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FAPESP

Um chanceler na presidência

O ex-ministro Celso Lafer foi empossado no dia 26 de setembro

EDUARDO GUEDES Celso Lafer: “Buscarei a convergência em prol da pesquisa e do desenvolvimento”EDUARDO GUEDES

Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores em duas ocasiões e ex-ministro do Desenvolvimento, é o novo presidente da FAPESP, em substituição ao poeta e lingüista Carlos Vogt, que deixou a Fundação e assumiu a Secretaria Estadual do Ensino Superior. Lafer foi empossado no dia 26 de setembro, numa cerimônia na sede da Fundação que contou com a presença do governador José Serra e vários secretários de estado.

Lafer, que integra o Conselho Superior da Fundação desde 2003, acredita que a solução dos desafios e problemas atuais exige a comunicação entre a cultura literária e humanística e a cultura científica. “Se é certo que no mundo contemporâneo não dá para criar, numa visão integrada, uma cultura comum, não é menos certo ser um imperativo do nosso tempo a capacidade de traduzir com competência e assim ensejar uma comunicação entre as duas culturas”, disse em seu discurso de posse. Assim, ele concebe a FAPESP como o lócus, por excelência, do encontro entre as duas culturas. “Com efeito, o seu objeto de trabalho é o avanço, com rigor, do conhecimento em todas as áreas: ciência, tecnologia, artes, literatura, filosofia, ciências humanas.”

Citou Pasteur para afirmar que não enxerga limites entre a ciência básica e a ciência aplicada – “não há ciência aplicada, e sim aplicações da ciência”. Assim, cabe à FAPESP criar as oportunidades para apoiar a investigação científica. “Também entendo que boas parcerias da FAPESP com as empresas na área de inovação e da pesquisa trazem benefícios para a sociedade e são um fator relevante para o desenvolvimento do país”, sublinhou.  “Buscarei a convergência em prol da pesquisa e do desenvolvimento.”

O governador José Serra – em sua primeira visita à Fundação – lembrou que em quatro momentos da vida teve contato com a FAPESP. O primeiro foi em 1960. Ele era  presidente  da União Estadual dos Estudantes (UEE) e  apoiou a iniciativa do governador Carvalho Pinto de criar uma agência de fomento. Anos depois, no exílio, obteve uma bolsa de doutorado na Universidade de Cornell da qual acabou abrindo mão quando mudou o tema da pesquisa. O terceiro contato com a FAPESP foi em 1983. Serra era secretário de Economia e Planejamento do governo do estado e foi responsável pela mudança de critérios da distribuição dos recursos à Fundação proposta na emenda Leça, de autoria do então deputado Fernando Leça, que estabeleceu que o fluxo de recursos à FAPESP fosse calculado com base no ano anterior e repassado em duodécimos mensais. “O dinheiro  estava amarrado ao orçamento aprovado, e não ao executado, e era corroído por uma inflação anual de até três dígitos”, lembrou o governador. O quarto encontro se deu em 1986, na Assembléia Nacional Constituinte, quando Serra defendeu a vinculação de recursos orçamentários para a pesquisa científica.

Na avaliação do governador, a FAPESP contraria uma lei de funcionamento que lamentavelmente rege o desempenho do setor público brasileiro: “Quando se cria uma instituição nova, ela funciona bem nos primeiros cinco a dez anos e depois decai. A FAPESP, com 45 anos, só melhorou”. Reiterou a visão de Lafer sobre a ciência. “Um importante desafio que a Fundação deve enfrentar com base em sua autonomia e experiência é de, simultaneamente, enfatizar a pesquisa básica, que constrói o futuro explorando e desenvolvendo possibilidades, e a pesquisa aplicada, que deve ter, cada vez mais, impacto social e econômico.”

Um estudioso de Hanna Arendt – Professor titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Lafer encabeçou a lista tríplice eleita pelos membros do Conselho Superior da Fundação e encaminhada ao governador José Serra, que o nomeou no dia 31 de agosto. “Agradeço a confiança do conselho e a do governador. Trago para o exercício da função aquilo que é o conjunto de minhas experiências e pretendo dar continuidade a um trabalho de grande qualidade que tem feito da FAPESP uma instituição exemplar”, disse o novo presidente.

A relação de Lafer com a FAPESP teve início nos anos 1970, depois de concluir o doutorado, quando foi convidado pela Fundação a emitir pareceres sobre projetos de pesquisa financiados pela instituição. “Na época também colaborei com os professores Oscar Sala e Paulo Vanzolini em discussões sobre áreas prioritárias de pesquisas. Trata-se de uma relação que se tornou ainda mais próxima desde 2003, quando passei a integrar o Conselho Superior”, disse. “Em um mundo como o de hoje, que opera através de redes, uma das importantes dimensões da atividade da FAPESP tem sido a construção de redes. Também é preciso destacar o papel da Fundação no desenvolvimento científico e tecnológico do estado e do país, pois o controle de uma sociedade sobre o seu próprio destino passa pela capacitação científica e tecnológica”, disse.

Nascido em São Paulo há 66 anos, Lafer graduou-se pela Faculdade de Direito da USP, onde leciona desde 1971. Obteve seu Ph.D. em ciência política na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, em 1970, a livre-docência em direito internacional público na USP, em 1977, e a titularidade em filosofia do direito, em 1988. Foi chefe do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP, presidente do Conselho de Administração da Metal Leve, presidente do Órgão de Solução de Controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC) e presidente do Conselho Geral da OMC. Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (1999) e ministro das Relações Exteriores em 1992 e de 2001 a 2002, Lafer também desempenhou as funções de embaixador do Brasil junto à OMC e à Organização das Nações Unidas. Atualmente coordena a Área de Concentração de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da USP, preside o Conselho Deliberativo do Museu Lasar Segall e é co-editor da revista Política Externa. Integra o Conselho de Administração da Klabin.  É membro da Academia Brasileira de Letras, da Academia Brasileira de Ciências e da Corte Permanente de Arbitragem Internacional de Haia.

Estudioso do legado da teórica política Hannah Arendt (1906-1975), Lafer escreveu vários livros sobre sua obra, como A reconstrução dos direitos humanos, um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt (1988) e Hannah Arendt – Pensamento, persuasão e poder (2ª ed. revista e ampliada, 2003). Também é autor, entre outros livros, de Desafios: ética e política (1995), A OMC e a regulamentação do comércio internacional: uma visão brasileira (1998), Comércio, desarmamento, direitos humanos – Reflexões sobre uma experiência diplomática (1999), Mudam-se os tempos – Diplomacia brasileira 2001-2002, vol. 1 e vol. 2 (2002), JK e o programa de metas (1956-1961) – Processo de planejamento e sistema político no Brasil (2002), A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira (2ª ed. revista e ampliada, 2004) e A presença de Bobbio – América espanhola, Brasil, península Ibérica (2004).

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