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Carta do editor | 46

Um belo trabalho da Fundação Seade

Um retrato novo, nítido e absolutamente revelador da economia do Estado de São Paulo, tão claro em cada parte que permite infindáveis recortes e aumento do foco sobre os detalhes que mais de perto interessem a cada observador, acaba de ser oferecido pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados – Seade a gestores do setor público e de empresas privadas, economistas, pesquisadores, políticos de qualquer extração e interessados em geral em decifrar que Estado é esse – que carrega a responsabilidade e a honra de ser o maior gerador do PIB brasileiro. Esse retrato está na PAEP- Pesquisa da Atividade Econômica Paulista, um poderoso banco de dados que se materializa num CD-ROM acessível a qualquer interessado.

A PAEP é, em resumo, um enorme conjunto de indicadores sobre a estrutura contemporânea e a modernização da indústria e do comércio paulistas (a agropecuária está fora da pesquisa). São indicadores que permitem o cruzamento de mais de mil variáveis, ao sabor dos interesses dos estudiosos. E por sua qualidade intrínseca, por seu particular significado num universo antes tão pobre em estatísticas confiáveis, e pelas possibilidades que seus dados abrem tanto para a formulação de políticas realmente adequadas ao atual cenário paulista quanto às mais diversas pesquisas e estudos, ela terminou se impondo como tema da capa da edição 46 do Notícias FAPESP , entre algumas outras alternativas possíveis. Isso, mesmo com a FAPESP tendo responsabilidade apenas parcial no financiamento de R$ 5 milhões para a PAEP: o apoio da FAPESP traduziu-se em R$ 1,1 milhão, a FINEP -Financiadora de Estudos e Projetos entrou com US$ 500 mil e o resto foi bancado pela própria Fundação Seade, vinculada à Secretaria Estadual de Economia e Planejamento.

Adiantamos aqui apenas que o setor industrial, extraordinariamente complexo e diversificado, responde, em comparação com o comercial, por quase 80% do valor adicionado do Estado (valor bruto da produção menos custos e despesas diretamente relacionados à atividade produtiva); que as pequenas empresas, com até 100 empregados, têm uma presença notável na atividade econômica neste estado; que a economia paulista ainda está fortemente concentrada na Região Metropolitana de São Paulo; e que essa concentração é particularmente alta quando se examinam os segmentos de tecnologia avançada. Muito mais deixamos para o leitor descobrir na matéria que começa na página 27.

Antes de nos decidirmos pela PAEP, a mais forte candidata a capa desta edição era a matéria que começa na página 18, sobre uma importante pesquisa de marcadores biológicos e prognóstico de câncer de pulmão, objeto de um projeto temático. Marcadores biológicos são determinadas moléculas encontradas na célula tumoral que podem ser detectadas por meio de técnicas laboratoriais simples. Alguns são mais eficazes para prever o comportamento biológico de determinado subtipo de tumor, outros funcionam melhor em um subtipo diverso. A pesquisa feita em São Paulo, com testes bem-sucedidos com pacientes operados no Hospital das Clínicas, foi na direção de montar um modelo matemático baseado em combinações de marcadores que revela, com um alto grau de proximidade, a realidade evolutiva do tumor em cada caso estudado. Embora o modelo não seja 100% eficaz, os resultados obtidos fornecem importantes informações para nortear o tratamento do paciente, estimar sua sobrevida e, principalmente, melhorar sua qualidade de vida nesse período. Como se sabe, o câncer de pulmão, que os especialistas acreditam ter como causa, em 90% dos casos, o tabagismo, é uma das neoplasias de mais difícil controle e de mais elevada taxa de mortalidade. No Brasil, detectaram-se no ano passado 20 mil novos casos da doença e registraram-se 12,7 mil mortes por câncer de pulmão.

Esta edição traz também uma entrevista com o cientista laureado com o Nobel de Fisiologia e Medicina de 1993, doutor Philip Sharp. Na condição de consultor do Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, Sharp esteve em São Paulo, em setembro, para participar de uma reunião do Comitê de Supervisão do Projeto Genoma Humano do Câncer, e com muita simpatia concordou em conceder a entrevista que começa na página 14. Nela, ele discorre sobre as sensações que perpassaram seu espírito no momento mesmo em que percebeu que fizera a descoberta notável dos split genes – que derrubou a idéia do gene como um segmento contínuo dentro de longas moléculas de DNA, permitiu aos cientistas, mais adiante, a compreensão de que a estrutura mais comum encontrada em organismos complexos envolve a descontinuidade, com trechos irrelevantes de DNA, chamados íntrons, separados por trechos relevantes, chamados exons, e garantiria a Sharp, 13 anos depois, a conquista do Nobel. “Foi como se eu estivesse grávido”, contou ele. Sharp também fala sobre a alegria de receber o Nobel, que, sem disfarces, classifica como uma das maiores experiências de sua vida. E quanto ao projeto brasileiro do Genoma-Câncer, manifesta a esperança de que os dados aqui obtidos acrescentem informações sobre os padrões de splicing alternativo que investiga.

Queremos destacar também, nesta edição, a matéria sobre o Programa de Pesquisas em Políticas Públicas, lançado no ano passado e que agora, com 61 projetos já aprovados, passa efetivamente ao campo da prática. Uma cerimônia no dia 7 de outubro, no Palácio dos Bandeirantes, com a presença do governador Mário Covas, está marcada para assinalar esta passagem. Em nossa visão, esse programa intensifica a parceria das instituições paulistas de pesquisa e da FAPESP com múltiplos organismos do setor público, aprofundando o compromisso essencial da pesquisa científica em São Paulo com o desenvolvimento e o bem-estar social.

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