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Um caminho para o mundo

Um respeitável avanço tecnológico vai marcar, com antecedência, os dez primeiros anos de funcionamento, no Brasil, das linhas internacionais de comunicação entre computadores, que, em poucos anos, se integraram para constituir a rede Internet, atualmente um meio indispensável de pesquisa científica. A partir deste mês de março, cabos de fibra óptica estarão substituindo os fios de telecomunicações que integram a Rede ANSP (an Academic Network at São Paulo), a pioneira no estabelecimento dessas conexões no país e um dos pólos da Internet no Brasil, criada e gerenciada pela FAPESP para interligar os computadores das instituições de ensino e pesquisa do Estado de São Paulo entre si e com outros Estados e países.

A fibra óptica, dada sua grande capacidade de compactação, permite a transmissão de dados em uma banda superior a 500 Megabits por segundo (Mbps). Por uma limitação dos equipamentos de interface, a Rede ANSP estará usando uma banda de 34 Mbps. Só a título de comparação, a Rede transmite, hoje, com linhas de banda máxima a 2 Mbps. Os ganhos de rapidez de transmissão são, portanto, óbvios, mas a fibra óptica tem ainda outras vantagens. “A maior vantagem da fibra óptica é a sua imunidade a interferências elétricas ou magnéticas, garantindo uma transmissão de dados isenta de ruídos”, diz Hartmut Richard Glaser, assessor da presidência e coordenador da Rede ANSP da FAPESP.

Haverá também, lembra ele, um salto na segurança e na confiabilidade no tráfego de informações. É um quadro até certo ponto inesperado para essa rede que começou a ser desenhada em 1987 e há dez anos dava os primeiros passos, com a entrada em operação nas linhas internacionais de comunicação entre computadores. A primeira dessas conexões, inaugurada em agosto de 1988, colocava a FAPESP em conexão com o laboratório de física nuclear Fermilab, de Illinois, Estados Unidos. Vieram outras, logo a seguir. Dois meses mais tarde, em outubro de 1988, a ANSP se tornou a primeira rede da América do Sul a ingressar na Bitnet e, no início do ano seguinte, na Hepnet.

Tanto a Bitnet quanto a Hepnet eram redes modestas, cujos usuários se situavam basicamente em universidades. “A própria Internet era então uma rede pequena”, diz Demi Getschko, um dos criadores da Rede ANSP, ex-gerente de informática da FAPESP, atualmente diretor de tecnologia da Agência Estado e membro do Comitê Gestor da Internet-Brasil.

Foi a Internet, porém, a rede que mais cresceu, até se tornar o gigantesco emaranhado de computadores ligados a linhas telefônicas, que, só no Brasil, deve abrigar 1,5 milhão de usuários até o final deste ano. Superando as expectativas, a Internet revolucionou o sistema de comunicação no mundo, ao permitir, a qualquer pessoa, a pesquisa de praticamente qualquer assunto em instituições do mundo inteiro e a troca instantânea de correspondências, por meio dos chamados endereços eletrônicos (ou e-mail).

A Rede ANSP também cresceu em paralelo. Ela foi a primeira rede brasileira a integrar-se à Internet, em fevereiro de 1991. Com essa conexão, estabeleceu um acesso internacional não só para os centros de pesquisa paulistas como, também, para as instituições conectadas à Rede Nacional de Pesquisas (RNP), criada em 1989 pelo CNPq (Conselho Nacional Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para interligar as redes acadêmicas estaduais. Foi também em 1989 que a ANSP, por determinação do próprio CNPq, tornou-se um ponto de presença (POP) interestadual da RNP para as comunicações com outros países.

A ANSP é, atualmente, um dos cinco pontos de contato da Internet brasileira com o exterior, para as redes acadêmicas, com capacidade quatro vezes superior aos outros quatro, localizados no Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Belo Horizonte, todos com uma única linha de 2 Megabits por segundo.

A rede da FAPESP funciona, hoje, como ponto de acesso internacional à Internet, não só para quase 200 instituições de ensino e pesquisa paulistas, como também, através da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), para universidades e centros de pesquisa dos três Estados da Região Sul, além de Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste. “A ANSP é a RNP em São Paulo”, resume Glaser.

Crescimento contínuo
No ano de 1990, pouco depois de ter iniciado sua atuação, toda a comunicação da Rede ANSP com os Estados Unidos era feita por um link de 9.600 bits por segundo, uma capacidade considerada atualmente irrisória até mesmo para a ligação dos computadores residenciais. Em oito anos, a capacidade de tráfego de informações cresceu cerca de 1000 vezes.

A Rede ANSP conta atualmente com quatro linhas de 2 Megabits por segundo (cada uma delas poderia transmitir ou receber, por exemplo, uma tese de doutoramento ou um catálogo de 400 páginas, sem figuras ou imagens, em aproximadamente seis segundos).Ainda há uma certa folga. Nos momentos de maior uso, o tráfego da rede pode atingir 7,0 Megabits por segundo. Porém, para evitar iminentes congestionamentos de informações, dado o crescimento contínuo do tráfego, a FAPESP já anuncia que mais duas linhas de 2 Mbps devem entrar em operação ainda no primeiro semestre deste ano.

Ampliações de capacidade de tráfego, a rigor, não são mais novidade. Historicamente, desde abril de 1995, quando foi instalada a primeira das linhas de 2 Mbps, a cada ano entram em operação mais uma ou duas novas linhas da mesma capacidade. “Não podemos descuidar dos links internacionais de acesso à Internet em momento algum e, de fato, precisamos dobrar a capacidade a cada ano”, diz o assessor da FAPESP.

Um rodoanel do tráfego de dados
O pioneirismo da FAPESP no estabelecimento e administração de uma rede de comunicação por computadores – a ANSP foi a primeira rede brasileira a integrar-se à Internet, em fevereiro de 1991 – fez com que a Fundação fosse escolhida para ser a instituição responsável pelos registros de domínio (endereços) e distribuição de IPs no país.

Não é uma tarefa fácil, dado o crescimento vertiginoso da Internet. Em janeiro de 96, havia na rede 10.000 endereços (ou domínios), que passaram a 30.000 no ano seguinte e atingiam 36.000 no final de fevereiro deste ano. Como por dia chegam, em média, 100 solicitações de endereços novos à FAPESP, a estimativa é de que, nesse ritmo – que se prevê aumentar durante o ano – o total de domínios deve chegar a entre 80.000 e 100.000, até o final de 1998. A chamada área comercial é predominante, com 34.000 endereços (94% do total) registrados até o início de março. As universidades e institutos de pesquisa respondem por 420 endereços (1,15% do total).

A comunicação entre estes dois conjuntos de usuários não foi, no início, das mais simples. Para um usuário comercial de São Paulo entrar em contato com uma universidade paulista era necessário conectar-se primeiro com a Embratel, no Rio, ou com um provedor dos Estados Unidos, por meio de uma linha internacional, que por sua vez faria a ligação com São Paulo. O caminho ficou menor quando a FAPESP tornou-se o ponto de convergência das redes paulistas. Na linguagem técnica, é um Ponto de Interconexão de Redes (PIR) no Estado de São Paulo, como resultado de um acordo estabelecido com a Embratel e outros provedores de acesso. Numa figura comparativa, a ANSP funciona como um rodoanel, que interliga todas as estradas próximas. Em conseqüência, o tráfego ficou mais curto, rápido e organizado.

Eficiência em pouco espaço
Seria trágico se a rede administrada pela FAPESP parasse, por alguma razão. “A ANSP é a locomotiva da Internet para a comunidade acadêmica”, define o seu coordenador. A rede atende cerca de 200 centros de ensino e de pesquisa paulistas, além de universidades de Mato Grosso do Sul e dos três Estados da Região Sul. Desse modo, estima-se que pela rede da FAPESP circula aproximadamente a metade da produção científica nacional.

Os equipamentos que administram esse estratégico volume de informações ocupam uma sala discreta, de aproximadamente 30 metros quadrados, na sede da FAPESP, anexa ao Centro de Processamento de Dados, que abriga todos os sistemas de gerenciamento dos processos, relatórios e fluxo financeiro das pesquisas financiadas pela Fundação.

“E nem preciso de mais espaço”, observa Hartmut Glaser. De fato, a história já foi ainda mais parcimoniosa. No início, conta Demi Getschko, um dos responsáveis pela implantação da rede, não havia distinção de espaços entre o CPD e a ANSP.

A atividade crescente da rede, porém, fez o CPD iniciar o turno ininterrupto de trabalho, em sistema de revezamento.Ainda hoje, cinco operadores se alternam dia e noite para cuidar tanto do CPD quanto da ANSP, que conta também com uma equipe própria de oito funcionários.

Os rádios, os links, os modems e os computadores daquela área do terceiro andar do prédio da FAPESP não param. De modo geral, a Rede ANSP é usada sobretudo para correio eletrônico e em seguida para transferência de arquivos. Uma de suas peculiaridades é que a entrada de informações é de três a quatro vezes maior que o de saída. Isto é facilmente explicável: os pesquisadores do Brasil buscam muito mais informações no exterior do que o inverso. Afinal, o país não é ainda um centro de informações internacional.

Em alguns casos, o tráfego é acompanhado mais diretamente, a exemplo das informações sobre mudanças climáticas processadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Meteorológicas, em Bauru, e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em Cachoeira Paulista, que podem servir para órgãos do governo como a Defesa Civil se prepararem para enfrentar enchentes iminentes nos grandes centros urbanos.

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