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Resenha

Um poeta silenciado pela Inquisição

O cancioneiro das baldaias: Sete sonetos jocosos e uma balada – Salvador, Bahia (1592) | Bartolomeu Fragoso | Sheila Hue (org.) | Chão Editora | 168 páginas | R$ 59,00

A publicação de O cancioneiro das baldaias constitui uma notícia feliz para estudiosos das letras e historiadores do Brasil e de Portugal. Sheila Hue, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), foi quem levou a cabo a tarefa de editar o livro de poemas de Bartolomeu Fragoso, que havia sido sequestrado pelo inquisidor Heitor Furtado de Mendonça, quando da Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil – Bahia, em 1591. Hoje, esses originais estão depositados na Torre do Tombo, em Lisboa.

Fragoso era mestre em artes pelo colégio jesuíta da Bahia e, aos 25 anos, foi denunciado por dois antigos colegas. Segundo disseram, numa aula da esfera (física), Fragoso divergiu do professor acerca da mensuração da distância entre a Terra e o Sol e, ao sair da sala de aula, bradara que não aceitava aquela conta, nem se Jesus Cristo o afirmasse. Nas confissões que fez na mesa inquisitorial, ele não negou ter pronunciado a blasfêmia, mas justificou-a pelo aborrecimento que tivera com o docente.

A partir das denúncias e confissões, soube-se então que o navio em que o jovem Bartolomeu viera de Portugal para o Brasil, aos 13 anos, foi abordado por uma nave de piratas franceses, o que fez que se relacionasse longamente com luteranos e com eles rezasse. Soube-se também que o jovem lera e até copiara um trecho do livro Diana, de Jorge de Montemor, o qual estava proibido pela Inquisição por ser pródigo em amores, feitiçarias e outras licenciosidades. E soube-se ainda que fizera uma tradução do livro de Tobias, a qual alegou que serviria para um auto a ser representado na festa de Nossa Senhora da Ajuda. Com base nessas confissões e denúncias, o inquisidor mandou trazer os papéis de Fragoso e encontrou entre eles um conjunto de poemas: sete sonetos e uma longa poesia em oitavas quebradas, escritos de sua própria mão.

A esse conjunto de poemas, Hue intitulou O cancioneiro das baldaias. De fato, não eram poemas desconhecidos. Desde 1992, pelo menos, foram anunciados por estudiosos em Portugal, como Victor Luís Eleutério e Pedro Vilas Boas Tavares. Porém Hue teve o mérito de reconhecer que aqueles não eram poemas esparsos, mas um conjunto coeso, ou seja, um livro, que necessitava ser publicado.

No cancioneiro, seis sonetos eram endereçados, em voz petrarquista, a duas irmãs portuguesas, moradoras da Bahia, Madalena Correia e Beatriz Correia, moças cultas, porém de má fama; e um soneto era dedicado ao senhor Rui Teixeira, mercador, suposto protetor e mecenas do poeta. Quanto ao poema sobre os perigos do mar, fundamentado com “boas sentenças de filósofos”, o foco são os caminhos do mar entre Portugal e Brasil, questão central do cotidiano quinhentista. Trata-se de um romance em coplas de oitavas quebradas – embora a estudiosa designe-o por “balada”, termo vinculado à poesia da Europa do Norte que não encontra eco na poética ibérica do período.

Como outros poetas peninsulares, Fragoso experimenta poemas de medida velha (redondilhas) e medida nova (sonetos em decassílabos). E, de fato, por trás da aparente jovialidade de um estudante baiano, demonstra uma aturada reflexão sobre o fazer poético, infelizmente interrompida pela prepotência inquisitorial. Sendo uma excelente pesquisadora, Hue identificou nesse poema sobre os perigos do mar a versificação de passagens inteiras d’A arte de marear, livro famoso do humanista e pregador de Carlos V, Antônio de Guevara, tão apreciado na península Ibérica como em suas colônias (aliás, lembremos que o Estado do Brasil nesses anos fazia parte do Império espanhol).

Por fim, com O cancioneiro das baldaias, Fra­goso adquire o estatuto de mais antigo poeta conhecido do Brasil, anterior a Bento Teixeira (1561-1600), seu contemporâneo, que até então detinha o título. Ambos compuseram uma obra poética reduzida, ceifada pela Inquisição, que, embora nada de “judaizante” tenha encontrado neles, nem por isso deixou de calar suas vozes. No caso de Fragoso, cuja sentença de “leve suspeito na fé” sequer menciona uma pretensa origem cristã–nova, a punição foi o exílio perpétuo. A edição de Hue, ao resgatar suas poesias e ilustrar o ambiente literário da cidade da Bahia em finais do século XVI, constitui uma iniciativa admirável para o conhecimento desse novo primeiro poeta do Brasil.

Adma Muhana é professora de literatura portuguesa da Universidade de São Paulo (USP).

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