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Resenha

Um lugar de chegada

A sociologia como aventura – Memórias | José de Souza Martins | Editora Contexto, 352 páginas, R$ 49,90

Resenhas_Souza MartinsEduardo Cesar“Sou de uma geração que, com espanto e orgulho e com os papéis de inscrição nas mãos, subiu pela primeira vez os degraus de acesso do saguão do prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, na rua Maria Antonia, nº 258. Subir era bem o termo: da rua para o solene, do senso comum para a ciência, da repetição para a criação, da resposta para a pergunta, do obscuro para o desvelado, do escuro para o claro (mesmo sendo a minha única alternativa a do curso noturno), do feio para o belo. Nem de longe me ocorria que estava atravessando o pórtico de meu lugar definitivo na instituição a que me dedicaria o restante da minha vida. Era o meu lugar de chegada.” (p. 213)

Este trecho do livro A sociologia como aventura – Memórias, do professor José de Souza Martins, permite e estimula várias leituras, notadamente, de caráter simbólico.

Em síntese, pode-se resumir todas as versões numa única: aquele menino e adolescente, que viera do chão da fábrica, que lutara brava e cotidianamente com as adversidades de uma vida sofrida, finalmente chegava ao limiar de sua ascensão social. Seria oportuno registrar que o autor, em livro anterior, coloca seus leitores a par das dificuldades que esse menino pobre teve que enfrentar no seu dia a dia de vida (Uma arqueologia da memória social – Autobiografia de um moleque de fábrica, Ateliê Editorial, 2011).

Para usar expressão de R. Redfield, ao delinear o perfil do modelo estético da antropologia, neste novo livro aquele moleque entra em outro palco social ao representar o papel do acadêmico atraído pela sociologia, desde seus tempos de normalista. É como se o jovem adventício encontrasse na sociologia respostas para os fatos que marcaram a sua difícil trajetória social, ao mesmo tempo que indicava o caminho que deveria marcar sua vida de sociólogo pesquisador de campo. Para caminhar por essa vereda, o sociólogo, sem nenhuma relutância, busca inspiração e apoio metodológico na historiografia e na antropologia. Nos estudos e reflexões de Martins, as três disciplinas andam de mãos dadas, sem constrangimentos.

O emaranhado desse palco vem à luz a partir das experiências e interpretações que dele faz o autor por meio de entrevistas concedidas ao longo de sua vida a vários interlocutores. Essas entrevistas são, por assim dizer, contextualizadas por refinados textos sobre a sociologia e os sociólogos da USP, tais como Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Luiz Pereira, Maria Alice Foracchi e, notadamente, Florestan Fernandes, o mestre de todos, por eles reconhecidos como o grande e excepcional inovador da sociologia brasileira. Martins registra, sempre criticamente, as novas elaborações teóricas que passam a compor, sob a orientação do mestre, uma sociologia sempre à beira do precipício. Isto é representado pelo convívio, nem sempre fácil e harmonioso, entre a reflexão sociológica inspirada em Marx e o que se rotulava, então, de “marxismo vulgar”, permanentemente criticado por Florestan. Tudo parece indicar que essa sociologia respondia às experiências de uma vida já vivida pelo autor e condicionava a sua maneira de ver os dois mundos: o que vivera antes e o que vivia então.

Pode-se dizer que o livro de Martins é, a um só tempo, a aventura e a codificação de uma sociologia uspiana, aquela que foi construída pela cadeira de Sociologia I.

A pergunta que fica no ar, que não quer ir embora: em que nicho escondido ficou a sociologia também uspiana que era, à época, simultaneamente construída pela cadeira de Sociologia II? Certamente das reflexões desta, por assim dizer, segunda sociologia, surgiriam nomes notáveis de sociólogos, como Fernando de Azevedo, Ruy Galvão de Andrada Coelho, Antonio Candido de Mello e Souza, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Azis Simão, Emilio Willems, Duglas Teixeira Monteiro, Fernando Albuquerque Mourão.

Trazer à luz outra versão da aventura sociológica da USP seria uma maneira de não colaborar com a crescente desmemorialização que acomete as novas gerações de alunos e professores que lutam a seu modo para criar novas aventuras sociológicas.

João Baptista Borges Pereira é antropólogo, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e professor pleno de pós-graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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