcheco. “As versões de livros de Kafka feitas para o espanhol pelo escritor argentino Jorge Luis Borges [1899-1986], por exemplo, possuem linguagem mais sofisticada, enquanto as do brasileiro trazem para o português uma pobreza de léxico utilizada pelo tcheco como recurso estilístico”, compara.

De Kafka, Carone traduziu para o português Um artista da fome/A construção, A metamorfose, O veredicto/Na colônia penal, Carta ao pai, O processo, Um médico rural, Contemplação/O foguista, O castelo e Narrativas do espólio. Para Mazzari, a tradução de O castelo, em 2000, foi o ponto alto de seu projeto, que se iniciou em 1983 e envolve os nove livros publicados pela Companhia das Letras.

Formado em direito e letras anglo-germânicas pela USP, Carone mudou-se para a Áustria em 1965 para lecionar português e cultura brasileira na Universidade de Viena. Mazzari recorda que o tradutor teve suas primeiras aulas de alemão na USP com um professor que utilizava exatamente a obra de Kafka para ensinar o idioma. “As obras do tcheco apresentam frases sintaticamente menos complexas, se comparadas com as de outros autores que escrevem em alemão, como Thomas Mann [1875-1955] e Hermann Hesse [1877-1962], sendo consideradas ideais para quem está começando a aprender a língua”, diz Mazzari. No retorno ao Brasil, em 1973, Carone tornou-se livre-docente da USP. “Tive meu primeiro contato com ele em 1979, quando era estudante de letras e organizei, com colegas, um evento sobre teoria crítica. Na ocasião, Carone falou sobre Walter Benjamin [1892-1940] e Georg Lukács [1885-1971].”

Em 1977, Carone foi convidado por Antonio Candido (1918-2017) a lecionar teoria literária no então recém-criado IEL, da Unicamp. “Como germanista do instituto, ele começou a ministrar aulas sobre literatura alemã com o conhecimento profundo que adquiriu em sua passagem por Viena, algo muito raro no Brasil naquela época”, recorda Seligmann-Silva. Em 2012, Carone doou parte de seu acervo pessoal ao Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio (Cedae) da Unicamp. Nele, há escritos originais e documentos relativos às suas atividades intelectuais e acadêmicas, além de 4 mil livros de literatura que faziam parte de sua biblioteca pessoal.

Carone também publicou quatro livros de contos e um romance, Resumo de Ana, que venceu o Prêmio Jabuti, em 1999. Mazzari, da USP, lembra que Alfredo Bosi, em História concisa da literatura brasileira, identifica forte influência de Kafka na obra literária de Carone, caracterizando seus contos como “cristalinos e perturbadores”, portando “o segredo de um realismo ardido e contido, capaz de enfrentar as pancadas do absurdo”, diz. Carone editou, ainda, estudos sobre poesia alemã, incluindo Metáfora e montagem, de 1974, sobre a obra de Georg Trakl (1887-1914), e A poética do silêncio: João Cabral de Melo Neto e Paul Celan, de 1979, entre outros trabalhos. Em 2009, recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) de melhor livro de ensaio/crítica por Lição de Kafka.

Mazzari conta que havia a intenção de Carone de publicar o romance O desaparecido, os diários e as cartas que Kafka escreveu à sua noiva, Felice Bauer (1887-1960). “Ele considerava que essa correspondência poderia ser lida como uma obra de ficção”, diz. Já Seligmann-Silva defende a necessidade de estudos que revisitem a produção literária de Carone, evidenciando os reflexos de seu trabalho como tradutor nesse aspecto de sua trajetória.

Nascido em Sorocaba, interior de São Paulo, em 1937, Carone deixa dois filhos e quatro netos.

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