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Zoologia

Um guia para desvendar os crânios dos mamíferos da Mata Atlântica

Atlas gratuito reúne imagens dos ossos da cabeça de 147 gêneros de animais terrestres da Mata Atlântica

Prancha do guia mostra crânio de rato-do-cacau (Callistomys pictus) macho: perspectivas permitem examinar dentição e formatos dos ossos

Marcus Vinicius Brandão / USP

Seguindo os rastros de onças-pintadas que circulam no Parque Estadual Intervales, na região sul do estado de São Paulo, a bióloga Beatriz Beisiegel, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), encontrou um crânio, dividido em duas partes, que parecia ser de um mamífero de tamanho médio, misturado às fezes do felino. Com a ajuda de colegas pesquisadores, para quem mandou fotos, ela descobriu que se tratava de um filhote de anta. “Até então, não sabíamos que elas eram parte importante da dieta das onças na região”, comenta.

Como as antas têm poucos pelos em seus corpos, é difícil encontrar traços deles nas amostras fecais das onças, o que fazia com que elas, enquanto alimento, passassem despercebidas. “Os crânios, que podem ser reconstituídos a partir de fragmentos nas fezes, são indícios importantes nesse trabalho de detetive”, observa a bióloga, que estuda os felinos com financiamento da FAPESP. As informações sobre o comportamento alimentar dos felinos colaboram para aperfeiçoar programas de conservação.

Para ajudar na tarefa de entender os vestígios encontrados, Beisiegel agora adentra a mata com uma versão digital do Atlas craniano ‒ Mamíferos da Mata Atlântica e lista de espécies, no celular. Lançada em junho, a publicação tem imagens em alta resolução de crânios de 147 gêneros de mamíferos terrestres, incluindo 11 espécies domésticas – como cães, gatos e gado – e de outros biomas, como o gambá do Cerrado. “Decidimos incluir esses animais porque, por conta do desmatamento, é cada vez mais comum encontrar restos deles em bordas de mata e fazendas”, conta a zoóloga Erika Hingst-Zaher, pesquisadora do Museu Biológico do Instituto Butantan e uma das autoras do atlas. O guia traz também uma lista atualizada até 2020 com 388 espécies terrestres descritas em periódicos e representadas em coleções científicas.

O material está no formato PDF, pode ser baixado gratuitamente e, para quem prefere o livro físico, há uma versão impressa. O público-alvo são pesquisadores, técnicos ambientais e estudantes que precisam identificar os animais encontrados pelo caminho em seus trabalhos de campo. “As imagens contemplam todos os gêneros de mamíferos terrestres descritos na Mata Atlântica até agora. É um material bem representativo”, explica Hingst-Zaher. Além de indicar o percurso evolutivo dos bichos, o estudo dos crânios, em especial dos mamíferos, pode contar muito sobre um determinado animal para além de sua espécie, como a idade e o tipo de dieta. Dentes de carnívoros, de herbívoros e de insetívoros têm feições características.

“Os dentes são muito importantes nesse processo e são as partes que eu olharia primeiro em uma análise para identificar a espécie. Depois, examinaria a mandíbula, que geralmente fica bem preservada, e prestaria atenção no palato. O arco zigomático [uma ponte óssea que forma a parte inferior da órbita ocular, no alto da bochecha] também traz informações importantes, mas quebra com facilidade em crânios encontrados na natureza, em fezes de mamíferos carnívoros ou de corujas”, diz Hingst-Zaher. Por isso, as fotos do atlas incluem perspectivas do assoalho da boca e da mandíbula em visão lateral, com detalhes da superfície dos dentes. Em sua maioria, as imagens foram produzidas por ela e pelo biólogo Marcus Vinicius Brandão no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP), no Museu Nacional do Rio de Janeiro (MNRJ) e no acervo da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Segundo a zoóloga do Butantan, mamíferos menores que habitam a Mata Atlântica, como alguns roedores e morcegos, podem ser mais difíceis de identificar pelos crânios, tanto por seu tamanho como pela alta diversidade de espécies que caracteriza esses grupos. Há imagens de 59 gêneros de morcegos no guia, que totalizam 120 espécies, o que pode ser fundamental para diferenciar um morcego-vampiro-comum (Desmodus rotundus) de um morcego-vampiro-de-asa-branca (Diaemus youngii), uma vez que seus crânios são parecidos.

Entrevista: Erika Hingst-Zaher
00:00 / 16:20

O atlas, feito com apoio da FAPESP, é inteiramente bilíngue – português e inglês – e é fruto de mais de 12 anos de trabalho de Hingst-Zaher e Brandão, hoje estudante de doutorado no MZ-USP. “Quando comecei a compilação, ainda usávamos fotografias impressas. O início ocorreu a partir de um projeto no âmbito do Programa Biota FAPESP com o zoólogo Mário de Vivo, curador de mamíferos do MZ-USP, que nos acompanhou”, conta. O design gráfico da publicação é do publicitário Guto Carvalho, que, junto com ela, coordena o projeto de divulgação da natureza e observação de aves Avistar Brasil.

A zoóloga destaca que a publicação tem sido baixada por professores universitários para utilização em aulas. “Nem sempre há exemplares de crânios para serem usados em disciplinas práticas de morfologia”, observa. Segundo a pesquisadora, alguns guias de turismo ecológico e observação de aves também têm demonstrado interesse, uma vez que precisam conhecer os animais que habitam as matas nas quais organizam passeios.

Para facilitar a vida dos leigos que queiram se aventurar pelas 220 páginas da compilação, os autores optaram por trazer em destaque os nomes populares das espécies, além das nomenclaturas científicas. “Em vez de escrever um artigo científico com uma revisão de taxonomia, preferimos fazer um livro acessível. Quanto mais ciência aberta, melhor”, diz Hingst-Zaher.

Projetos
1. Evolução e conservação sistemáticas de mamíferos no Leste brasileiro (nº 98/05075-7); Modalidade Projeto Temático; Programa Biota; Pesquisador responsável Mario de Vivo (USP); Investimento R$ 1.052.417,93.
2. Estudo da evolução da forma do crânio na família Canidae (Mammalia: Carnivora) utilizando técnicas de morfometria geométrica (nº 01/07053-5); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Erika Hingst-Zaher (USP); Investimento R$ 325.991,31.
3. Atlas craniano dos mamíferos brasileiros (nº 08/53522-6); Modalidade Bolsa de Iniciação Científica; Pesquisadora responsável Erika Hingst-Zaher; Bolsista Marcus Vinicius Brandão de Oliveira; Investimento R$ 5.097,60.

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