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Obituário

Um maestro entre dois mundos

A trajetória de Benito Juarez, um dos criadores do Instituto de Artes da Unicamp, foi marcada pelo diálogo constante entre música erudita e popular

Benito Juarez regendo o hino nacional durante comício pelas Diretas Já em São Paulo, em 1984

Luiz Granzotto/Prefeitura de Campinas

Um dos fundadores do Instituto de Artes (IA) e do curso de Música Popular Brasileira (MPB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o maestro Benito Juarez morreu no dia 3 de agosto em São Paulo, aos 86 anos de idade. O trânsito realizado entre os universos erudito e popular e os esforços para disseminar a música sinfônica pelo país distinguiram a carreira de Juarez, que também atuou como regente da Orquestra Sinfônica de Campinas durante 25 anos.

O crítico musical e tradutor Irineu Franco Perpetuo lembra que a trajetória do maestro se caracterizou por três eixos de trabalho: o acadêmico, o sinfônico e como regente de coral. “Diferentemente de grande parte dos regentes de corais que em geral são cantores, ele era um instrumentista de cordas que se tornou maestro de coral”, comenta, ao lembrar do pioneirismo de Juarez nesse campo, que só recentemente se profissionalizou no Brasil.

Na visão do pró-reitor de Extensão e Cultura da Unicamp, Fernando Hashimoto, que tocou como músico na Sinfônica de Campinas durante 16 anos, o maestro teve papel central na popularização de orquestras sinfônicas e corais no Brasil. Ele destaca o compromisso de Juarez na execução e gravação do repertório nacional, incluindo músicas de Almeida Prado (1943-2010) e Carlos Gomes (1836-1896), e seu empenho em aproximar a música popular da erudita, mencionando concertos realizados com Milton Nascimento e Hermeto Pascoal. “Almeida Prado, seu colega da Unicamp, dedicou a ele diversas peças, inclusive a icônica Sinfonia dos orixás, que Juarez gravou”, recorda Perpetuo.

“Sua contribuição à cultura e às artes na região de Campinas é imensa. Ele aproximou e deu acesso a setores da sociedade que nunca tiveram oportunidade de escutar uma orquestra ao vivo”, comenta Hashimoto, citando as apresentações organizadas em escolas, circos e presídios. Nesse sentido, Perpetuo, que teve contato próximo com Juarez durante as pesquisas para o desenvolvimento do livro Cyro Pereira, maestro, publicado em 2005, enfatiza que ele conectou a orquestra com a comunidade, em um tempo em que não se pensava que elas devessem sair das salas de concertos.

Hashimoto conta que, até 1998, quando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) foi reformulada, a Sinfônica de Campinas era a orquestra mais cobiçada pelos músicos, por seu nível de profissionalização. “Assim que ingressei no grupo, ele me disse que faríamos uma turnê de Carmina Burana por oito capitais. Disse também que não haveria tempo para ensaios”, lembra, ao mencionar os esforços para disseminar a música sinfônica pelo Brasil. Como fruto do trabalho de Juarez, Perpetuo considera que a Sinfônica de Campinas permanece sendo a única orquestra não localizada em uma capital que é conhecida em todo o país. Há 20 anos, quando deixou o posto, Juarez fundou a Banda Sinfônica do Exército Brasileiro.

Muito antes disso, em 1967, Juarez criou o Coral da Universidade de São Paulo (USP), do qual ele foi maestro e diretor até 2009. Além disso, em 1982, ele fundou a Orquestra Sinfônica da Unicamp. Ele trabalhou na orquestra e no IA da instituição durante cerca de 30 anos, até o final da década de 1990, quando se aposentou.

“Nos anos 1980, Campinas era uma cidade pequena, mas com duas orquestras profissionais reconhecidas”, conta Hashimoto. O pró-reitor destaca que o maestro instituiu na Unicamp o Núcleo de Integração e Difusão Cultural, hoje Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural, local de pesquisas que atualmente abriga a orquestra.

Arquivo/Prefeitura de Campinas Maestro participa de show com Milton Nascimento como parte dos esforços para aproximar a música popular da eruditaArquivo/Prefeitura de Campinas

“Juarez também era conhecido como o ‘maestro das Diretas Já’”, conta Paulo Adriano Ronqui, diretor do IA-Unicamp. Coube a ele reger o hino nacional no comício pelas Diretas Já, realizado no Vale do Anhangabaú, em 1984. “Ele tinha um pioneirismo peculiar e enfrentava as adversidades de forma positiva”, diz. Segundo Ronqui, no início deste ano ele tentou entrevistar Juarez como parte das comemorações dos 50 anos do IA. Mas o maestro, nascido em Januária, em Minas Gerais, já estava com a saúde debilitada e o encontro não pôde ser realizado.

Marco Antonio da Silva Ramos, professor titular aposentado em regência coral no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, lembra que, enquanto esteve à frente do Coral USP, Juarez costumava convidar pessoas de fora da universidade para participar das apresentações. “Eu entrei jovem na USP, com apenas 29 anos. Na década de 1980, ele me aconselhava com frequência sobre o que fazer na carreira. Assistia aos concertos que eu regia e fazia críticas, além de me dar algumas partituras que recebia”, recorda. “Quando eu tinha 23 anos e era aluno de graduação no Departamento de Música, assisti a um concerto de Juarez com o Coral USP no Teatro Municipal. A partir de então, o som daquele grupo se tornou referência de afinação e expressividade para mim”, conta.

Em 1950, o maestro realizou formação musical com o musicólogo e professor brasileiro de origem alemã, Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), com o regente e pianista Ernest Widmer (1927-1990) e com o compositor e arranjador Damiano Cozzella (1929-2918), nos Seminários de Música da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Por fim, Perpetuo recorda que suas apresentações no Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, marcadas por aplausos e reiteradas voltas ao palco, lhe renderam o apelido de Santos Dumont, em alusão ao dia em que teria dado 14 bis. Três dos seus cinco filhos têm carreira musical: Tiago Pinheiro é regente de coral, André toca vibrafone e Carmina Juarez é cantora de MPB. “As diferentes atuações dos filhos refletem o gosto eclético do pai”, conclui.

Além de filhos e netos, o maestro deixa a mulher, Elizabeth Rangel Pinheiro de Souza, docente aposentada do Departamento de Música do IA-Unicamp.

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