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Economia

Um banco com toda a cara do Brasil

Tese esmiuça mudanças pelas quais o BB passou, entre a dualidade de dar conta do mercado e, ao mesmo tempo, ser a caixa do governo

EDUARDO CESARPorta do cofre da primeira sede de São Paulo: dificuldades com as reformasEDUARDO CESAR

Durante décadas, o Banco do Brasil foi sinônimo de identidade nacional, de estabilidade financeira e de uma perspectiva de futuro inabalável para seus funcionários, integrantes de uma elite invejável de trabalhadores brasileiros. Nos anos 90, entretanto, com o processo de liberalização da economia iniciado pelo governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992) e intensificado pelas duas gestões de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), a imagem do Banco do Brasil foi alterada de forma absoluta. O pico ocorreu em 1995, com o processo de reestruturação na forma de um amplo Programa de Desligamento Voluntário (PDV).

“Esse programa de demissão foi como uma metáfora das mudanças ocorridas no país, naquele momento”, diz Lea Carvalho Rodrigues, autora da tese Banco do Brasil: Crise de uma Empresa Estatal no Contexto de Reformulação do Estado Brasileiro, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O Banco do Brasil tinha um significado no imaginário brasileiro, como instrumento de desenvolvimento da nação e a estabilidade do emprego no BB, nas palavras de seu então diretor de Recursos Humanos, era um valor nacional. Com a reestruturação, esses valores foram postos em xeque.”

O trabalho acompanhou as mudanças no banco, no período de 1995 a 2000, e registra o momento mais significativo das rupturas da instituição com seus funcionários e com a própria sociedade brasileira, na busca por redução de custos e de melhoria de resultados. Essa modernização teria alterado a própria missão do banco, que como toda estatal tinha uma duplicidade de papéis: uma atuação nos moldes de empresa privada, voltada ao lucro e à competição e, ao mesmo tempo, de empresa pública, atrelada aos interesses de governos e sujeitas a cobranças de concretização de objetivos sociais.

“A função do banco era promover o desenvolvimento do país. Com as políticas neoliberais dos anos 90, a missão passou a ser a de contribuir para o desenvolvimento da nação. Ou seja, contribuir significa aqui agir apenas como qualquer empresa: gerar lucro e, dessa forma, promover o desenvolvimento nacional”, nota Lea, que iniciou a pesquisa com o projeto temático desenvolvido na Unicamp Cultura Empresarial Brasileira: Um Estudo Comparativo sobre Empresas Públicas, Privadas e Multinacionais, coordenado pelo professor Guilhermo Raul Ruben e financiado pela FAPESP. Ruben foi quem orientou sua tese de doutorado.

A mudança estratégica do Banco do Brasil tinha como meta abandonar sua vocação original e secular de ser um banco estatal no “estilo antigo”, passando a enveredar pelo caminho da competitividade, uma das palavras-chave para entender o movimento macroeconômico dos anos 90. A década foi marcada pela cisão com o projeto desenvolvimentista de outrora em favor do capital especulativo, com a implantação de políticas de liberalização que almejavam um padrão de crescimento centrado numa nova inserção internacional e na redefinição do papel do Estado, combinados com a estabilidade proposta pelo Plano Real. O Banco do Brasil serviu, portanto, como um dos sustentáculos dessa nova política econômica. Declarações do presidente do banco, na época, justificavam as medidas de reestruturação do pessoal do BB como um projeto nacional, que significava uma relação diferente e bem menos estreita do Estado com a sociedade.

“As alterações do Banco do Brasil faziam parte do programa do presidente Fernando Henrique Cardoso de conter o movimento sindical no setor estatal. Em 1995, o governo federal tentava aprovar reformas complexas, como a previdenciária, a tributária e a administrativa, e tudo indica que, ao quebrar a estabilidade dos funcionários do Banco do Brasil, objetivava conduzir mais facilmente essas reformas, que também exigiam uma alteração paradigmática em culturas bastante arraigadas”, explica a pesquisadora. “O Banco do Brasil foi estratégico para essa reforma do Estado”, prossegue.

A reestruturação do BB fazia parte de uma orientação vinda de organismos internacionais para reformulação do setor financeiro, cujo processo iniciou-se no governo de José Sarney (1985-1989). Essas diretrizes apontavam que era preciso adequar o sistema financeiro à nova ordem mundial, com a abertura do mercado ao setor externo e a privatização de bancos estaduais e federais.

Com tais mudanças, o setor financeiro brasileiro alterou completamente suas feições. Houve a privatização de muitos bancos estatais e o enfraquecimento dos pequenos bancos privados, que foram adquiridos por grandes grupos financeiros num amplo processo de fusões e aquisições. Ao mesmo tempo, esses mesmos grupos começaram a se sentir ameaçados pela entrada de companhias estrangeiras no país.

Diante da força dessas instituições estrangeiras, uma outra discussão, também antiga, ficou mais moderada nos gabinetes do poder executivo: a privatização do Banco do Brasil. “No fim dos anos 90, com o avanço dos bancos espanhóis, parece que renasceu um certo nacionalismo e a idéia de privatização perdeu força. Agora, com o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a tendência é que esse tema não tenha tanta relevância”, acredita Lea. “Mesmo assim, acho que a crise de identidade do banco é séria. O BB só tem sentido se tiver ligado a um projeto de nação. Caso contrário, não faz sentido estar nas mãos do Estado”, continua a pesquisadora.

Déficit
A modernização do BB não implicava apenas a demissão de funcionários. Paralelamente ao PDV, o banco anunciou o encerramento das atividades de 103 agências de um total de 600 unidades deficitárias, a maioria no Norte e Nordeste do país. O fato provocou reações de insatisfação nas comunidades locais, que acionaram seus representantes no Congresso para negociar as medidas. Muitos parlamentares afirmavam queo fechamento das agências comprometeria a possibilidade de desenvolvimento das regiões carentes em razão do tradicional caráter do banco como fomentador do desenvolvimento local.

A movimentação contra as demissões e o fechamento das agências levou o presidente da República a se manifestar a favor das medidas com o argumento de que, se elas não fossem efetivadas, o BB iria à falência. “Nesse período, o banco estava com a informatização precária e a situação era caótica em termos administrativos. A inovação tecnológica só veio a ocorrer três anos depois, em 1998”, explica Léa.

Um dos argumentos para a reestruturação do BB foram os prejuízos apresentados pela instituição no período pós-Plano Real, o que causou uma perda de 87% nas receitas do banco, apenas no segundo semestre de 1994, média bem superior a de outros bancos. “O Banco do Brasil tinha de manter operações em dólar no exterior para que o governo pudesse honrar seus compromissos externos, em vez de aplicar esses recursos no mercado interno, ganhando com a valorização cambial e com as altas taxas de juros então vigentes”, observa.

É bem verdade que o BB fechou o ano de 2002 com lucro líquido de R$ 2,028 bilhões. O resultado é 87,4% superior ao lucro de 2001. A rentabilidade sobre o patrimônio líquido médio do ano foi de 22,6%. Apenas no quarto trimestre, o lucro líquido cresceu 80,7% em relação ao intervalo equivalente do ano passado e somou R$ 600 milhões. Mas o impacto para se chegar a essas cifras passou por alguns momentos dramáticos. A reestruturação implicou uma queda brusca no número de clientes. Em 1994, havia 20 milhões de correntistas e dois anos depois passou para 6 milhões. Apenas no fim de 2001, chegou a 10 milhões de clientes, a metade do que havia seis anos antes.

Estabilidade
Em 1995, foram registrados também 12 ocorrências de suicídio de funcionários do banco, sendo quatro delas durante a plena execução do PDV, iniciada apenas no segundo semestre daquele ano. De acordo com a tese, a estabilidade dos funcionários do BB tinha uma importância para o futuro profissional de seus funcionários, com garantia de salários e benefícios, possibilidade de ascensão na carreira, adequação dos interesses da empresa ao funcionário, o que oferecia também segurança na vida particular.

“O banco era uma extensão da casa. E, se por um lado pode-se dizer que essa estabilidade gerava tranqüilidade, em muitos casos acomodação, em outros, dificuldades para inovação, mas é também verdade que esses vínculos estreitos com a empresa geravam um alto grau de comprometimento e dedicação”, analisa Lea.

Mesmo com críticas e crises, o Programa de Desligamento Voluntário foi considerado um modelo internacional de sucesso pela forte adesão. Alcançou 80% do pretendido pela empresa. No primeiro momento, foram desligados cerca de 13 mil funcionários e, dois anos mais tarde, a redução do quadro era da ordem de 43 mil funcionários, ou 37% em relação a 1994.

Para Lea Carvalho Rodrigues, as mudanças do BB refletem as alterações do próprio país, na égide da volatilidade dos mercados e da economia internacional. “Mas, apesar de suas alterações, o BB ainda é o retrato do Brasil”, conclui a pesquisadora.

A foto do cofre do Banco do Brasil na sua primeira sede em São Paulo, página 107 de Pesquisa FAPESP, está invertida.

O projeto
Banco do Brasil: Crise de uma Empresa Estatal no Contexto da Reformulação do Estado Brasileiro (nº 97/11257-8); Modalidade Bolsa de doutorado; Orientador Guilhermo Raul Ruben – IFCH/Unicamp; Bolsista Lea Carvalho Rodrigues – IFCH/Unicamp

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